Há algo muito errado acontecendo aqui.
Minha mãe passou o jantar inteiro de olho no celular, totalmente distraída. Quando perguntei que dia meu pai retornaria da viagem, ela desconversou. Isso soou um alarme em minha cabeça.
É normal ele fazer viagens a trabalho, mas sempre retorna no mesmo dia. Quando começa a demorar a voltar, é um mau sinal.
Significa que alguma filial da empresa que ele trabalha está precisando de sua presença com mais constância. E, quando isso acontece com uma filial muito distante do local em que estamos morando, acabamos tendo que nos mudar para a cidade dela.
Sou arrancada dos meus pensamentos ao escutar a campainha tocando. Dou uma última cheirada na rosa e coloco de volta na mesa de cabeceira, para logo em seguida disparar escada abaixo.
Ao abrir a porta, vejo um lindo par de olhos avelã.
Assim que Luke coloca o pé dentro da minha casa, a chuva cai, como se só estivesse esperando ele entrar.
Seus cabelos estão úmidos e, quando ele passa por mim, sinto o cheiro gostoso do shampoo já conhecido, cítrico e fresco.
Fecho a porta e me viro para ele. É nesse momento que vejo a estampa da camisa preta que está vestindo e arregalo os olhos.
— Ei! Eu conheço essa banda! — aponto, eufórica. — Escutei ela o caminho inteiro da minha antiga cidade pra essa. O Spotify me indicou por acaso!
Luke olha para baixo para verificar o que está vestindo, como se tivesse esquecido.
— Isso é interessante — diz e segue para o sofá. — Como é mesmo que as pessoas chamam isso? Ah, destino — ele debocha.
Vou atrás dele e me sento à sua frente, pensando de novo no meu plano de roubar uma camisa de Luke para fazer de pijama. E essa é a candidata perfeita.
— Destino existe, tá? — afronto. — Talvez ele tenha feito o Spotify me indicar Lifehouse de propósito. Depois foi lá e enfeitiçou você para escutar ao mesmo tempo. Aí ficamos sincronizados e enviamos nossa energia cósmica para o universo, que fez a gente se encontrar.
Luke não se surpreende mais com as coisas insanas que saem da minha boca, está acostumado.
Ele pega a minha mão e entrelaça nossos dedos, um gesto inconsciente que parece já estar habituado a fazer durante nossas conversas.
— Se fui enfeitiçado, não sei, mas as chances de eu ter escutado ao mesmo tempo que você são totalmente reais.
— Por quê? — pergunto, interessada.
Ele dá de ombros.
— É a minha favorita, sempre estou escutando.
— Como eu só estou descobrindo agora que você tem uma banda favorita? — Fico indignada.
— Não sei se você já percebeu, mas quando estamos juntos, ou estamos falando de filme, ou assistindo filme, ou fazendo um filme — a última frase sai carregada de malícia.
Luke adora me provocar para me ver ficar vermelha, mas dessa vez ele não consegue, pois me levanto toda empolgada ao dizer:
— Hoje vamos falar de música — puxo a mão dele escada acima.
Luke já entrou em meu quarto antes, mas sempre de dia, por causa do meu pai. Só que agora meu pai não está em casa e nem vai chegar hoje.
Pego o notebook da escrivaninha e nos sentamos no meio da cama.
— Cada um coloca uma música — digo, já abrindo o Spotify.
A tela mostra meu histórico e fico insegura. Há um monte de música romântica, que não coincidentemente passei a ouvir depois de me apaixonar por ele, então abro o buscador depressa e digo:
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O garoto dos olhos avelã
Teen FictionGraziella tem uma imaginação para lá de fértil, vive no mundo da lua e, por vezes, acaba se enfiando em situações embaraçosas. Sem planos de se apegar à nova cidade, ela sabe que a promessa de permanência do pai é daquelas que não se deve levar à sé...
