Só existe verdadeira liberdade na submissão ao dever fielmente cumprido. Conhecer, portando, a verdade é perceber o sentido da vida. E perceber o sentido da vida é crescer em serviço e burilamento constantes. Observa desse modo a tua posição diante da Luz...
Chico Xavier
Andavam a passos largos com o caminho à frente iluminado pela grácil secundária luz. Tatimus sumira entre as sombras das casas com sua pedra alumbrando goticamente o que havia ao seu redor. As ruas estavam mortalmente silenciosas.
Por um momento, correram. Empurravam-se, socavam-se amigavelmente, competindo quem seria aquele a alcançar Biblioteca a um curto intervalo de tempo. Na metade do caminho pararam, arfando não apenas pelo cansaço. Sentaram-se numa varanda de uma casa qualquer para após retornarem à caminhada, agora taciturnos.
A certo momento, Typson contara a seu amigo sobre a aventura que tivera ao lado de fora. Contara como escapara da sentinela com duas maçãs; e como, por muito pouco, não fora descoberto de seu esconderijo, literalmente. Narrara a maneira de como caíra da carroça e penetrara na floresta, sucumbindo-se a dores e devaneios devido a uma misteriosa voz que o assombrara, ao menos até o momento da aparição de seu companheiro.
Adentravam numa ruela escura quando Typson terminou.
– Uma voz? – Perguntou Razi com a Lua a iluminar seu rosto. – Digo, uma voz feminina?
– Sei que parece loucura – disse a um tom de quem não aprecia desconfiança –, mas eu sei o que me aconteceu. Foi assustador, meu amigo, para não dizer apavorante.
– Uma... – receou Razi por uns instantes – ...uma Sombra?
Typson pestanejou.
– Não. – Respondera-o numa convicção sonhadora. – Era mais que isso. Eu... er... eu não sei lhe explicar. – Deixou seus ombros cair. – Senti como meu coração não quisesse mais bater dentro de meu corpo, que meu peito se abriria e que dele saltasse para fora como um rato liberto de uma armadilha.
Razi não mais acrescentou comentários. Olhava-o somente com certa incerteza e espanto perante o que ocorrera.
– Havia alguém lá, Razi. Tampouco uma criatura da noite era. – Expirou fortemente. – Eu sei que estava lá, me observando a dizer que...
– A dizer o quê?
Procurou palavras, mas as mesmas não vieram.
– É difícil explicar. – E dera os ombros, finalizando cansadamente.
Caminharam mais um pouco. Percorreram ruas tácitas e cegas pela escuridão, definidas apenas por uma única luz fraca, ressaltando particularmente o orvalho que a noite produzia; pérolas prateadas na superfície de qualquer coisa que ali existisse. O vento constante jorrava contra eles, cruelmente carregando consigo uma mensagem álgida da montanha ao longe.
As casas passavam lentamente aos seus lados em aspectos sombrios, sem vida. Typson tão pouco gostava de assistir a monotonia da noite. Imaginava que alguma força exercia um tipo de lentidão, um passar arrastado do tempo, criação de uma expectativa angustiante de que o mundo voltasse a funcionar e o enfim nascer da manhã. Mas este nunca nascia. A suposta suspensão do tempo criava uma ilusão de um presságio errôneo, donde se considerava um falso eterno da noite ao mundo. Typson suspirou. Razi respirara fundo.
O percurso até os Anciões era deveras conhecido, eliminando por completo a possível possibilidade de se perderem. Foi com o terminar de uma rua transversal qualquer em que os jovens avistaram o monumento na sua magnificência conhecida. O peculiar campo de capim dourado assobiava ao sopro noturno. O terreno cujo elevava, evidenciava o erguer da Biblioteca, essa mesma muito perceptível aos olhos de quem a apreciasse. Casas rodeavam-na com segura distância e as ruas que ali se conectavam à edificação tendiam seu fim para a mesma como um ponto final da Cidadela, ou seu centro.
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A Jornada de um Assistente e a Esfera da Lua
ПригодиNada inicia-se sem uma perturbação. Do que você seria capaz caso perdesse parte do que ama e tudo que tivesse como esperança fosse uma lenda antiga esquecida por muitos? Um jovem chamado Typson encontra-se numa situação semelhante, juntamente a Anab...
