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Assim foi feito. Não demorou para Meiinha aparecer, onde agora ambos escovavam seus próprios animais com Lucvan a ceder uma escova restante a Typson. Cada movimento era-se repetido, copiado e aplicado de acordo com o instrutor. Não era difícil. Precisava-se apenas de uma cautela singela para que as arestas da escova não machucassem o animal no manuseio do movimento. Além, mais nada. Typson achava até divertido – sem dizer que os animais ficavam quietos durante o carinho, descansados enquanto comiam o capim que brotavam nos cantos das raízes. Typson, por um momento, havia se esquecido dos problemas passados e presentes, concentrando toda sua energia apenas naquele momento, no silêncio da qual gostava, pois não era preciso de palavras para descrever o que se fazia, ele apenas o fazia; o simples, o tato. Fora Lucvan que iniciara a conversa em si.
– Maus bocados se passaram, não foi? – Continuava concentrado em seu afazer, agora na crina do cavalo. – Acho que tenho que te contar uma coisa antes que fique muito... tarde.
Typson não entendeu o que ele quis dizer. "Ainda está de manhã", pensara consigo. Mas não pôde negar sua curiosidade pueril, ao menos a seu ver. Queria perguntar-lhe sobre a escultura, mas o que lhe saiu pela boca fora outra pergunta, uma da qual ele mesmo talvez não quisesse saber a fundo.
– O que são as Sombras? – Falou paulatinamente em um suave tom, receoso.
Lucvan não conseguiu conter o espanto. Quiçá não estivesse preparado para tal pergunta. Quiçá apenas sua menção era-se temível apesar de todo preparo. O homem estagnou o pentear, olhando para Typson do outro lado do animal, mirando-o por cima do dorso com seu olhar oscilante entre o animal e o menino.
– Não era essa pergunta que esperava. – Confessara. – Mas não posso negar que seja compreensiva.
Passada uma longa escovada da crina para o pescoço, seguindo pela espádua até as patas, onde se erguera e repetira o movimento mais de uma vez, Lucvan respondera à pergunta depois de longas três escovadas.
– Existem coisas estranhas no mundo, Typson. Coisas que adultos ou crianças não devem conhecer. Coisas que precisam permanecer em silêncio mesmo que seu grito seja mais alto que qualquer coisa. Certos conhecimentos servem não apenas para pessoas seletivas, mas sim para pessoa nenhuma; nem mesmo para mim ou para você.
– Não vai me contar. – Incomodara-se. – Depois de tudo isso?
– Espero que entenda. – Tentara apaziguá-lo. – Só o contarei apenas o que todos sabem, inclusive eu.
O cavalo de Lucvan relinchara. Typson esperou terminar de escovar os animais. Quanto tudo estava pronto – cestas amarradas, rédeas postas e selas fixas –, Lucvan iniciou.
– É tudo que se sabe até agora. – Informara montando no cavalo. – Uma estória, com curioso conto.
Entregara-lhe o cantil. Typson, que seguia em comando do animal, tomou um belo gole. Era realmente refrescante assim como fora descrito. O devolveu no mesmo momento em que Lucvan cofiou sua barba antes de falar, olhando para frente em uma expressão sonhadora e dura.
– Tudo aconteceu em inúmeras gerações de outrora, quando o continente era dividido por duas raças soberanas. Os "nobres" homens que viviam ao Norte e as criaturas temidas mais familiarizadas como As Sombras que viviam ao Sul. Reza a lenda, que o homem-rei governante da época, de alguma forma, iniciara uma escravização em massa, sendo como mão de obra essas criaturas estranhas. Esse rei utilizou-as por muitas décadas em finalidade de conquistar terras, construir fortalezas e cidades a seu bel-prazer.
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A Jornada de um Assistente e a Esfera da Lua
مغامرةNada inicia-se sem uma perturbação. Do que você seria capaz caso perdesse parte do que ama e tudo que tivesse como esperança fosse uma lenda antiga esquecida por muitos? Um jovem chamado Typson encontra-se numa situação semelhante, juntamente a Anab...
