Capítulo 41 - Centurion

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  Para ver muita coisa é preciso despregar os olhos de si mesmo  

Friedrich Nietzsche

Corretor ortográfico - ewertonalves93  


Após a demorada conversa Centurion fora até os estaleiros do castelo e pegara o melhor cavalo. Pediu um dos pouquíssimos empregados para que o preparasse com uma sela preta bem leve, para que o belo animal pudesse correr mais do que nunca.
O mesmo empregado abriu o principal portão da fortaleza que os protegiam, dando a visão do lago e da ponte de madeira vermelha, que parecia negra na escuridão do fosso. Ele partiu pelas estradas estreitas embrenhando-se por entre a pequena floresta escura. As árvores à beira da estrada lembravam o rosto de pessoas velhas, murmurando perante o constante vento frio que fazia seu sobretudo se debater.
Os corvos insistiam em gritar pela noite adentro, balançando suas asas nos galhos mais altos. Centurion galopava junto ao sereno que começara a cair, como chuva da escuridão. Seu corcel negro de batalha marcava a terra úmida com suas ferraduras, a ponto de espalhar lama ao vento, em suas passadas violentas. Mesmo com frio o belo animal estava banhado de suor, ofegante, e dando fortes baforadas quentes, que em contato com o frio congelante formava longos jatos de vapor, dissolvendo-se ao vento.
Mas Centurion precisava exigir mais de seu animal. O sol estava quase nascendo, e sua missão corria sério risco de fracassar. E ele esporeava seu animal pelas estradas estreitas, marcadas pelas rodas de ferro das carruagens reais, até que finalmente se viu longe da pequena e fria floresta. Os raios de sol já estavam fazendo uma borda laranja no céu, junto às cadeias de montanhas ao longe. Ali a floresta chegava ao fim, e marcava o início do grande precipício, e também o trecho mais perigoso da estrada. A mil metros dali, abaixo um grande desfiladeiro repleto de pedras pontiagudas, passava um pequeno riacho de águas rasas e cristalinas. Apesar do perigo a estrada era a mais utilizada, pois era a forma mais rápida de se chegar ao reino únifico. Fora esta rota, a única maneira era passar por Abyzaham e pela grande cidade de Encantos, que fazem fronteira com as terras unificas. Não demorou para que o sol nascesse, trazendo o calor do dia e derretendo o orvalho da manhã, que congelara algumas folhas à beira da estrada. Toda penumbra que havia foi dissipada, trazendo à tona uma visão magnífica junto ao frio que ainda insistia em ficar, mesmo com os primeiros raios a tomar a montanha.
Ainda montado, Centurion escutou ao longe o barulho das rodas de fero amassando as pedras a estrada. Ajeitou sua máscara assustadora enquanto levava seu animal para o canto esquerdo, colocando uma pesada pedra branca sobre as rédeas longas e negras, fixando-as na parede de calcário úmida. Viu surgir na curva do desfiladeiro dois cavaleiros, a quinhentos metros de onde estava. Eles usavam vestes de couro brancas junto às capas que balançavam ao vento, e seus cavalos marchavam em perfeita sincronia. Logo em seguida a rápida carruagem apareceu, com outros dois cavaleiros atrás. Eles viram aquele bruxo na estrada, todo de preto e com aquela máscara estranha, e pararam imediatamente. Cada um deles portava uma grande lança, e em seu topo havia uma flâmula vermelha sem nenhuma insígnia, bailando contra o vento.
A carruagem era puxada por seis cavalos vermelhos, de crinas longas e amarradas, e um bruxo a conduzia. Não parecia ser um reles cocheiro, pois trajava as mesmas roupas dos cavaleiros. Mas Centurion se mantinha calmo no meio da estrada, vendo a carruagem parar lentamente. Um dos bruxos que vinha à frente deu meia-volta e avisou alguém lá dentro sobre o bruxo no caminho. 

- Senhor eu ordeno que nos dê passagem! – gritou um dos cavaleiros, raspando a garganta – Ou teremos de usar a força para tirá-lo daí?

- Mas que grande merda está acontecendo!? – Outro bruxo saiu da carruagem, abrindo a porta e pisando cuidadosamente sobre a terra molhada. Ele ajeitou seus cabelos lisos sobre as grossas sobrancelhas – Eu disse para retirá-lo à força, não para orientá-lo a sair, entendeu? – Disse ele se aproximando dos cavaleiros.

- Senhor há um bruxo na estrada impedindo nossa passagem. Como o líder dessa viagem aconselho-te a voltar imediatamente para dentro. – Disse o bruxo ao jovem contador, que o olhou com nojo, passando por ele como se sua voz não tivesse poder algum. 

Dois paladinos se aproximaram, escoltando-o até as portas, mas logo em seguida eles ouviram uma criança gritar de dentro da carruagem. 

- Pai, posso sair? – Perguntou o garoto, já correndo pela estrada molhada. Ele foi até seu pai e segurou em suas vestes azuis.

- Vem filho... E vocês, matem esse bruxo ridículo, para que ele saiba quem está atrapalhando. – Disse ele ajeitando os cabelos, que insistiam em ficar sobre os olhos. 

No entanto Centurion se pusera calado, apenas observando-os calmamente. Todos os bruxos desceram de seus cavalos, ficando lado a lado para proteger a carruagem.

- Esta formação... Eles só podem ser paladinos. – Pensou Centurion, retirando sua espada com um olhar imponente. Sua máscara não causava nenhum pavor aos paladinos. 

Ele começou a andar na direção deles, já conjurando foribus e desaparecendo rapidamente. Surgiu à frente do contador, que olhava curioso pela janela estreita, e agora estava de olhos esbugalhados, vendo que a espada vinha de encontro ao seu rosto, cortando até o vento. Um paladino próximo, num reflexo assombroso, virou-se e conjurou um escudo de energia azulada, retendo o golpe. E lançou contra Centurion uma energia equivalente à força que acabara de golpear. O contador se mantinha imóvel, tremendo como um animal encurralado. Poucos segundos depois mais dois paladinos apareceram, lançando uma enorme rajada de fogo em Centurion, que ainda estava meio desorientado. Mesmo assim conseguiu desaparecer no momento exato, vendo o fogo ricochetear sobre a terra molhada, enquanto os jovens paladinos se reagrupavam à frente da carruagem. Os quatro bruxos que pareciam ser os mais poderosos ficaram mais à frente, e o outro entrou com o jovem contador, fechando as portas. Lá dentro, sentado no mais puro couro, ele abraçava seu filho como se fosse a última vez, mesmo com a inocência da criança, que com seus olhos grandes e verdes via o arrogante pai em lágrimas. Sobre aqueles olhos só havia morte e dor.

- Calma, ele é apenas um, nós somos cinco. – Disse o paladino ao confortá-lo – Haja o que houver fique aqui dentro. Existe a chance de passar outra carruagem e nos ajudar caso a coisa fique feia. 

O paladino saiu e se juntou aos outros quatro. Eles tocaram as mãos e no momento exato ventos dançaram sobre suas vestes, balançando-as em todas as direções ao som da invocação ignis. O vento tomou grandes proporções e ficou quente, a ponto de acabar com todo frio que havia.

- Então vai ser assim. – pensou o velho Centurion, calmamente conjurando foribus.

A energia que emanava de seu corpo se tornou monstruosa. Com apenas um balançar de sua espada os ventos sacudiam os galhos das árvores. Vendo o grande poder de seu inimigo os paladinos o atacaram ao mesmo tempo, com fortíssimos golpes de espada. Quando as lâminas deles encontravam a de Centurion faíscas escoavam sobre o intenso vento. Bem treinados, eles o rodearam. Os olhos do bruxo se mantinham inquietos, esperando o ataque, de qualquer direção. No entanto lançaram sobre ele rajadas de fogo. Centurion viu que não tinha muitas opções. Com a espada ele golpeou o chão, e ao redor de seu corpo quase sendo tocado pelas chamas surgiu um escudo de energia esverdeado e escamoso, que girava em todas as direções, absorvendo as chamas que ricocheteavam em suas paredes.

- Não queria usar isso agora, mas... - disse ele, sério – mais não tenho tempo para jovens insolentes.

Ele desapareceu num piscar de olhos, e surgiu um pouco atrás dos paladinos, que ainda olhavam o escudo desaparecer lentamente. Não entendiam que velocidade absurda seria aquela. Centurion então correu de espada em punho, e no exato momento um dos paladinos virou-se, sendo surpreendido com a mão grande e pesada do bruxo encaixando perfeitamente em seu rosto no movimento do inimigo os outros se dispersaram, e nos espaços entre os dedos. O jovem paladino pôde ver aquela máscara assustadora de perto, e pela primeira vez sentiu medo. 

- Morra! – Centurion conjurou numa rouquidão assustadora. - gehennam ignis!

Ao fundo, correndo em direção aos dois, o líder dos paladinos gritou com todas as suas forças – Nãaaaao! – Ele estava trêmulo com o nervosismo palpitando em seu peito, pois sabia que feitiço aquele monstro acabara de usar. Mas não chegou a tempo. Viu a cabeça de seu amigo e companheiro explodir em chamas nas mãos daquele bruxo, que lançou sobre ele uma enorme rajada de vento, jogando-o contra a parede de calcário.

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