Capítulo 57

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Teresa

Sentia minha cabeça pesar e o meu corpo inteiro anestesiado. Escutei barulhos de máquinas ao meu lado e abri meus olhos vendo tudo embaçado. Hospital. Suspirei pesado fechando os olhos e quando minha visão voltou ao normal, vi um médico e uma enfermeira em frente à minha cama.

– Bem vinda de volta, senhora Lários. – Ele me disse suavemente.

– O que... O que aconteceu? – Perguntei confusa.

– A senhora foi atropelada ontem. – Minha mente inundou com as lembranças. Eu estava atravessando a rua e um carro...

– Como está o meu bebê? – Perguntei apressada e tentei colocar minhas mãos em minha barriga, mas o médico me impediu.

– Teresa... – Sua voz enviou uma onda de pânico em meu corpo.

– O meu bebê! Como está o meu bebê? – Meu coração começou a acelerar e as máquinas apitaram furiosas.

– Acalme-se, senhora Lários, eu preciso que a senhora fique calma! – O médico segurou meus braços e eu não conseguia controlar minhas lágrimas.

– Doutor, o meu bebê... – Tentei mais uma vez.

– Seu bebê lutou muito, Teresa, mas, infelizmente.. – Ele começou.

– NÃO! O MEU BEBÊ NÃO! POR FAVOR! – As lágrimas derramaram sem parar pelo meu rosto e ouvi gritos ecoarem pelo quarto. Não percebi que eram meus até sentir alguém me segurando e eu perder a consciência novamente.

Acordei mais uma vez e dessa vez estava em um quarto diferente. Automaticamente lembrei do que o médico me disse e minha mão pousou em minha barriga. Ele não estava mais lá e senti meu coração quebrar em pedaços e um vazio se instalar em mim. Fechei meus olhos novamente e chorei dolorosamente até sentir uma mão quente segurando a minha que estava onde deveria estar o meu bebê.

– Amor... – Gustavo me chamou e sua voz se quebrou. Olhei para ele e não consegui conter a dor que sentia em meu peito. Já estava sem todos os fios que me enrolavam e, eu não sei como, mas a próxima coisa que percebi, já estava no colo dele molhando sua camisa com meu choro.

– Nosso bebê. – Minha voz saiu baixinho enquanto ele alisava meu cabelo.

– Ele tentou, amor, os médicos disseram que ele lutou muito. – Ele falou em meu ouvido.

– O que aconteceu? O médico falou comigo e depois eu não lembro de mais nada. – Agarrei Gustavo com força.

– Ele precisou te sedar para que você não se machucasse. Você estava na UTI e depois veio pro quarto. – Olhei para o seu rosto e vi o cansaço embaixo dos seus olhos.

– Você não descansou. – Constatei alisando as bolsas debaixo de seus olhos e ele negou com a cabeça.

– Não pude, amor. Daqui a pouco a Dra. Paloma vem aqui falar com você sobre tudo. – Minha tristeza refletia a dele.

– Quero ver a Dulce. – Falei baixinho.

– E ela quer te ver também. Está nervosa desde cedo, achando que vão levar a mamãe embora de novo. – Ele disse e eu não respondi.

     Agarrei sua camisa novamente e chorei em silêncio. Não sei quanto tempo se passou enquanto estava no colo do Gustavo. Ouvi a porta do quarto se abrir e olhei para ver Dra. Paloma e o outro médico entrando. Voltei a me deitar na cama e Gustavo segurou a minha mão.

– Vejo que já está mais calma. – O médico me falou e eu fiz careta.

– Teresa. Que bom que você está bem. – Dra. Paloma falou suavemente e eu olhei para ela.

– Eu não estou bem. Não consegui segurar o meu próprio bebê. Então, eu não estou bem. – Falei dura com ela e Gustavo apertou a minha mão.

– Eu sinto muito. Mas você não pode se culpar, Teresa, não foi culpa sua. – Dei de ombros. Nada do que ela dissesse poderia mudar o que eu estava sentindo.

– Teresa, você chegou aqui inconsciente, perdeu sangue e isso comprometeu o bebê. – O médico começou a me explicar.

– A placenta deslocou do útero e isso dificultou a passagem do oxigênio para o bebê. Tentamos estabilizá-lo, mas infelizmente ele não resistiu. – Dra. Paloma falou com pesar.

– Não quero mais ouvir. – Tapei meus ouvidos.

– Meu amor... – Gustavo me chamou mas não olhei pra ele.

– Saiam, por favor. – Olhei para os médicos e eles balançaram a cabeça se retirando do quarto.

– Não faz assim, amor... – A voz de Gustavo me fazia querer chorar mais.

– Você também, Gustavo. Quero ficar sozinha. – Seus olhos estavam magoados e eu não conseguia suportar aquilo.

– Teresa... – Ele me olhou ainda segurando minha mão.

– Por favor. – Desviei o olhar e virei a cabeça pro outro lado.

– Não se afaste de mim. Eu te amo. – Ele sussurrou e minhas lágrimas caíram . – Você quer que eu traga a Dulce Maria? – Ele me perguntou e meu coração se agitou com a ideia de ver a minha filha.

– Agora não. – Respondi sem olhar para ele e o escutei suspirar.

– Vou em casa buscar algumas coisas suas e mais tarde trago ela, tudo bem? – Balancei a cabeça concordando e ele beijou minha testa. O vi sair do quarto e fechei os olhos deixando que aquele vazio me consumisse pelo tempo em que estava sozinha sem ninguém pra me olhar com pena. Eu não queria a pena de ninguém.

A enfermeira entrou no quarto para checar como estava, mas estava tão perdida em meus pensamentos que quase não percebi a sua presença. Sentia seus olhos em cima de mim e eu não me importava. Meus olhos ardiam do choro incontido, mas algo dentro de mim me fez parar de chorar. Eu não conseguia mais, era como se já não houvesse mais lágrimas para derramar porque meu filho não iria mais voltar.

– O seu marido e sua filha estão lá fora há algum tempo. Você quer que eu os chame? – Ela me perguntou e eu só balancei a cabeça afirmando. A vi sair do quarto e alguns minutos depois a porta se abriu novamente.

– Mãezinha! – Vi Dulce entrar no colo do pai e seu rostinho estava vermelho. Olhei pra Gustavo e seus olhos me analisavam. Eles se aproximaram e Dulce se jogou na cama.

– Assim você machuca a mamãe, filha. – Gustavo disse e ela parou.

– Eu achei que você tinha ido embora junto com meu irmãozinho, mamãe. – Ela falou baixinho se aninhando em meu corpo. As lágrimas queimaram atrás dos meus olhos, mas não as deixei cair. Gustavo beijou a minha cabeça e se sentou na cama, próximo a Dulce.

– Eu estou aqui, minha carinha de anjo. – Alisei seu cabelo e a vi suspirar relaxando.

– O papi me falou que o meu irmão agora está no céu. – Ela me olhou. – Ele virou um anjo né, mamãe? – Balancei a cabeça e me deitei de lado, olhando para ela. Ela se deitou do mesmo jeito, olhando para mim. – Eu já tinha pensado no nome dele, mamãe, você quer saber? – Ela perguntou inocente alisando meu rosto. Eu não queria saber, mas não podia negar isso a ela.

– Sim, minha carinha de anjo. – Gustavo me olhou e eu mordi o lábio.

– Arthur. – Ela disse triste e eu a abracei.

– Filha! Que nome bonito. Agora, sempre que você olhar pro céu, Arthur estará lá cuidando de você. – Gustavo disse alisando o cabelo dela.

– Deita aqui com a gente, papi. – Dulce se aproximou mais de mim dando espaço pro pai se deitar e ele me olhou como se pedindo permissão. Acenei e ele se deitou na cama com a gente.

– Eu amo tanto vocês. – Ele sussurrou sem tirar os olhos de mim e alisou meu rosto. Não consegui respondê-lo porque eu não sentia nada. Tudo o que ecoava na minha cabeça era o nome do meu anjo, Arthur.

A volta de TeresaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora