Por vezes as pessoas não querem ouvir a verdade, porque não desejam que as suas ilusões sejam destruídas.
Friedrich Nietzsche.
Boa leitura .. ♥
Corretor ortográfico= @ewertonalves93
A sabedoria vale menos que a dor de uma perda?
A penumbra tomava conta do salão com o apagar da luzes vindas das velas nos candelabros. O frio, misturado ao silencio e à tristeza, emanava dor sobre os dois bruxos que compactuavam quase a mesma dor, mas a cabeça de Varyos viajava em outras direções não apenas por ter despontado seu Rei pela primeira vez, mas pelo fato de lutar contra suas próprias convicções para tentar encontrar uma saída, mesmo que ela não existisse.
Já o Rei continuava sentado, esperando a chegada de Anguriom, seu mais velho conselheiro e amigo, até que o silêncio foi quebrado pelas arrumadeiras trazendo velas para que a penumbra não trouxesse escuridão ao Rei.
Com a demora, ele pediu que chamassem sua esposa, que estava no jardim. Ela ainda não sabia de muita coisa, somente o que Rodolfo a contara. Imediatamente após ser chamada no salão real, Pâmela, rainha mais jovem entre todas as rainhas dos demais reinos, passou em seu quarto e usou seu mais fino perfume, e conferiu seu penteado, vendo se estava adequado para poder se apresentar ao salão real.
Parks foi casado duas vezes. Sua primeira esposa, Katharine, havia morrido a sete anos de causas misteriosas. Mas logo após casou-se com a jovem Pâmela, uma linda mulher de vinte e seis anos. Apesar de ela ser bem mais nova, o Rei a admirava por sua maturidade. Já que Rodolfo estava em constante treinamento com Vladmir, ele precisava de uma mulher, uma companhia. Não demorou muito para encontrar a filha de Centurion, um bruxo de invocação muito poderoso que vivia em Cítricus, grandiosa cidade do reino Únifico. Ele era o líder da ordem em sua cidade, pois apesar de já estar velho e ter seus cabelos lisos e brancos, ainda era temido e respeitado por todos onde quer que fosse.
Não demorou muito para que Pâmela aparecesse por entre as colunas do salão real, usando um longo e justo vestido azul como era de seu costume, mostrando suas curvas perfeitas e exibindo seus cabelos loiros e lisos, com um decote levemente à mostra. Exuberante como qualquer rainha dever ser para seu rei.
- Meu Rei... – disse ela à meia distância do trono – Me chamou até aqui? O que houve? Rodolfo me falou algumas coisas. Onde está seu filho?
- Tberyos está morto – disse tristemente o Rei, falando de forma séria à sua Rainha.
- Meu Rei, isso é verdade? Mas como? – disse ela em lágrimas, indo em direção a Parks e abraçando-o forte, mesmo ele estando sentado em seu trono. – Ele era um ótimo bruxo, meu senhor, amava o filho. Diga-me, o que houve?
- Ele estava um pouco diferente, mas ainda era eu filho. Você sabe o tanto que eu o amava, não sabe? E tudo indica que vai ser difícil até para poder enterrá-lo! As lástimas do mundo parecem olhar só para este reino. Até parece que Unifico me esqueceu...
- Não blasfeme meu rei,em nome de quem lhe dá ouro e prata. Mas onde está o corpo de Tberyos? – perguntou ela aparentemente assustada, olhando para seu Rei.
- Foi levado – disse o Rei com uma lágrima escorrendo levemente em sua face.
- Por quem? Quem teria tanto poder para pará-lo?
- Os Humanos. Mas já o pegaram morto.
- Minha Rainha – disse o general Varyos reverenciando-a em sua humildade.
- Sim? – respondeu a Rainha despertando um olhar curioso sobre o rosto velho do general, que estava sério.
- Eles o pegaram morto, mas não o mataram. Um humano não teria essa capacidade, apesar de eu não os subestimar mais. Você está sentindo muito a perda dele, não é minha Rainha? – perguntou o general estranhando o tamanho sentimento esboçado pela rainha, que em seu íntimo parecia mais transtornada que o próprio Rei.
- Sinto muito general, mas não é por mim. É pelo meu amado Rei. Sei o tanto que ele amava seu filho. É também por Rodolfo, que tanto amava o pai e precisa de suas orientações.
E em meio às lágrimas e tristezas, não demorou muito para que Anguriom chegasse, entrando devagar pelo grande salão iluminado por diversos candelabros com novas velas já postas.
- Vossa Majestade – disse ele ainda andando pelo grande pátio do palácio real, observando seriamente a expressão triste de seu Rei.
- Anguriom apresse-se. Precisamos conversar, é caso de vida ou morte. – disse Parks sério, o que fez Anguriom andar mais rapidamente, direto ao trono.
- Diga-me senhor, o que está havendo? De que forma precisa de meus conselhos? Se puder sugerir algo antes, sugiro que possamos ir para a sala de reuniões.
-Corretíssimo meu amigo – disse o rei, sério – Já você, meu amor, volte para seus afazeres. Fique a vontade, vou resolver tudo por aqui.
Então os três foram andando pelos corredores iluminados do castelo até a grande porta da sala de reuniões, que fora aberta por dois paladinos que a guardavam. Ao entrar, o Rei, sem risos e sem palavras ao vento, foi logo dizendo o que queria, mesmo ainda estando de pé.
- Preciso de um conselho que envolva o grande Pacto de Sangue, sem que haja uma guerra, da qual você mesmo já me advertiu. Mas agora é diferente, pois meu filho morreu. Ele estava à procura de um dos bruxos que tiveram a ousadia de tentar nos matar no salão real. Porém foi morto e seu corpo foi capturado por soldados humanos.
- O que disse meu Rei? Soldados humanos? Quem quebrou o Pacto? – perguntou o conselheiro ao dirigir seu olhar de pura benevolência para Parks.
- Cariel, aquele lixo de bruxo. E meu filho estava no meio dessa história de alguma forma. Creio que foi em busca de justiça. – disse o Rei, passando as mãos sobre seus cabelos brancos.
- Mas onde já se viu fazer justiça com idiotice, meu Rei? Ele agiu de forma imprudente, sua atitude deveria ser um crime. Por isso que o mundo está uma merda. Meu Rei, 1500 anos atrás regras foram feitas em nome de nosso Deus. Elas não podem ser quebradas apenas por alguém ser capturado vivo dentro do território de outro, não estamos em guerra com eles porque seu filho foi capturado morto, e faltam menos de três meses para o Pacto ser refeito. Se Vossa Majestade tentar qualquer coisa para resgatar o corpo de seu filho a guerra seria iminente. Disso tenho plena certeza. A depender de suas atitudes, o resultado será a morte. Não só de seu filho, mas de sua esposa, de seu neto e de seu povo. Um Rei tem que aprender a agir acima de seus sentimentos, a coroa tem que governar para o povo, para depois olhar para si. Sei que seu coração de pai chora em seu peito, mas seu dever de Rei deve ser mais forte, pois seu povo não merece perecer por um capricho ou uma vontade, por mais que ela seja necessária à vossa majestade.
- Como assim capricho, Anguriom? Pode repetir essa asneira sem limites que você acabou de cuspir em minha cara?
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CARIEL
FantasiEm uma terra onde a desconfiança e a paz andam lado a lado, dois povos vivem separados por um único pacto, selando não só a boa nova entre homens e bruxos, mas também a prosperidade e a boa vontade de um Deus. A cada 500 longos anos este pacto tem d...
