Virei o rosto para o lado quando os olhos de Richard ficaram vermelhos. Enquanto despia seu terno caríssimo para não estragá-lo na transformação, apesar de saber o que ele pretendia fazer comigo, só conseguia pensar em meu alfa preso na armadilha de metal superpesado, incapaz de sair, furioso e provavelmente me odiando por metê-lo nesse problema todo.
Suspirei e encarei Richard, agora só de ceroulas. Ele estralou os dedos das mãos juntas e suas orelhas cresceram, seu corpo começou a se encher de pelos naquela mesma pelagem amarelada que misturava ainda laranja com alguns fios pretos. Seus braços e tronco pareciam maiores, seu rosto mais afinado e as presas muito salientes. As garras eram cinzentas e escurecidas, bem maiores que qualquer uma que eu já tinha visto em outro lobisomem, incluindo meu noivo. Aproximou seu rosto bestial e cheirou meu pescoço. Não tinha certeza se eu renasceria caso ele me matasse, já que minha luz amarela de teleporte havia me abandonado, mesmo assim, mantive a calma, esperando que me mordesse, mas ele inicialmente, apenas cheirou ambos os lados de meu pescoço, minha testa e ergueu o queixo emitindo um estranho uivo de satisfação.
Alguma coisa pesada e veloz chocou-se contra o alfa alemão, lançando-o pesadamente contra a parede oposta e abrindo rachaduras na alvenaria do lugar. Scott estava parado ao meu lado, ereto e altivo, peitoral nu ferido, olhos rubros como o mais puro rubi e semblante calmo. Enquanto o anfitrião se levantava dolorido e furioso, com a mão esquerda, quebrou minhas algemas como se não fossem nada.
– Espera lá fora – ele comandou e a voz era estranhamente humana, apesar de estar em sua forma intermediária de lobisomem.
– Se afasta do que é meu – rugiu Richard com uma voz de trovão, expelindo fúria nas palavras e apoiando as mãos no chão como grandes patas de lobo.
– Acho que essa frase deveria ser minha – Scott respondeu passando o indicador na frente do nariz e trocando a base dos pés, pronto para a batalha.
Meu alfa ainda estava sem a camisa e paletó rasgados pelos betas e seu tórax e abdome, muito feridos. Queria poder chegar até ele e curar, mas não parecia preocupado com os cortes e eu não queria me aproximar e acabar sendo uma desvantagem como fui com Derek na batalha contra Maltec. Desejei ter minha espada agora, para poder fazer um estrago nesse lobo europeu folgado, já que minha luz amarela resolveu me deixar na mão, justo quando mais preciso.
– Você vai descobrir agora, alfa genuíno, porque eu sou o senhor dessas terras, o lobo alfa mais poderoso da Alemanha.
Ao dizer isso, a imagem de Richard tremeu como se estivesse fora de foco e onde havia um lobisomem alfa alemão superperigoso, agora haviam dois. O processo se repetiu e surgiram quatro, depois seis e por fim sete alfas, o que parecia ser o limite daquele poder assombroso. Eles começaram a circular tentando cercar Scott que parecia preocupado, tentando ficar atento ao movimento de todas as bestas e eu olhava de um para o outro, tentando saber se aquilo era mesmo real, porque não fazia nenhum sentido. Será que meu companheiro seria capaz de enfrentar todos esses alfas assassinos ao mesmo tempo e sair vivo?
O primeiro deles avançou saltando e meu alfa desviou ficando de lado. Assim que tocou o chão, o monstrengo tentou mordê-lo nas costelas, mas ele conseguiu desviar de novo para um dos lados. Outros dois avançaram simultaneamente enquanto o primeiro se afastava devagar esperando uma oportunidade. Um golpe lateral com o antebraço derrubou o segundo atacante de lado, fazendo-o emitir um ganido de dor, mas atrasou o rapaz tempo o bastante para permitir que o terceiro caísse sobre ele, levando-o de costas no chão, com as quatro patas do lobisomem prendendo seus braços e pernas simultaneamente no piso.
O quarto e o quinto avançaram na intenção de rasgar o corpo do adversário enquanto estava caído e aparentemente dominado, mas com um soco, o lobisomem que estava prendendo Scott no chão foi lançado para o alto, ganindo de dor ao som de ossos se partindo. Ele saltou metro e meio de altura e girou caindo de lado, evitando os dois novos atacantes. Os dois lobos atingidos não se levantaram. Um deles ainda se mantinha afastado e os corpos dos caídos tremeluziram e desapareceram. Logo em seguida, aquele que ainda estava longe fez sua imagem física oscilar de novo fazendo os lobos derrotados sumirem no ar e ressurgirem ao seu lado, totalmente recuperados. Eu sabia que aquele que estava longe era o original e se fosse derrotado, a luta estava acabada, mas sempre que ele refazia os lobos caídos, moviam se de maneira estranha e eu me perdia, já que eram idênticos. Deviam ter o mesmo cheiro também, porque mesmo Scott não sabia qual era o verdadeiro e limitava-se a desviar e derrubar os que conseguia. O problema é que conforme a luta prosseguia, eles iam tendo sucesso em ferir meu alfa cada vez mais, que já tinha rasgos profundos nas coxas, batatas das pernas e costas. O chão da sala da mansão estava embebido em muito sangue alfa.
– Cansado alfa genuíno? Já derrotei oponentes mais formidáveis com esse poder. – A voz parecia vir de todos os lobisomens ao mesmo tempo.
Pararam encarando meu noivo de longe, prestes a mais um ataque, talvez mortal e eu aproveitei o tempo para ler os olhos deles. Circulavam Scott como números em um relógio de parede, marcando o momento de matar o oponente.
– O pingente que você me deu de aniversário – gritei e ele balançou a cabeça como se entendesse o recado.
Quando três dos lobos fizeram um ataque simultâneo, esperando que ele saltasse para se desviar, o rapaz se jogou no chão e rolou, indo para a direita em relação a porta, para o número que marcaria três horas, se a sala fosse um relógio. Ele saltou ainda deitado, liberando as garras e cortou a garganta do terceiro lobisomem localizado à direita. A imagem dos demais oscilou e sumiu e Richard caiu com a mão no pescoço gorgolejando sangue e morrendo aos poucos. Apesar de não merecer ajuda, não poderia deixar que Scott perdesse seu status de alfa por conta do maldito, então corri até ele e segurei o rosto do alfa alemão nas mãos, curando sua ferida mortal.
– O que você está fazendo? – Meu alfa perguntou se aproximando enquanto eu salvava a vida de nosso inimigo.
– Não é por ele – respondi balançando negativamente a cabeça – é por você! Não quero que seja um assassino por conta dos atos dele.
Assim que o rapaz ficou curado, mantive o toque e não foi difícil remover a licantropia de seu corpo, já que era realmente uma doença para ele, fazendo-o ficar louco. Na primeira vez que eu o li, tive certeza de que Richard era um bom homem. Alguma coisa o mudou desde então e eu tinha medo de descobrir que essa "coisa" seria eu, por causa da maneira como ele dizia se sentir perto de mim. Comecei a imaginar que talvez eu afetasse os lobisomens de um jeito errado. Lembrei-me de Derek, meu primeiro parceiro, que apesar de que descobrimos mais tarde ser apaixonado por Stiles, parecia bem machão e seguro de si e mesmo assim ficava descontrolado perto de mim, o que nos levou para a cama, antes de eu me envolver com Scott, é claro.
Richard se sentou enquanto eu estava perdido em minha culpa auto imposta e meu alfa me ajudou a ficar de pé. Selei os cortes por todo seu corpo surpreso que ainda estivesse de pé e lutando com tantos ferimentos. O alemão abaixou a cabeça envergonhado e eu apertei o braço de meu companheiro para que ele não o atacasse, ainda tomado pelo que restou da raiva.
– Me desculpa Gabriel, eu não sei o que deu em mim. – O alemão falou fazendo Scott revirar os olhos e erguer os braços para o alto – acabei perdendo totalmente o controle.
– Eu entendo o seu lado – falei ainda me sentindo culpado – mas não quero você na minha vida mais. Nomeie um representante para a diretoria até que a gente acerte os detalhes sobre a Audi.
– Como você quiser – ele falou ainda de rosto baixo e com a voz fraca.
– E se lembra – Scott disse depois de me dar um beijo apaixonado – que você só está vivo, porque o Gabriel sempre faz as melhores escolhas.
– Nós vamos revitalizar o Nemeton da Basileia – informei e ele arregalou os olhos surpreso – precisamos de uma alcateia que o proteja.
– Você me tirou meu lobo – Richard falou ficando de pé e cruzando os braços – não achei que isso fosse possível e pode levar um tempo até eu ser um alfa outra vez.
– Se você for mordido agora, você morre – informei com um sorriso malvado – não pode mais ser um lobisomem, seu corpo é imune ao lupinismo.
Meu alfa pegou uma das motos da coleção particular do alemão e ele nem reclamou e nós fomos descansar em uma hospedaria ali perto.
