(...) "Depois, ao levantar a cabeça, viu que fazia escuro na casa. Tinha estado a ler sem a mínima luz, na escuridão. Agora, ao baixar os olhos para o livro, já não conseguia distinguir as runas. Mas, mesmo assim, o horror voltou a crescer dentro dele, parecendo que o deixava preso à cadeira. Sentia-se frio. Olhando por cima do ombro, viu qualquer coisa que se agachava junto à porta fechada, um coágulo informe de sombra, mais escuro que a escuridão. Parecia querer alcançá-lo e segredar e chamá-lo num sussurro, mas não conseguia entender as palavras".
Ursula Kroeber Le Guin – Ciclo Terramar – O Feiticeiro e a Sombra
O Ataque
Typson via-se no topo da árvore com Anabell ao seu lado, juntos, contemplando a vista proporcionada na sinfonia dos animais viventes da floresta. Ouviam o som dos pássaros a chilrear assobios, a música doce ressoante entre folhas e galhos aprazando-se com a distância, tornando-se fracas e então inaudíveis. Ouviam o correr dos animais por suas presas, o som de seus passos nas folhas secas e douradas; uivavam, silvavam, cantavam exercendo o que eram e o que seriam e deveriam ser. Uma quietude límpida com o sol a resplandecer ao rosto de ambos, no telhado úmido do vilarejo, no orvalho do capim, no revoar dos pássaros ao lustroso pelo vermelho da raposa tão belo quanto o cabelo da jovem criança. O vento soprava forte. A felicidade estava consigo, com eles, no ar, no sonho.
No entanto, tão rápido quanto um piscar, o vento parara de soprar e o sol não mais brilhou. Os animais emudeceram-se e Ana se fora. Não existia mais árvores, o vilarejo, a floresta ou céu profundo. Typson se encontrava num vasto e cinzento mundo donde a grama em seus pés esmaecia, pálida, sem cor, ausente da vida. O ar não percorria mais as colinas. Não havia mais nuvens, mas unicamente uma esfera cinza ao alto irradiando uma luz opaca e morta. Cinza. As cinzas e nada mais.
Typson gritava todos os nomes possíveis que passavam em sua cabeça. O nome de sua mãe, o nome de Ana, de Lucvan ou mesmo os dos garotos da rua. Chamava por Oliver, por Mateus e mesmo por Lucas, mas ninguém o respondeu. Estava só. E no silêncio sufocante, despertou.
Abriu os olhos cravando-os no teto. Em num sentido inconsciente já sabia que era de manhã, ou quase. Não era a hora em que de costume acordava, e a segunda tentativa em pegar no sono não seria de um tanto apropriado já que se levantaria cerdo ou tarde. Por outro lado, não queria mais dormir, receoso em ter o mesmo sonho outra vez.
Levantara-se ainda enrolado ao lençol de farrapos. Abrira a porta da frente visualizando-se sentar nos degraus da varanda e esperar sua mãe acordar ou, simplesmente, o primeiro raiar do sol. Ficaria lá, olhando as estrelas, pensando no que faria no dia a decorrer. Ao abrir da porta, respirara fundo o ar noturno e soturno ao se deparar com uma figura mais à frente, sentada no lugar em que se imaginava estar. No infinito, uma singela dama enlanguescia seu sorriso, revelando em terra a figura junto a Typson. Atícia virou o rosto na surpresa e na presença de seu filho, para após exercer umas palmadinhas ao seu lado, indicando onde seu filho deveria sentar.
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A Jornada de um Assistente e a Esfera da Lua
AdventureNada inicia-se sem uma perturbação. Do que você seria capaz caso perdesse parte do que ama e tudo que tivesse como esperança fosse uma lenda antiga esquecida por muitos? Um jovem chamado Typson encontra-se numa situação semelhante, juntamente a Anab...
