Velhos Segredos

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Partindo da Cidadela, pelas extensões de terras à noroeste, um expansivo reino estadeava. Dentro das fronteiras de respectiva monarquia, cujo rei não se presenciava ao trono, havia um vasto lago envolto em esparsas brumas. Infindas lendas rodeavam-na por criações do folclore nativo, mulheres feéricas revestidas de água que cantavam à noite atraindo pescadores, embevecendo-os nas profundezas ao aviá-los após fruição, para então devorá-los ao sabor das almas; ou contos de monstros cujos nas águas turvas habitavam, portados de olhos faiscantes e famintos. Umas das variadas criaturas malditas do lago Ipuna.

Em uma peculiar noite, sob a luz flava da lua minguante, dois irmãos perseguiam sua presa à margem do lago ominoso. Mal ousavam respirar, evitando o mínimo ruído, acoitados, velando um animal beber da água negra. Chifres desenvolvidos e ramificados apresentavam aos pares de olhos azuis um prêmio inestimável. "O rei me implorará por esta cabeça". – Regozijava-se o mais velho e encorpado dos irmãos; o caçador.

– Dayn, as fechas. – Sussurrou impaciente o arqueiro ao irmão mais novo. – As flechas. – Repetiu entredentes. – Vamos de uma vez, criatura lerda. Passe-as rápido, antes que o cervo fuja!

Em contraste ao seu irmão Tân, Dayn pouco cativava apreço em matar um formoso cervo ou, tampouco, quaisquer animais. Seu pai e mãe, filhos de camponeses, cujo os pais de seus avós certamente foram, possuíam uma linhagem de caça da qual exigia o mesmo para seus descendentes. O próprio rei, em algumas ocasiões, solicitava a perícia de seu pai e irmão na busca, dentre a floresta, por cervos e outros animais para o estoque pessoal real.

Dayn, no entanto, não herdara similar habilidade em seu sangue. Era magro e medroso a uma tendência para o estranho. Certa vez implorara ao seu rei um livro para leitura, e como resposta recebera um convite ao campo religioso. Certamente entendera a mensagem; contudo, mesmo ao tom da ironia, poucas eram as chances de juntar-se aos sacerdotes. Detestava-os com toda as forças. Em sua visão, tais homens não passavam de arrogantes em posse de livros dos quais privava-se dos demais. Não desejava ser arrogante. Desejava somente saber ler o que outros não conseguiam.

– Pelo Grande Ser, homem! Tu estás surdo ou demente? – Socara-o ao ombro. – Passe-me as malditas fechas!

– Estou com elas em mãos. – Resmoneara a um tom irritado retirando a flecha da aljava. – Não precisava me bater.

– Recebes pancadas por ser um inútil e fraco. – Rosnara indiferente ao irmão. – Disse ao pai que preferiria vir sozinho, mas, infelizmente, o coração de nossa mãe é gentil.

– Não pedi para estar aqui. – Cruzara os braços, suspirando ao virar do rosto. – Tân, olhe! – Apontara. – O cervo!

O animal afastava-se do lago após seu saciar. Fora perante a exclamação de Dayn que o animal fugiu, verdadeiramente.

– Olhe o que fizeste, idiota! – Socara seu irmão uma segunda vez, agora mais forte. – Boa sorte em dizer isso para o pai e para mãe.

– Mas, eu não fiz nada! – Protestou o jovem amaciando o local dolorido.

– Exatamente. Nada! – Levantou-se, bufando. – Nunca mais o trarei para caçar. Nunca!

– Agradeceria. – Respondeu adverso. Deixou seu irmão prosseguir sozinho a luz do lampião.

Abaixara-se para pegar a aljava, mas quando retornou o olhar para o lugar onde o cervo bebera água, divisou, ao esfregar dos olhos, o contorno de uma esguia mulher no respectivo lugar.

A Jornada de um Assistente e a Esfera da LuaOnde histórias criam vida. Descubra agora