Uma alegria tumultuosa anuncia uma felicidade medíocre e breve.
Corretor ortográfico - ewertonalves93
O vento sobre o jardim era fresco, mas intenso, levando as folhas amareladas das árvores pelos ares em um baile esplendido.
- Não entendo Majestade. O senhor está me pedindo para desistir do plano que eu mesmo desenvolvi para ajudar seu filho encarcerado no reino humano, é isso mesmo?
- Não quero deixar meu filho de braços abertos à morte... Meu irmão Petrycos se ofereceu para a missão. Ele disse que faria tudo sozinho em vinte dias, contados a partir de amanhã. – disse o Rei encostando-se ao grande tronco ao olhar para Varyos, que deu as costas para ele, observando ao fundo uma bela roseira completamente florida.
- Senhor este é o prazo que pede para trazer Tberyos de volta. Porventura está duvidando de minhas capacidades? Alguma vez o decepcionei em algo que me dediquei para realizar? – indagou Varyos intrigado.
- Não general, de maneira alguma. Você é um bruxo espetacular, e também confio nas pessoas cujas quais você confiara à missão.
- Então por que diabos manda outro fazer minha missão?
- Ainda não aprovei nada, meu amigo. Apenas queria ver o que teria a me dizer. – disse Parks sério, aproximando-se de Varyos.
- Senhor... Eu sei que ele é seu irmão mais novo, mas há quanto tempo não o vê?
Três anos? Confio muito mais nos meus bruxos de olhos fechados do que nas habilidades de seu irmão, o qual não vejo executa-las há anos.
- Ele não retornava a mais ou menos cinco anos. – consentiu o Rei meio cabisbaixo e envergonhado ao observar a roseira.
- Então como pensa em dar uma missão desse nível a ele? Sinceramente, não sabemos o que ele se tornou. Não o estou julgando, mas não aconselho a enviá-lo Majestade. Sou sua melhor opção.
- Está certo. Será do seu jeito. – disse o Rei, ficando à frente dele.
- Obrigado senhor. Tratei seu filho de volta, isso é uma promessa!
- Espero ansioso, Varyos. Mas responda-me algo com toda a sinceridade que puder. – disse o Rei, olhando-o – Você me acha um rei fraco? – ele desviou seus olhos para o céu.
- Como assim fraco Majestade? Não entendi sua pergunta. – disse Varyos num leve sorriso esboçado em segundos ao observar o Rei de costas para ele, enquanto a brisa tocava suas vestes reais.
- É. Fraco em minhas decisões, em minhas atitudes. Na Batalha de Francos, por exemplo.
- Senhor isso já faz muito tempo. Não foi um ato de fraqueza e sim de bondade para com seus inimigos.
- Mas meu pai jamais os perdoaria. Muitos me chamaram de fraco, incluindo membros do Conselho Real.
- Seu pai se foi jovem, o pai de seu pai se foi mais jovem ainda. No entanto você, sendo o mais sensato e não fazendo tudo através da força, permanece governando.
- Eu sei Varyos, mas não tiro aquela cena da cabeça.
- Senhor tu és um rei piedoso, não fraco. – disse Varyos aproximando-se ficando lado a lado ao seu Rei.
- Aquele exército de moribundos estava em minha frente, e simplesmente fiz uma demonstração de poder para que eles se curvassem a mim, e não os eliminei. Boryel disse que foi vergonhoso ter pena de inimigos. Se eu tivesse lançado aquelas chamas, como passou pela minha cabeça, eu os teria dizimado por completo.
- Eu sei, mas você destruiria seu próprio povo? Aquele era um pequeno exército formado para a rebelião, que estava em seu início. Se você os destruísse se tornaria um rei que não se reconheceria em frente ao espelho. Vergonha não é saber lidar com os inimigos, poupando suas vidas miseráveis, mas sim os destruindo sem piedade, tirando deles a possibilidade de um novo recomeço.
- Talvez sim... Obrigado pela conversa. Venha à igreja um dia desses, traga a família.
Ah, antes que me esqueça, há tempos que não vejo sua filha. Gostaria de vê-la um pouco, onde ela está?
- Ela dorme Majestade. O senhor sabe em que condições a garota vive. – disse o general envergonhado, olhando para a grama.
- Meu amigo, aquele que tem vergonha dos seus tem vergonha de si mesmo
- Não é isso Majestade – tentou se justificar rapidamente ao olhar para o Rei.
- Eu entendo... Muito bem, vou para o castelo. Cuide bem da missão. – disse-lhe Parks, desaparecendo em uma explosão de vento.
Varyos caminhou calmamente pela grama com os punhos fechados e com ódio emanando de seus olhos, parando junto à roseira vermelha ao fundo. Seu perfume tomava uma pequena parte do jardim como se fosse algo sobrenatural. Os olhos do general marejaram quando observou as pétalas de rosa pairarem diante da brisa suave, enquanto sua mente mergulhava em pensamentos raivosos.
- Ai ai... Como esse rei idiota pôde cogitar retirar de mim esta missão? Embora seja muito improvável que aquele príncipe imundo e beberrão esteja vivo não poderia deixar esta oportunidade passar. Mandar bruxos de minha confiança ao reino humano é a melhor coisa que pôde ter me acontecido há anos. – enquanto ele pensava um leve sorriso maquiavélico se formou nos seus lábios – É uma gigantesca oportunidade de expandir meus conhecimentos e de coletar informações, e nisso Isaías é muito bom.
É um bruxo mais centrado e mais habilidoso que eu em alguns de meus feitiços mais poderosos. E é fiel a mim, diferente de Petrycos. Se fosse ele a ir nessa missão todas as informações iriam a Parks imediatamente. Aquele rei decrépito, fraco e indeciso mal saberia como usa-las corretamente! – ele estendeu o braço e pegou cuidadosamente uma bela rosa cujo ramo estava repleto de espinhos curtos e afiados – E Abraão servirá perfeitamente como um peão que apenas luta com o objetivo de proteger. Ele dará sua insignificante vida à uma causa que ele acredita ser maior que ele mesmo, típico burro que pensa mais nos outros do que em si mesmo. – Varyos cheirava a rosa que havia pegado, fechando os olhos e deleitando-se no doce perfume – Mais cedo pude senti-lo usando seu poder em minha filha. Não sabe o que fez muito menos o preço que pagou pela proeza de curá-la. Com certeza ele perdeu uns três anos de sua expectativa de vida, pois toda vez que um mago absorve enfermidades ele envelhece vários anos em segundos. Esse garoto ainda vai ser mais útil do que eu imaginava! – ele jogou a rosa sobre a grama, indo na direção de sua casa – Agora devo preparar tudo para mandar Isaías e Abraão nesta grande missão que coordenarei, assim poderei ser o grande receptáculo do conhecimento que trarão! – Varyos sorria enquanto entrava em sua bela casa, observando Abraão sentado no sofá enquanto apreciava um belo quadro afixado na parede à frente. – Meu jovem amigo Abraão – disse-lhe Varyos aproximando-se com um grande sorriso radiante.
- Senhor está tudo bem?
- Sim meu amigo. Você não imagina o quanto estou orgulhoso diante dos elogios que meu amigo Parks fez a você. – disse o general em um sorriso de felicidade – Sabe me dizer por que meu filho não compareceu? Senti a falta dele.
- Não senhor, não sei. – respondeu o jovem Abraão um pouco constrangido, pois não queria falar do que havia acontecido mais cedo, no quarto da filha de seu mestre.
- Tudo bem filho, se é que posso te chamar assim.
- Err... Pode sim senhor, fico até sem graça com tal honraria. – Abraão se envergonhou, olhando para o velho general, que sorria calmamente.
- Agora vou me retirar. Preciso preparar algumas coisas para a missão que darei a você e ao meu filho. A casa é sua, então fique como se você fosse sangue do meu sangue. Até mais, garoto. – Varyos se despediu , assobiando uma triste canção em direção às escadas.
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CARIEL
FantasyEm uma terra onde a desconfiança e a paz andam lado a lado, dois povos vivem separados por um único pacto, selando não só a boa nova entre homens e bruxos, mas também a prosperidade e a boa vontade de um Deus. A cada 500 longos anos este pacto tem d...
