Voltando Para Casa

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A luz amarela me levou, intacto e seminu para um outro quarto cinzento de metal, muito parecido com aquele onde estava anteriormente aprisionado. Não ouvia nada e enxergava pouco na parca iluminação provida pela lâmpada pequena pendente no meio do teto, também de metal, assim como o piso. Meu olfato humano estava sofrendo naquele lugar, afetado pelo forte cheiro de podridão que vinha de uma das duas macas no centro do cômodo, deitada na qual jazia o corpo de um homem morto, cerca de cinquenta anos, acima do peso e com restos do que um dia fora roupas de policial. Seu tórax abdome, braços e pernas estavam intactos, mas seu rosto estava cheio de hematomas indicando que levara muitos socos, provavelmente quando ainda estava vivo e sendo torturado por alguma razão. O pescoço do cadáver estava muito estraçalhado, de ambos os lados, como se mais de um daqueles malditos sanguessugas tivessem se alimentado dele ao mesmo tempo. Olhando melhor, o homem parecia uma ameixa seca e mesmo assim, coloquei as duas mãos sobre sua pele, em partes menos sujas, apesar do cheiro nauseabundo, liberando meu poder de cura sobre ele, sem efeito algum. Estava irremediável e definitivamente morto.

Ouvi passos e risadas espalhafatosas masculinas, peguei por um impulso um molho de chaves estranhas que estava largado sobre a outra maca e me encostei na parede perto da porta metálica, tentando não fazer barulho. Dois homens grandes entraram no quarto conversando.

– Esse daqui vai para a água agora – disse um deles – não tem mais nada que nos sirva.

– Pelo menos ele deixa que a gente se alimente dos bisbilhoteiros – respondeu o outro – ouvi dizer que matou todo o seu antigo bando.

– É melhor não falar sobre o Maltec – repreendeu o primeiro – ele parece um moleque, mas é muito perigoso e tá sempre de olho em tudo.

Como eles haviam deixado a porta aberta ao entrar, sai tentando não fazer barulho, o que não era fácil com aquele piso – aliás quem diabos faz um piso de ferro em seu covil? Isso não é nem um pouco discreto e eficiente, pensei – e me dirigi para o fim do longo corredor, tentando não imaginar que cada uma das doze portas de ambos os lados, guardava alguém que como eu fora trazido para servir de alimento e ser torturado por essas criaturas desagradáveis e assassinas. Alcancei a porta principal no exato momento em que um som forte de alarme foi ouvido por todo o lugar. Abri depressa a fechadura usando uma das chaves do molho e tranquei de novo ao sair. Do lado de fora, o vento frio do mar me surpreendeu, me fazendo perceber que estava a bordo de um navio aportado, enxergando ao longe as luzes de uma grande cidade que eu tinha certeza não ser Beacon Hills.

Saltei para a escada e corri depressa, meus passos faziam barulho, mas os monstrengos não me perceberam quando eu fui para o cais e depois corri desesperado rumo às luzes da cidade, me lembrando de meus anos de fuga e da experiência adquirida, que me fizeram pegar aquelas chaves sem ter planejado. Com o corpo dolorido e a mente cansada, suava no meio da noite, sem parar de correr com todas as forças, pois sabia que me achariam se não conseguisse uma boa distância daquele lugar. No desespero, quase fui atropelado por uma viatura da polícia e o motorista me mandou parar. Tive que obedecer, mesmo receoso, já que muitas vezes o homem carneiro controlava a polícia e seus recursos para me capturar, embora agora ele estivesse morto.

– Levante as mãos – disse o policial me olhando enquanto eu estava costas para ele, com a arma apontada para mim. – Obedeci de pronto como deveria ser.

– Vire-se devagar, sem movimentos bruscos – ele mandou e eu obedeci outra vez. Nossos olhos fizeram o primeiro contato direto.

Jovem, bonito, de pele clara e cabelos castanhos curtos e olhos incrivelmente azuis, o nome Parrish estava gravado acima do bolso esquerdo de sua camisa. Tinha o corpo incrivelmente perfeito, muito atraente naquele uniforme e eu imaginei que deveria ser difícil fugir de um policial assim, por muitos motivos diferentes. Lembrei-me do corpo de outro policial, sob a maca no quarto metálico de onde eu fugi e um pavor estranho invadiu meu coração, temendo que esse jovem tivesse o mesmo destino, então decidi que não diria nada que o levasse até aquele navio.

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