Luke para o carro e desliga o motor.
— Que lugar é esse? — pergunto, colocando a mão na maçaneta.
— Espera, não abra.
Olho para ele, confusa, e o vejo sair do veículo. Luke contorna o carro e vem para o lado do passageiro. Ele abre a porta e me oferece a mão.
O sorriso que estampa meu rosto é tão grande que fico envergonhada.
— Não estamos nos anos cinquenta — comento enquanto aceito sua mão.
Luke me olha de cima a baixo e ergue as sobrancelhas. Entendo imediatamente o comentário silencioso e reviro os olhos.
Caminhamos pela rua de ladrilhos rochosos e não há nada demais nisso, exceto pelo fato de que a mão que Luke me ofereceu para sair do carro ainda está segurando a minha.
Ao olhar em volta percebo que o lugar tem cara de outra época. Os bancos são de mármore e estão visivelmente desgastados pelo tempo. Há algumas pessoas sentadas aqui e ali. Algumas sozinhas, concentradas no celular, e algumas acompanhadas por amigos ou namorados.
À medida que nos aproximamos do centro do local, algo chama minha atenção.
— O que é aquilo? — aponto.
— Cem anos antes de essa roupa que você está usando se tornar moda, aquele poço costumava ser o ponto de abastecimento de água desta cidade — ele explica. — Fica sobre a nascente de um rio. Toda a população se concentrava aqui durante o dia para pegar água com burros de carga.
Minha imaginação me transporta para o cenário que Luke está descrevendo.
— Imagina viver numa época sem chuveiro quente — comento. — E ainda tem gente que se atreve a dizer que nasceu na época errada.
— Quando alguém diz isso, com certeza é por outros motivos.
— Não há motivos que justifiquem.
À distância, vejo uma garota de longos cabelos cacheados parar à beira do poço. Ela fecha os olhos, aperta a mão fechada contra o peito, depois joga alguma coisa, provavelmente uma moeda. Então se vira e vai embora.
— Quero jogar também — digo, empolgada, puxando a mão de Luke na direção do poço.
Ao parar na frente da construção de pedra, agarro minha bolsa pequena embaixo do braço e vasculho em busca de moedas. Encontro três e as fecho na mão.
— Cuidado com o que vai desejar para esse poço — há um tom de suspense na voz dele que me faz virar para encará-lo.
— É só um poço bobo — digo.
— Bom, pode até ser, mas as pessoas contam histórias sobre ele... — e deixa no ar.
Hesito.
— Que histórias?
— No século quinze, uma mulher acusada de bruxaria estava fugindo dos caçadores que a perseguiam quando pulou nesse poço. Eles até a viram caindo, mas quando se aproximaram, só encontraram a água balançando. Vasculharam o poço e não acharam nenhum vestígio. A mulher nunca mais foi vista. Dizem que ela ainda está lá dentro, escondida, e que realiza desejos quando encontra bondade no coração de quem pediu.
Me inclino sobre o murinho redondo do poço e olho para o fundo. A água escura balança suavemente, refletindo a luz da lua.
Volto a olhar para Luke.
— Eu não acredito nessa historinha nem por um segundo.
— Só achei que devia te alertar — ele ergue as mãos com as palmas para frente.
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O garoto dos olhos avelã
Novela JuvenilGraziella tem uma imaginação para lá de fértil, vive no mundo da lua e, por vezes, acaba se enfiando em situações embaraçosas. Sem planos de se apegar à nova cidade, ela sabe que a promessa de permanência do pai é daquelas que não se deve levar à sé...
