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– Não vá! – Disse alguém, uma mulher, num sonho, distante. – Sabes da verdade. Eu vos disse.
– Assim como tu. – Respondeu alguém, um homem, sozinho, frio. – Eu a odeio.
– Mas eu o amo! – Exclamou em retorno.
O homem, que se distanciava, obscuro, falou:
– Nada menos que outra faceta do ódio.
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Uma manhã inteira se passou. Astros celestiais dançaram pacientes no infinito enquanto dormiam. Há muito tempo o bom descanso era desejado. Pensamentos em claro e corpo revigorado. E como rotina, um novo airoso sol surgia, escondido, iluminando em feixes a terra, inclusive os olhos de Typson, o buscando profundamente em seu sono.
Acordara confuso, esfregando os olhos sonolentos, estirando as pernas ao alto, bocejando o máximo que podia. Demorou a reconhecer onde estava, e teve que caminhar por entre a choupana a fim de relembrar do acontecido.
Havia um quarto somente, uma desgastada porta fechada à direita, e outra nos fundos, aberta ao fim de um curto corredor direção ao quintal donde ficava uma latrina a céu aberto pouco descritível. Ao redor, algumas mobílias atribuíam-se no mesmo teor de desgaste; uma mesa – lugar onde em uma cesta jazia três maçãs e pães –, três velhas cadeiras e, mais ao fundo, um fogão de pedra ao início do corredor, fundindo-se a parede do casebre.
O aparente fogão sustava um pequeno caldeirão escuro engasgado no buraco por onde o fogo saia. A cama em que passara a noite não era tão diferente do que era acostumado; e pelo notável desuso, dura e com pouquíssima palha estava. "A se notar o abandono" – ironizou suavemente.
O telhado esburacado permitia passar harmônicas réstias do sol, iluminando a poeira e o mofo existente. A única pequena janela a esquerda apresentava-se quebrada, apodrecida com o desgaste da umidade. Talvez a única e possível admiração de Typson era o porquê e como o casebre poderia ainda estar de pé.
Caminhando até a janela e retirando a camada fina de pó, Typson apoiou os cotovelos na soleira, observando melhor o enorme céu cinzento.
Nuvens pesadas faziam com que o sol oscilasse, piscando, vacilante, cativando Typson cujo cativava intensamente aquele momento do dia, fazendo-o com que se pegasse distraído em devaneios e lembrasse, entre profusos pensamentos, o estranho sonho num olhar vago e distante.
O peculiar mundo cinzento retornara e um homem, não muito novo ou velho, de curta barba acastanhada e olhos escuros, o capturava nos braços e o protegia de alguma coisa ou de algo importante.
E no sentido do sonho, carregado fora para debaixo do chão, a fugir de algo, desesperado e temeroso por aquele em proteção. Em seguida, no significado abstrato de tudo que existia, como mágica o sentido do sólido diluiu, o escuro unindo-se a si; um abismo negro por onde olhos brancos os engoliam, despertando Typson para seu alívio.
Arrepiou-se ao se recordar, sentindo a eletricidade se espalhando por todo o corpo. Não gostava de seus pesadelos, principalmente quanto faziam sentido nenhum. Tentou esquecer, mas era inútil e sabia. Tudo viria outra vez.
Com a imagem dos olhos brancos em mente, Typson observava atentamente o movimento da rua. Precisava de uma distração. Logo se pegou contando as pessoas que por lá passavam.
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A Jornada de um Assistente e a Esfera da Lua
PertualanganNada inicia-se sem uma perturbação. Do que você seria capaz caso perdesse parte do que ama e tudo que tivesse como esperança fosse uma lenda antiga esquecida por muitos? Um jovem chamado Typson encontra-se numa situação semelhante, juntamente a Anab...
