A gratidão é a memória do coração.
Corretor ortográfico @ewertonalves93
- O senhor está bem? – perguntou Tberyos, liberando seu pai do feitiço temporal, sacudindo-o para que despertasse por completo do atordoamento.
- Sim, filho. Se você não intervisse, já estaria morto. – respondeu o Rei ao resmungar. Ele levou a mão ao olho esquerdo, aparentemente furado.
- Não, pai. O senhor teria dado um jeito. – disse Tberyos sério.
- Talvez... Talvez. Mas como pôde realizar algo tão magnífico? – Parks retirava o sangue dos olhos enquanto olhava ao redor – Tudo ao nosso redor está absurdamente lento... Todos que entram na área enfeitiçada são atingidos? – perguntou o Rei, observando alguns bruxos tentando intervir de longe.
- Espere um minuto.
Tberyos se concentrou em cada bruxo de seu exército dentro do raio de ação do feitiço, concedendo a eles a liberdade de se mover naturalmente por aquele cenário mortífero que se formara. Os únificos executaram sem piedade milhares de yverynyanos imediatamente, com golpes de espadas. Tberyos, cansado, se afastou com o seu pai. Observando tudo atentamente, o General das Trevas desaparecera para junto de seu exército.
O príncipe únifico nem tentara confrontá-lo, pois pelas próximas cinco horas ele não poderia usar o Tempus novamente. Ter feito tamanha demonstração de poder quase o drenara por completo, afinal fora a primeira vez que delimitara um espaço tão grande com o feitiço temporal.
Mas naquele momento a outra metade do exército negro se movia para o ataque. Os guerreiros únificos se reagrupavam, observando o restante dos inimigos fugindo de volta para o imponente exército yverynyano, que novamente havia começado a soar seus tambores coordenadamente, como se fossem batidas de um coração acelerado.
Apesar da vitória parcial únifica, ainda havia mais de sessenta mil soldados preparados para dar a vida pelo que acreditavam ser o certo.
- Senhor, meu relatório! – disse Yvys se aproximando cautelosamente do Rei. Parks apresentava um leve sangramento em seu olho atingido.
- Prossiga. – disse Parks, segurando a dor.
- Nossas baixas até agora foram de cerca de três mil bruxos, nos restando vinte e dois mil apesar de que mil deles estão feridos. O resto precisa se recuperar. – reportou o velho bruxo – O inimigo perdeu aproximadamente quarenta mil combatentes em sua investida desorganizada; metade dos yverynyanos naquele campo de batalha não tem experiência em guerras.
- Isso foi um genocídio! – exclamou Petrycos enquanto se aproximava.
De repente os tambores negros aceleraram, sempre em três batidas sincronizadas. Eles pronunciavam mais um ligeiro avanço da infantaria yverynyana, e ao fundo pôde-se ouvir o soar das engrenagens enferrujadas das catapultas, cujas quais não conseguiram acompanhar a marcha do exército negro.
Cada uma delas era puxada por dois cavalos de guerra, e para armá-las três bruxos de elite, com a rara capacidade de retirar e compactar pedras de onde estivessem, levitando-as e armando simultaneamente as poderosas catapultas.
Eles pararam sobre o declive da planície, esperando o comando do Rei Yryo, que vinha estava para a linha de frente em cavalo negro em meio aos esbranquiçados cordões da chuva que tomava as planícies. Atrás deles, a extensão do horizonte servia de fundo para que o exército recepcionasse sua artilharia, ao som das batidas dos tambores.
- Estamos perdidos! – exclamou um dos paladinos únificos ao observar todo aquele contingente inimigo sobre a linha do horizonte.
Mas do lado direito das muralhas um portal se abriu no ar rente ao chão, rasgando os vento junto a relâmpagos que cruzaram o campo de batalha. Os dois exércitos se assustaram com tamanha energia vinda do portal, o que impossibilitava o ataque de Yryo naquele momento.
- Será que são amigos? – perguntou o Rei Parks, sério e preocupado.
- Assim espero. – respondeu-lhe Petrycos.
Uma grande quantidade de bruxos do ventos saiu rapidamente do portal, se aproximando do contingente únifico próximo às muralhas. Não eram treinados nem usavam uniformes típicos do exército, mas sabiam muito bem como lutar.
Os únificos ainda estavam se recompondo. Ainda estavam longe de suportar um ataque contínuo de catapultas, mas com a chegada de quinze mil bruxos aliados as coisas poderiam se equilibrar.
- Rei Parks! – saudou Anuros, aproximando-se com seus comandados. Eles não tinham medo, afinal todos eram bandidos arrependidos. A única coisa que os interessava era uma honraria, mesmo que mínima – Eu sou irmão do grande rei outrora conhecido como o Temor do Deserto, e também sou tio do Rei Yryo, que infelizmente está sendo controlado e manipulado por um Cavaleiro das Trevas.
- Como assim ele está sendo controlado? – indagou Parks.
- Sim, Majestade. Esta guerra foi armada para causar a desgraça a seu reino. Estamos dispostos a ajudá-lo a confrontar este mal terrível em sua casa. Se possível gostaria de pedi-lo, agora como um servo de Vossa Majestade, que liberte Yryo do controle do maldito Cavaleiro das Trevas. Ele é um cego que apenas vê pelos olhos dos outros.
- Sua ajuda é muito bem-vinda para nós, Anuros. Somos gratos a você por um ato tão benevolente em uma situação catastrófica como a que se apresenta. Mas se por ventura sobrevivermos e ganharmos esta batalha Yryo morrerá, sendo controlado ou não, sendo seu sobrinho ou seu filho. – disse-lhe o velho Rei sério, olhando para o antigo conselheiro yverynyano.
- Eu entendo Majestade. Infelizmente eu o entendo. – lamentou Anuros.
Os dois exércitos se misturaram num só, fechando gradualmente a fissura no espaço perto das muralhas. Os inimigos pareciam confiantes na vitória, pois nem se importaram com o auxílio dado ao reino únifico.
- Rei Parks. – um jovem bruxo que viera com Anuros aproximou-se dele, e o saudou – Eu sou Erik, é uma grande honra poder conhecê-lo. Sou um paladino real do reino yverynyano. Peço-lhe, por favor, que perdoe os inocentes do meu reino por esta arbitrariedade.
- Igualmente meu filho, igualmente. – respondia Parks ao apertar as mãos do jovem paladino – Não se preocupe com aqueles que são inocentes. Neste momento temos que sobreviver, no mínimo pelas próximas horas. Isaías, meu filho Tberyos, meu irmão Petrycos e o jovem Abraão liderarão nossos bruxos. Ninguém passará por aqui. Se quiser, pode juntar-se a eles à linha de frente.
- Alguém de vocês únificos tem algum feitiço poderoso? – perguntou Gerverom, ainda abalado pelo sacrifício de seu pai. Ele não queria lutar em guerras dos outros, mas por obediência acatara o último desejo de seu velho pai, que perdera a vida ao enviar por teletransporte todo aquele exército formado por assaltantes e ex-prisioneiros.
- O que pretende fazer? – indagou o velho Anuros.
- Ganhar tempo. – respondeu ele seriamente, amarrando seus dreads pesados.
- Eu tenho um, mas preciso de tempo para reunir meus poderes. Estou um pouco exausto. – disse o Rei únifico.
- Eu tenho algo... – disse Isaías ao se aproximar.
- É o suficiente – anuiu Gerverom – Em quanto tempo seus reforços chegam? – perguntara ele, observando a ruptura causada pelo portal desaparecer frente ao grande exército. Ele segurava uma lágrima que insistia em explodir em seus olhos, afinal aquilo era o último resquício dos poderes de seu velho pai.
- Em aproximadamente um hora e meia. – respondeu Yvys, tocando-lhe discretamente o ombro. Logo em seguida acenou ao Rei, dando a entender que as intenções do jovem eram as melhores possíveis.
- Rei Parks, senhor das terras únificas. Meu pai morreu para que pudéssemos ajudá-lo. – disse Gerverom, tocando as mãos – Não admitirei jamais perder esta maldita guerra que não me pertence! – Ventus Inter Aquilonem et Murum! – ele conjurou com tanto poder emanando de si que seus dreads se elevaram. No mesmo instante a terra começara a trincar no meio do campo de batalha, e de dentro das rachaduras surgiu um vento tão grandioso que balançava as vestes dos dois exércitos, formando uma barreira cortante que fez os bruxos do exército negro recuar enquanto observavam de longe aquele bruxo com as mãos juntas, mantendo aquela energia imensa – Eu ganharei tempo para vocês. Pelo menos por aqui eles não passarão. Rei Parks, mostre-me do que é capaz e reúna ao máximo todos os seus poderes!
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CARIEL
FantasiaEm uma terra onde a desconfiança e a paz andam lado a lado, dois povos vivem separados por um único pacto, selando não só a boa nova entre homens e bruxos, mas também a prosperidade e a boa vontade de um Deus. A cada 500 longos anos este pacto tem d...
