Sinceridade, fidelidade, companheirismo, dedicação, determinação, força de vontade e empenho para fazer sempre melhor.
Tenha isso e estarás sendo uma pessoa incrível.
Sem espírito de vingança, sem magoar, sem ser indiferente aos que te amam, sem ser falso...
Seja uma pessoa boa, assim você estará poupando do sofrimento, muita gente que te ama!
Matheus Bogo
Corretor ortográfico ewertonalves93
Cariel continuava ouvindo, anestesiado de tanta curiosidade ao esperar a última parte da história. Já o velho Nada aparentava estar apressado para resolver alguma coisa que não queria compartilhar, nem mesmo com seus cavaleiros mais antigos.
- Como estava lhe dizendo, o rei se tornou um perigo, uma ameaça à religião que agora trazia mais uma vez um conforto ao mundo, pois ninguém respeitaria uma religião cujo deus regesse pela dor, ganância e ódio. Os anciões enfim prepararam um plano para dar ao rei uma morte gloriosa; construíram um grande balão com o formato exato de um dragão e o ensoparam de óleo. Anunciaram que haveria uma grande reunião no palácio real, no tardar da noite. Então doparam o rei com uma poderosa porção e depois o fizeram ler um emocionante discurso, que dava a entender que sandraryos deixaria a igreja aos homens e subiria para junto de seu pai, mas que sempre estaria com o povo se não o esquecessem em suas orações. A reunião havia começado no breu da noite, havia apenas algumas tochas, o que deixava tudo ainda mais favorável. Uma multidão de trezentas mil pessoas estava concentrada nas extensas planícies em frente à varanda do castelo, e todos choravam em silêncio enquanto ouviam o rei em seu discurso final. Sandraryos estava tão desatento com as coisas ao redor que não sentia suas roupas grossas umedecidas de óleo e seus pés presos a um grande peso que o impossibilitava de andar. Ele achava que tudo fazia parte de um ritual religioso que acontecia ano após ano. Ao fim do discurso o povo, em silêncio, esperava que algo acontecesse. Os anciões então lançaram discretamente uma pequena chama sobre o rei, que enredou em suas vestes e consumiu seu corpo como madeira seca. Ele gritava de dor e o povo orava, pois acreditavam que ele estava ascendendo aos céus, como o dragão ascendeu na antiguidade. Todos se ajoelharam perante ele, inclusive os anciões, que ignoravam seu sofrimento, atuando como atores de um circo de horrores. O jovem rei queimava sobre a sacada do grande castelo, aos olhos marejados dos homens que tiveram aquela visão que para eles era perfeita, mas para seus idealizadores era uma crueldade sem limites. O balão havia sido solto tão logo a noite escura caiu sobre o reino, e pairava acima do castelo, sendo afixado por uma grande corda. Foi ordenado a um excelente arqueiro que o incendiasse com uma flecha flamejante, e o disparo foi certeiro. Aquele grande dragão de fogo clareou toda a cidade, subindo lentamente aos céus, enquanto as chamas do corpo do rei se apagaram, levando consigo seus gritos de dor. Depois disso a igreja se consolidou e se espalhou. Mais quatro mil anos se passaram, e com o desgaste o povo ficou um pouco descrente, mas não perdera a fé por completo. Até a espada unifica cair dos céus no momento da grande batalha contra os celtas. Por ter este nome gravado em sua estrutura os padres da cidade fizeram a igreja passar por uma grande reforma; uns dizem que a espada foi dada por Sandraryos e o nome unifico era só o nome da espada, outros dizem que Sandraryos nunca existiu, nem como dragão muito menos como homem, e que o verdadeiro deus se chamava Únifico e ele teria enviado a espada para provar sua existência. Mas tudo que lhe falei foi estudado por nós em pergaminhos antigos. Temos certeza da existência do dragão, mas não sabemos se ele foi um deus ou uma criatura. A Cidade Suprema decidiu, por votação, consolidar a religião únifica que é uma vertente da religião sandraryana; a espada únifica veio de Sandraryos, filho do dragão, que é o único deus. Por isso a religião leva seu nome. Assim diz o padre supremo. E o que ele diz, o povo acredita, ainda mais com a prova que ele tinha em mãos.
- Isso tudo é fascinante! – disse Cariel, bem empolgado – Tem mais alguma coisa?
- Sim, mas não vamos ficar falando de história, ainda mais se ela for desconhecida. Agora temos que discutir sobre sua esposa. – disse o velho Nada, sério. – Você entende que não pode se aventurar mais com ela? O amor de vocês não pode mais acontecer.
- Estou ciente de tudo, entendi perfeitamente qual é meu lugar, se tratando da mulher que amo.
- Então estamos entendidos. Amanhã partimos às duas horas. Descanse por hoje garoto, já é tarde. – disse o velho Nada. – Ah, e você tem de começar seu treinamento o mais rápido possível.
- Certo. Bem, se me dão licença... – Cariel estava visivelmente abalado, só de ter sido lembrado de sua amada.
O frio era tão intenso quanto a escuridão, ao longe da lareira. E ele subiu lentamente as escadas rumo ao seu aposento, sem delongas, deixando o velho Nada e Avalyos. As cortinas fechadas ondulavam levemente na penumbra, com o vento percorrendo todo o quarto, o que levava as chamas em um constante vai e vem, quase a se apagarem. Cariel foi até a janela e a fechou, depois voltou para a cama, procurando se aquecer. A noite parecia ser eterna, e os segundos como horas. Ele já estava entediado com a falta de sono; rolava para todos os lados em sua cama confortável, branca como as nuvens. Tinha em seu peito a sensação horrível de estar fazendo a escolha errada em sua vida, mas ao mesmo tempo tudo estava no caminho que ele deveria percorrer. Mas as dúvidas vinham a cada respiração, então se levantou e foi à janela mais uma vez e a abriu, vendo aquela imensidão junto ao vento que batia fortemente em seu rosto. Ao fundo a lua parecia sorrir para ele. Naquele momento sentiu-se nos braços de sua amada, como se seu calor tomasse o lugar do frio, e uma lágrima correu sobre seu rosto, agora com uma leve sombra de barba a se formar. Ele fechou fortemente a janela com aquele sentimento assustador o consumindo. Caminhou devagar até a cômoda, vestiu suas roupas grossas, colocou seu sobretudo e desceu as escadas que levavam à grande sala onde esteve mais cedo, conversando com o velho Nada e o bruxo que seria seu mestre futuramente. Estava escuro, a lareira em brasas, e havia apenas uma vela no castiçal ao fundo da sala quase apagando, afinal já era madrugada. Sem o esperado sono profundo de todas as noites, Cariel continuou a pernoitar na sala, mas depois se dirigiu ao final de um longo corredor do grandioso castelo, a única parte realmente clara, pois as velas ainda queimavam com vigor. Nas paredes havia quadros magníficos com homens, mulheres, paisagens, e alguns apenas com rabiscos. Ele pôde ver ao fundo duas armaduras montadas, como se fossem dois guerreiros antigos usando roupas de metal, do lado de uma porta que dava para uma longa escada em espiral. Ele a atravessou lentamente, e parou no parapeito da escada. Como estava bem escuro, o local parecia um poço sem fundo, e um vapor quente emanava de baixo, o que surpreendeu Cariel, pois fora dali o frio era incomensurável. Com a curiosidade à flor da pele e sem um pingo de sono para fazê-lo desistir, ele pegou um velho castiçal no qual havia mais velas acesas, bem no meio do corredor. A cera quente insistia em cair sobre suas luvas de couro e também no carpete vermelho.
Cariel desceu até chegar numa parte já iluminada, e ouviu um barulho abafado vindo de perto. Apagou rapidamente as velas e prosseguiu cautelosamente, vendo uma pequena sala totalmente iluminada, com o chão forrado com o mais lindo tapete. As paredes mostravam quadros de bruxos trajando armaduras cujas quais nenhum exército necessitaria, mas bem ao fundo um grande quadro tomava metade da parede em que estava. Em suas bordas cintilavam pedras preciosas junto a mais pura madeira, adornada de ouro e prata. Nele, um jovem idêntico a Cariel empunhava uma espada e um pesado escudo, com um grande sorriso ao olhar para o velho Nada, que na imagem parecia ser o bruxo mais orgulhoso de todo o mundo. Cariel então desviou o olhar e percebeu que Nada estava ali, ajoelhado. Parecia estar orando com muito fervor, na língua dos feitiços. Mesmo com as memórias e poderes do Cavaleiro das Trevas que o enfeitiçou, Cariel não conseguia entender algumas novas palavras que o velho Nada pronunciava. Só entendia o que ele sempre repetia, junto a várias outras palavras; venero-te ó grande deus dos deuses, ó grande Luano. Vendo aquilo sem compreender, e sabendo que não poderia perguntá-lo a respeito, voltou pensativo ao seu quarto. Já deitado em sua cama ele não conseguia parar de pensar no nome Luano. Enfim se lembrou do momento que conheceu o velho Nada, e foi transportado para o grande castelo, quando ele conjurou algo semelhante.
- Quem é aquele cara na foto? Como pode parecer tanto comigo? E por que Nada está com ele? Afinal, que roupas são aquelas que eles usavam? Por que diabos Nada precisaria de uma armadura – pensou Cariel, até ser tocado pelo sono, dormindo profundamente para acordar no dia que seria o mais esperado de sua vida, pois iria rever a mulher que amava e que carregava seu legado mais precioso, seu filho Laryom.
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CARIEL
FantasiEm uma terra onde a desconfiança e a paz andam lado a lado, dois povos vivem separados por um único pacto, selando não só a boa nova entre homens e bruxos, mas também a prosperidade e a boa vontade de um Deus. A cada 500 longos anos este pacto tem d...
