O homem digno ganha para viver; o menos honesto vive para ganhar.
Textos Judaicos
Corretor ortográfico ewertonalves93
Assustado e com a cabeça em Karem, Abraão atravessou as escadas e os corredores até uma sala iluminada. Todos estavam em pé, esperando por ele. O general, à frente, o olhava sério, visivelmente irritado com sua ligeira demora.
- Desculpem a demora, já estou pronto senhor.
- Entendo, meu jovem. Não há nada pelo que se desculpar. Creio que teve uma noite agradável. – disse o general.
- Sim senhor. Dormi como uma criança. – Abraão abaixou levemente a cabeça, envergonhado ao observar Karem, que deu um leve sorriso perto de seu marido.
- Vamos ao que interessa, meus dois rapazes. Há uma mochila com suprimentos e armas em seus cavalos. Quero atenção nessa missão, só matem em último caso. E se for o caso, desapareçam do reino humano sem serem vistos.
- Pai, isso vai dar certo. Eu posso sentir isso.
- Então preparem-se, vocês partirão em dez minutos. Confio em vocês, não me decepcionem.
Eles fizeram rapidamente seu café da manhã, sob o olhar atencioso de Varyos. Karem olhava Abraão da esquina da porta com um sorriso disfarçado e sem adentrar-se à cozinha, lembrando do desempenho do garoto. Abraão queria sair logo dali em direção à missão, e minutos depois foram ao estábulo. Tudo já havia sido organizado pelo cocheiro, que parecia não ter dormido um minuto sequer na longa e fria noite.
- As portas da cidade já estão abertas, então vão e cuidem um do outro. Peguem as tochas na saída da cidade e não entrem na floresta a cavalo. Ao final de vinte dias buscarei vocês na fronteira. Agora vão, meus filhos. – Varyos abraçou forte seu filho Isaías, e logo depois abraçou também o jovem Abraão.
Finalmente eles partiram. Estavam com medo, mas a adrenalina falava mais alto, junto ao barulho das ferraduras batendo sobre as pedras da cidade. A Lua, junto as estrelado, tornava tudo mais intrigante. Nem o frio tirava o ânimo, que cada vez mais suprimia o medo e a insegurança, até que chegaram aos portos. Como Varyos havia afirmado, havia oito bruxos fazendo a guarda. Eles deram uma tocha para cada um, e sem uma palavra os guardas fecharam os portões sobre suas costas. Enfim Isaías e Abraão começaram a cavalgada pela grande planície em seus cavalos de guerra o mais rápido que podiam. As tochas tremulavam em meio ao vento. Vistos do alto da muralha eram como duas estrelas que pairavam sobre a terra, até que o Sol nasceu à frente, com uma ligeira faixa laranja quase vermelha no horizonte, espantando levemente o frio que os corroia, mesmo com suas vestes grossas. Toda a escuridão que havia deu lugar a uma neblina que parecia nascer de dentro da terra, cobrindo as margens da floresta que se aproximava logo à frente. Eles apearam seus cavalos e pegaram as mochilas com suprimentos para a longa viagem que começava. O vento úmido, em meio à neblina, deixava a floresta ainda mais assustadora. Mesmo com a luz do dia uma leve penumbra ainda se esvaia por causa dos raios de sol que se adentravam pelas copas das grandes árvores, com o pairar do vento calmo levando suas folhas secas em todas as direções.
Em meio à incerteza que tomava conta de suas mentes, os dois bruxos colocaram um cachecol sobre as narinas para facilitar a respiração. Partiram com passos largos em direção ao seio do desconhecido, e com o clarear do dia tudo ficou mais nítido. A neblina se dissipava, e de repente eles se viram no meio de uma gigantesca floresta de árvores milenares, cobertas de lodo em toda a extensão do chão, que era coberto por raízes e folhas secas, amareladas e negras. Os pássaros cantavam a boa nova do dia enquanto eles se deslumbravam com a grandiosidade à frente. Uma névoa inexplicavelmente úmida trazia um frio assombroso, e pairava como uma grande onda seca, deixando tudo ainda mais obscuro e assustador junto ao grito de macacos que balançavam sobre os galhos, como se fosse o presságio de uma grande tormenta. Os dois bruxos avançavam, e a cada metro a mata se fechava mais, dificultando a entrada dos raios de sol, o que tornava a penumbra do lugar ainda mais escura.
Enfim, o primeiro dia se foi. A noite rapidamente veio, e trouxe consigo um frio descomunal que congelava as pequenas folhas do chão. Eles já não agüentavam mais caminhar, então procuraram um abrigo numa grande árvore curvada, com o tronco envolvido em lodo úmido. Sobre suas raízes, cujas quais emergiam da terra vermelha, eles montaram uma barraca. Isaías havia trazido consigo um enorme pano, e o estendera sobre as folhas. Abraão fez um buraco e dentro dele uma pequena fogueira, com a pouca madeira que pôde encontrar por perto. E ali eles dormiram. Os animais ficaram em silêncio e tudo se fez tão escuro quanto fechar os olhos. Pouco antes do nascer do Sol eles já estavam preparados para mais um dia de árdua caminhada. Isaías se mantinha animado enquanto comia uma banana, mas Abraão não estava tão confiante como antes. Ele pressentia que algo poderia dar errado, ou até mesmo que pudessem morrer de frio em uma das noites que viria. Mesmo assim ele pegou uma maçã em sua mochila e respirou fundo, olhando seu amigo um pouco à frente, no mesmo ritmo de caminhada que começara.
- Ei Isaías, o que você está achando disso? – perguntou Abraão enquanto pegava um cantil de água que ainda estava quase cheio.
- Nada demais. Esta floresta não é como as outras. Não tem muitos animais, só pássaros e macacos. E não estão em todos os lugares que passamos hoje. Os únicos seres fazendo barulho nessa imensidão somos eu e você. – disse Isaías ao observar o dia clareando calmamente junto à neblina sorrateira.
- Também percebi.
- Devemos andar em silêncio. Lembre-se amigo, eles estão por aí, não devemos alertar uma provável patrulha sobre nossa existência.
- Isso mesmo.
Tudo o que viam era igual. A névoa que quase os cegavam, o balançar das árvores junto ao vento frio, tudo era maçante e cansava mente e corpo. Ao final de oito dias eles estavam perto, pois Varyos havia estipulado dez dias para irem e 10 dias para retornarem. O frio já não era tão forte como antes e a névoa quase não existia em algumas partes, mas as chuvas não davam trégua, encharcando as folhas escorregadias e as roupas pesadas dos dois. Isaías já estava em seu limite, e Abraão mal conseguia andar de tão trêmulo. Eles estavam há seis dias sem dormir direito, e a comida começara a acabar. De repente um barulho reverberou na floresta, algo que jamais queriam escutar; relinchos de cavalos junto de conversas e risos. Era uma pequena cavalaria, a poucos metros deles. Os dois bruxos não tinham onde se esconder. Isaías observou que um rio passava logo à frente, com águas calmas, cheio de folhas nas margens e tomado por uma fina névoa. Sem opção eles deslizaram por um pequeno barranco não muito íngreme e se jogaram nas águas negras e congelantes, e ficaram quietos, olhando para o topo do pequeno monte. Não demorou para que vinte cavaleiros aparecessem logo acima, com flâmulas vermelhas que tremulavam contra o vento. Mal dava para ver a cor de seus olhos, pois usavam armaduras que cobriam todo o corpo. E peças firmes em seus membros e couro de carneiro nas mãos e no pescoço. Cada um usava uma grossa capa vermelha aparentemente pesada. Um deles desceu lentamente de seu cavalo, olhando para frente, em direção ao riacho. Isaías tremia, não de medo, pois sua autoconfiança dizia que eles eram fracos e ultrapassados. Mas tremia com o medo de uma guerra que ele jamais queria começar. Abraão olhava com raiva para frente, pois no fundo ele queria matar todos os cavaleiros e coletar um pouco de cabelo para seu mestre, mas não poderia fazer nada na frente de Isaías.
Bem ao lado da inquieta cavalaria estava o rastro que levava direto às folhas amassadas, cheias de terra vermelha. Nesse momento Abraão conjurou lyvyty, quase que sussurrando. Um vento mediano se fez sobre as árvores até espalhar as folhas, cobrindo o rastro. Os cavalos se assustaram e o homem mais próximo deles se virou, e enfim o grupo partiu floresta adentro, em um barulho considerável. Os dois bruxos deixaram as águas os levarem até certo ponto, em perfeito silêncio. Depois subiram em uma pequena elevação para retornarem à sua viagem, agora com mais cautela do que nunca, afinal eles estava cada vez mais próximos das linhas inimigas.
- Você viu aquilo Abraão? Eles usam armaduras como os livros dizem que eles tinham antes do grande deus Únifico. – exclamou Isaías.
- Não sei se me preocupo ou se me acalmo. Parece que eles realmente estão parados no tempo. Não evoluíram nada nesses mil e quinhentos anos. Mas a forma pela qual eles se impõem demonstra certa superioridade, até mesmo a nós bruxos.
- Percebi a mesma coisa, mas talvez seja porque eles nunca viram o verdadeiro poder.
- Será? - indagou Abraão, caminhando lentamente.
- Aqueles que vivem sob o manto da superioridade acabam vivendo um achismo, jamais uma realidade. – disse Isaías com um leve sorriso confiante.
- Creio que se houvesse uma guerra não haveria como eles vencerem. – disse Abraão enquanto escorava o cabo de sua espada à sua cintura.
- Nós bruxos somos Deuses para eles, e para nós ele são reles formigas equipadas com latas pesadas em seu frágil corpo imperfeito. – zombou Isaías.
- Eu sei, meu amigo. Mas até uma formiga pode causar dor.
- Mas vão ser apenas formigas. – respondeu Isaías, caminhando à frente.
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CARIEL
FantasiaEm uma terra onde a desconfiança e a paz andam lado a lado, dois povos vivem separados por um único pacto, selando não só a boa nova entre homens e bruxos, mas também a prosperidade e a boa vontade de um Deus. A cada 500 longos anos este pacto tem d...
