É claro que eu ia me perder.
Eu não faço a menor ideia de para qual lado fica o Norte ou o Sul. Mesmo se soubesse, do que serviria se eu nem mesmo sei o nome da minha rua?
No entanto, apesar de perdida, não me importo de ter caminhado tanto. Sou sedentária e tudo, mas é que a vista está valendo a pena. Essa cidade é uma das mais arborizadas que já morei e eu sou tiete da natureza. Talvez seja por isso que a minha cor favorita é verde.
Estou em um lugar que há muitas lojas e grande fluxo de pessoas, então suponho que seja o centro da cidade.
Há uma praça movimentada e no meio uma escultura alta se destaca, apresentando um relógio com números romanos. É ao consultar o horário que meus olhos se arregalam: duas da tarde.
A informação chega ao meu estômago, que ronca alto.
Coloco a mão na barriga, fazendo cara feia. Perdida é um status que tolero bem. Mas com fome? Inaceitável.
Vasculho a mochila em busca do troco do lanche da escola, as pobres moedinhas que eu pretendia juntar para comprar um celular. Gasto tudo em balas de café na primeira lanchonete que atravessa meu caminho.
Com duas balas na boca, parto em direção a uma vitrine de livros e é claro que entro.
Um concurso de capa mais feia se inicia em minha cabeça. O vitorioso vai comigo para o fundo da livraria onde o vendedor não pode ficar perguntando se preciso de ajuda.
Ajuda? Para escolher meus livros? Ora essa, quem precisa de ajuda é ele; psiquiátrica, no caso.
Me aconchego em um cantinho no chão e busco mais balas de café. Em pouco tempo já estou na metade do livro.
Sou arrancada bruscamente de uma parte interessantíssima da leitura quando as luzes se apagam de repente. Em seguida, escuto o som de porta de metal descendo.
A livraria está fechando.
— Espera! — Grito, me levantando aos trancos e barrancos.
Largo o livro no chão e disparo pelo corredor escuro.
— Oi? Tem alguém aí? — Uma voz ecoa, vindo lá da frente.
— Sim! Tem eu! — Sigo a luz que vem da rua e logo percebo que é uma iluminação noturna.
Ao alcançar a porta, o vendedor me encara como se eu precisasse de ajuda psiquiátrica.
Passo por ele apressadamente, tentando encobrir o rosto com o cabelo, e sigo pela calçada.
No relógio da praça, os números romanos marcam seis horas. O fluxo de pessoas não é o mesmo de antes. Logo o centro ficará vazio.
Sinto uma pontada de pânico que me faz querer correr. Mas em que direção?
Respiro fundo e decido que não dá para entrar em pânico, pois ainda posso pedir informação para as pessoas.
Ensaio em minha cabeça a melhor forma de perguntar como faço para chegar na rua de árvores frondosas, mas logo vejo que isso não ajuda.
Forço a memória em busca de mais detalhes da minha rua, então me vem a imagem de pessoas vestidas com roupa de ginástica, mas o que isso tem a ver?
Uma buzinada alta me faz perceber que estou atravessando fora da faixa. Olho para o motorista fardado e uma ideia louca, muito louca, passa pela minha cabeça.
— Ei, seu policial! — Corro para a janela da viatura que buzinou para mim.
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Meu plano saiu bem longe do planejado. O que eu pretendia era ser levada para uma delegacia, assim, quando meus pais fossem registrar meu desaparecimento, dariam de cara comigo. Mas a coisa tomou outro rumo quando comecei a explicar o motivo de estar perdida.
Acabei jogando a informação solta sobre pessoas com roupa de ginástica, então o policial juntou as peças e concluiu que eu devia morar perto do parque da cidade.
E é assim, dentro de uma viatura policial, que chego em casa.
Há vizinhos, sabe? E ficam encarando o carro de polícia que acaba de parar na rua deles.
Minha mãe vem correndo com a mão na boca. Meu pai vem logo atrás, tropeçando na grama, com o celular no ouvido.
— Graças a Deus! — ela exulta.
— Minha filha! Eu estava ligando para a polícia! — ele guarda o celular no bolso e abre a porta do carro.
Não sei exatamente o porquê, mas uma vez fora da viatura, meus olhos vão direto para a casa do outro lado da rua.
E lá está ele, o garoto de olhos avelã.
Enquanto o policial vem para o meu lado e coloca uma mão em meu ombro, observo o garoto sair de casa, descendo os degraus distraidamente, girando as chaves no dedo. Sua atenção é automaticamente captada pela viatura. No próximo segundo seus olhos estão em mim.
Pronto. Agora ele pensa que, além de Patati e Patatá, sou uma delinquente.
Ele diminui os passos e permanece me encarando. Seus olhos só se desviam de mim quando uma mulher de cabelos pretos, que parece ter a idade da minha mãe, surge ao seu lado, também me encarando.
Estão saindo de casa para, quem sabe, irem ao teatro? Bom, agora estão assistindo um belo de espetáculo, pois meus pais me abraçam desesperadamente, enquanto minha mãe chora e meu pai beija a minha cabeça sem parar.
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O garoto dos olhos avelã
Teen FictionGraziella tem uma imaginação para lá de fértil, vive no mundo da lua e, por vezes, acaba se enfiando em situações embaraçosas. Sem planos de se apegar à nova cidade, ela sabe que a promessa de permanência do pai é daquelas que não se deve levar à sé...
