Capítulo Três - Uma Luz na Escuridão

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"E, para além da sua arte, perdera algo mais, algo maior do que a sua arte, que tinha desaparecido. Essa perda, tal como a morte da mulher, deixara-o num vazio em que não havia felicidade e nada de novo existia ou poderia vir a existir. Nada podia acontecer, nada podia mudar". ­

Ursula Kroeber Le Guin – Ciclo Terramar – Num Vento Diferente



O soar do trotar era-se nítido, violenta e abafadiça na terra escura em que passavam, avocando, antes dormentes ou ativos, animais que na escuridão espreitavam ou caçavam. Assim, em meio a taciturnidade ameaçadora, célere e graciosa, a atravessar a suave camada de neblina prevalecida, uma égua galopava com seus três passageiros cujos atentavam-se com o que, em derredor, sujeitava ter vida.

Toda a atmosfera da floresta transmitia insegurança; o próprio ar, cada pedra, cada árvore. Figuras sobrenaturais ganhavam vida, mãos secas e irregulares ou troncos com feições distorcidas; sorrisos maléficos sedentos por vida. Assim passava-se na mente de Typson, cujo permitiu aflorar no medo a imaginação obscura. Contudo, avançavam. Respiravam pesadamente. Typson sentia seu corpo enrijecer. Ana já não falava fazia um bom tempo e muito menos sua mãe. De uma forma que não sabia expressar, Typson aceitou o silêncio ao imaginar que seria uma dura calada infligida pela dor ou desespero.

O ritmo da cavalgada mantinha-se constante, movimento que naturalmente Atícia desempenhava e sabia que seu filho e Ana também realizavam. Eles seguiam o som, o respirar da montaria. Typson, por sua vez, recordava-se muito bem de como aprendera se relacionar com o animal; uma das muitas lições que Lucvan ensinara-o em vida.

"Você não o comanda, Typson. E nem ele a você!" – A característica voz soou em sua cabeça, sempre paciente e instrutiva. "Mantenha a calma e... misturem-se."

"Misturar!?" – Questionava-o em resposta. – "Como assim?"

"Misture-se como... a massa de um bolo ou como... os ingredientes de uma sopa." – Falava-lhe enquanto fazia um gesto circular de como que alguém meche algo. – "Misturar, misturar..."

– "Misturar..." – Typson repetia arfando-se no animal. – Misturar... – Typson repetiu na escura floresta.

– Falou alguma coisa? – Aparentou Ana ter ganho atenção.

– Uma lição. – Respondeu distraído. – Meu aprendizado.

Ofertando um cansado sorriso, Ana retornou o olhar para longe, a remexer em seu cabelo, jogando-o, sem muito ânimo, para trás. Typson não sabia como Ana aprendera a cavalgar, apesar de ter uma ideia de quem a ensinara.

Anthony tinha um cavalo também.

Depois do que parecia ser horas de cavalgada, angustiado Typson estava cada vez mais com o silêncio de sua mãe. Ereta ela se mantinha a segurar as rédeas como uma boa guia. De seus olhos, faíscas verdes cintilavam no negrume sufocante, escuridão essa cuja não era capaz de encobrir o longo cabelo negro a esvoaçar, chicoteando o ar, exalando um curioso cheiro de terra, verduras e suor.

Mesmo de costas, Typson conseguia sentir a presença de sua mãe, a forma como ela se comportava ou a expressão cuja deveria carregar. Sabia do foco ministrado no adiante como se de alguma forma fosse capaz de prever o que viria à frente. Via-a cerrar o cenho, a boca, preparando-se pelo que lhe aparecesse. O quê que fosse. Qualquer coisa.

Não muito longe uma coruja piou. Ao aproveitar a quebra da monotonia do trotar, Typson obtivera a coragem de perguntar:

– Estamos indo para o Sul?

A Jornada de um Assistente e a Esfera da LuaOnde histórias criam vida. Descubra agora