15 - Disparando

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Alongo a perna.

Luke alonga o braço.

Toco a ponta do tênis.

Luke segura a ponta do tênis atrás das costas.

Alongo o pescoço para um lado.

Luke alonga o pescoço para o outro.

Nos encaramos seriamente, desafiadoramente, duramente, como arqui-inimigos fariam.

Estamos parados na linha de partida (folhas que enfileirei cuidadosamente, mas o vento já levou a metade) em uma rodovia que, às cinco e meia da manhã, está vazia.

O horário e o local foram escolhidos por Luke. Ele disse que há um motivo para essa escolha, algo que quer me mostrar, mas só vai revelar ao final da corrida. Mal sabe ele que, ao instigar a minha curiosidade com isso, só me deu mais motivação para correr ainda mais rápido.

Quero dizer, além de vencê-lo, vou descobrir alguma coisa misteriosa. Prêmio duplo.

E é claro que vou vencer. Eu sou muito mais leve que ele e isso é uma grande vantagem, pois algum físico muito espertinho descobriu que a resistência do vento é um fator importantíssimo na hora de calcular a velocidade média que um corpo atinge ao se movimentar de um ponto a outro. Portanto, não importa que Luke tenha um corpo atlético, as chances estão a meu favor.

Finalizados os alongamentos, nos colocamos à postos. É chegada a hora.

— Ponta, maratonista?

Aperto meu rabo de cavalo com as duas mãos, com força, de forma determinada, para mostrar que não estou para brincadeira.

— Já nasci pronta.

Focalizo os olhos na linha de chegada cerca de um quilometro à frente, que é uma placa de sinalização de trânsito fincada pouco antes do acostamento onde Luke estacionou o carro.

De onde estamos, não dá para ler o número na placa, mas sei que ela dita 30km/h. Acontece que ela vai rodopiar com a rajada de vento que vai atingi-la quando eu passar por ela na velocidade de um relâmpago.

— Na minha contagem — Luke anuncia e meu corpo entra em estado de alerta. — Um, dois, três!

Disparo possante como um jato, veloz como um foguete.

Sou muito rápida e estou à frente. Luke não é de nada.

Em pouco tempo atinjo a metade do caminho e já sinto o gosto da vitória. Consigo até me visualizar fazendo uma dancinha bem ridícula em comemoração.

Mais dez por cento do caminho e minha respiração fica ofegante. Minhas pernas pedem para reduzir. Meu pâncreas dói.

— Oi, vem sempre aqui? — Uma voz nada ofegante soa ao meu lado.

Droga. Luke me acompanhou. Me forço a correr ainda mais rápido e minhas pernas avisam que vão me abandonar.

— Essa cantada já funcionou com alguém? — devolvo com a voz ofegante.

— Você parece cansada. Que tal se sentar ali e descansar um pouco enquanto eu termino essa corrida para você?

— Não, obrigada. Posso terminar a minha e voltar para terminar a sua.

Já atingi o meu máximo, então me concentro em mantê-lo.

— Seu rabo de cavalo está frouxo. Não quer parar para arrumar?

— Só se você parar para amarrar seu cadarço — dessa vez minha voz sai toda entrecortada.

Oitenta por cento do caminho. Ainda posso vencer. É só eu manter o ritmo e ignorar a sensação de que meu pulmão pode sair pelo meu nariz.

O garoto dos olhos avelãHistórias para pegar e não largar. Descubra agora