A carta do José Fernandes

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Narrado pelo príncipe José Fernandes:

– Eu acho melhor você parar de ver a Maria Clara agora que você está noivo – disse minha mãe.

– A senhora só se importa com os seus próprios interesses, mãe – digo com frieza. – Mas ao menos... Por favor, me deixe apenas escrever uma carta para a Maria Clara para poder me despedir dela, já que eu vou me casar com outra mulher.

Já que a minha mãe estava jogando sujo comigo, eu também iria jogar sujo com ela, fingindo que eu vou me despedir da Maria Clara através da carta que escreverei.

Mas assim que a minha mãe ou o meu pai a soltarem da masmorra, vou fugir para ficar com a mulher que eu amo para sempre, sem que tentem me impedir de fazer isso.

Eu sempre tive uma certa mania de limpeza. Quando criança, eu sempre gostei de ver as empregadas do meu palácio limpando o chão ao varrê-lo com as vassouras delas. Era um passatempo inusitado gostar de ver as coisas ficando limpas após a sujeira.

É, através disso, eu decidi de um jeito eterno, que gosto de manter a vida de forma organizada.

Sim, preciso organizar a minha existência ao dar um jeito de ficar para sempre do lado da Maria Clara.

Não podem e nem conseguirão destruir algo infinito que é o amor que nos une.

De um jeito ou de outro, eu vou ter que dar um jeito de fugir do meu casamento com a Verônica.

Eu não posso me casar com essa mulher. Eu não vou me casar com ela.

Maria Clara, eu juro meu amor, que eu vou dar um jeito de voltar para você.

Não importa quanto tempo leve ou a distância que eu precise percorrer, meu destino final é sempre você.

Minha mãe respira fundo e diz:

– Ok, mas é bom que você pegue pesado e faça ela entender que você não pode mais ficar com ela.

– Não dá para colocar um ponto final em uma coisa que Deus já escreveu – argumento. – Mas pode deixar comigo. Para salvar a Maria Clara daquele lugar horrível, eu sou capaz de tudo. Mesmo se o meu coração se estraçalhar, vale a pena esse estrago, desde que o dela fique intacto.

– Está fazendo tudo perfeitamente, filho – disse ela. – Te darei o tempo que você quiser para escrever essa carta, e até eu mesma posso entregar essa carta pra ela, se você quiser.

– Jamais, mãe – digo. – Eu jamais permitirei uma carta minha para a minha amada tendo a senhora como mensageira. Quem entregará essa carta para a Maria Clara será a Vera, e sem protestos, viu? A minha decisão já está tomada.

– Estou tão feliz com o seu noivado que nem ouso te desacatar, filho – diz ela com um sorriso. – Faça como quiser.

Assenti e disse:

– Com licença.

– Toda – disse ela.

Me retirei dali e fui para o meu quarto, dizendo comigo mesmo:

– Senhor, me ajude a conseguir suportar tudo isso.

Procurei papel, peguei a minha caneta de pena e comecei a escrever na mesa.

Mas cada palavra escrita naquela carta era uma lágrima que escorregava dos meus olhos, e que eu limpava apressadamente para que nenhuma lágrima caísse naquele papel, que era importante.

Aquela missiva seria uma despedida, e nada poderia dar errado.

A Maria Clara teria que pensar que eu estava desistindo dela, para assim ninguém desconfiar das minhas verdadeiras intenções, que é fugir.

A Curandeira e o Príncipe - A Flor do SolHistórias para pegar e não largar. Descubra agora