AURORA
Minha memória já não é tão boa. Eu queria me lembrar de cada detalhe da minha vida, mas algumas coisas me escapam. No entanto, eu nunca poderia me esquecer da sensação de segurar minhas filhas nos braços pela primeira vez.
Com Judith, meu coração estava dilacerado. Eu podia sentir o calor do corpinho dela contra o meu peito e a vibração de seu choro. Com Love, eu sentia tanta dor, parecia que não ia suportar. Mas eu também senti um amor escaldante se espalhando pelo meu corpo, guerreando com o luto.
Com Grace, eu só queria protegê-la. Eu não sabia bem que seria sua mãe, só queria que ela tivesse uma boa vida.
As minhas filhas mais velhas foram entregues a mim em meio ao caos e a dor. Nesses três encontros, eu perdi algo. Um pedaço de mim, talvez.
Quando a Lexy nasceu e foi colocada nos meus braços, por um segundo esperei que algo ruim acontecesse. Mas aí, eu percebi que estava tudo bem. Meu bebê chorava com força, enquanto eu a apertava contra o meu peito e limpava a sujeira grudada em seu cabelo ralo.
Lexy estava bem. Eu estava bem.
E nada nos tirou daquele momento precioso.
Pude amamentá-la e admirar seu rostinho. Pude segurar sua mãozinha e analisar cada dedinho.
Nunca poderei descrever o que senti naquele primeiro contato com a minha filha.
— Vamos, Aurora, vamos — Daryl diz, agarrando minha mão e me fazendo subir as escadas mais depressa. — A gente vai perder o nascimento da menina.
— Calma, homem!
Daryl me agarra, tirando o meu corpo do chão e me jogando em seu ombro.
— Você não tem mais idade pra me carregar assim, seu ogro! — reclamo, batendo minha bolsa na bunda dele.
Como resposta, ele me dá um tapa no traseiro.
— Ai, minhas costas — ouço-o resmungar depois de subir mais um lance.
— Eu disse, não disse?
— Droga de hospital velho. Nunca funciona essa porcaria de elevador.
Eu fico suspensa, com o cabelo caindo no rosto, até que chegamos ao andar da obstetrícia.
Daryl me coloca no chão e segura minha mão, enquanto seguimos pelo corredor largo. Eu ajeito meu cabelo do jeito que dá.
— Quarto 65, é esse — ele diz e dá uma batida na porta antes de girar a maçaneta.
Entramos devagar.
Hunter está em pé ao lado da cama, segurando um embrulho lilás, com o rosto vermelho e um sorriso apaixonado.
— Nós perdemos? — Daryl soa desapontado.
— Ela nasceu há duas horas — Hunter responde, compreensivo.
— Desculpe. Não vimos a mensagem antes.
Daryl se aproxima da cama, beija a cabeça de Lexy e conversa baixinho com ela. E eu fico no meio do quarto, segurando minha bolsa com força contra o peito, minha respiração ecoando nos meus ouvidos.
Minha filha agora é mãe.
E então, minha cabeça é tomada por flashes e mais flashes. Memórias de todos os vinte e dois anos de vida dela.
A primeira vez que seus olhos azuis encontraram os meus. Eu a ninando pela casa. Ensinando-a a andar. Sua primeira palavra — meu. Quando a encontrei provando dos meus sapatos aos três anos. Quando rabiscou a parede da sala com giz de cera. Ela chorando no primeiro dia de aula, e eu chorando o caminho todo de volta para casa. Todas as vezes que a coloquei no meu colo, enchi seu rosto de beijos e esfreguei meu nariz no dela. As nossas conversas, as risadas.
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Save Me
FanfictionDARYL DIXON | +18 Depois de saber do "acidente" que deixou seu cunhado em coma, Aurora Fisher retorna à sua cidade natal para dar apoio a irmã e ao sobrinho. Sua estadia não dura muito, já que alguns dias depois os mortos passam a assombrar a terra...
