O que é a guerra? uma profissão de bárbaro em que a arte consiste em se ser o mais forte em dado ponto.
Conde De Ségur
Corretor ortográfico ewertonalves93
- Então diga.
- Amanhã você começará a jornada em direção à sua maior missão, e com certeza terá de lutar contra o Pai, ou outro bruxo tão forte quanto você.
- Como sabe disso?
- O Pai é quem guarda a prisão. Tempos atrás chegamos perto dela e pudemos sentir um poder incrível. Essa prisão, pelo que sei, fica dentro de uma montanha flamejante, um imenso vulcão. Para que você consiga entrar pelas grandes portas de ferro terá de derrotas a chave, que é um colosso de trinta metros de altura, de poderes descomunais e uma regeneração incrivelmente rápida.
-... Por que ninguém me disse isso?
- Porque todos acham que você morrerá tentando.
- Até você?
- Garoto, eu treinei você. Com poucas aulas e muita dedicação você controlou com muita destreza e velocidade os poderes de Elyos, cujo qual era um dos mais poderosos cavaleiros entre nós. Eu confio em você, mas confie em si mesmo. Este é o primeiro passo para o sucesso.
- Eu aprendi a confiar graças ao meu amigo e professor. – disse Cariel ainda sério.
- Então esqueça Ariane, pelo menos por enquanto. Não deixe que ela pese sua mente, ou atrapalhe suas vontades. O amor, por melhor que seja, por mais que nos faça sorrir e até cantar, também é destrutível. Ele fere como nenhuma outra arma é capaz.
- Não queria que fosse assim, mas ao mesmo tempo não me importa. Não entendo, Avalyos. O que está havendo comigo? Por que esse sentimento uma hora parece estar tão longe, mas ao mesmo tempo mora dentro de mim, como se fosse parte do meu corpo?
- Eu queria poder entender para lhe ajudar – respondeu Avalyos meio sem graça. Ele sabia que Nada havia enfeitiçado aquele jovem, por isso Cariel vivia oscilando entre as emoções, em uma constante batalha na qual ele mesmo lentamente se destruía – Mas quero lhe dar uma poção, vai lhe restaurar os poderes e lhe curar mais rápido que nossa regeneração. E esta aqui também, para que tome agora e durma melhor. – Avalyos ergueu o braço esquerdo, entregando as poções à Cariel.
- Por favor, seria muito bom. – Agradeceu ele, pegando os dois pequenos frascos.
- Tome a verde agora, e deixe a azul para uma emergência. Agora, preciso ir. Boa sorte, meu amigo. – Enquanto se despedia, Avalyos pensava consigo mesmo – Tomara que faça efeito e anule o sentimento dele por um tempo, assim ele lutará melhor.
Assim a noite passou como o vento sobre a névoa da montanha, até que o Sol mais uma vez tomou o céu. Cariel já tinha se levantado e estava sozinho à mesa, servindo-se de vários pedaços de bolos e pães e misturando leite à sua xícara de café preto.
- Ora ora, levantou-se cedo. – Nada se aproximou, ainda vestido com um roupão branco que usava para dormir.
- É, minha maior missão começará em breve. – Cariel tomou o resto do café de sua xícara, colocando-a delicadamente sobre o pires branco à mesa.
Acompanhado por Nada, Cariel saiu rapidamente em direção aos estábulos. A nevasca que castigara a região na noite passada havia deixado intransponíveis vários trechos das pequenas muralhas cujas quais guarneciam o castelo. Cinco generais das trevas esperavam pelos dois, segurando seus cavalos de batalha pelas rédeas. Quando chegou, Cariel ajeitou seu sobretudo negro retirando a neve que ainda insistia em cair, e em silêncio ele montou em seu cavalo.
Os generais, que eram seus subordinados, não confiavam nem um pouco nele. Seus olhares eram de dúvida, afinal Cariel havia substituído seu antigo mestre, e eles ainda não tiveram nenhuma explicação clara sobre o ocorrido. Nunca viram um bruxo tão jovem com um posto tão alto dentro da organização dos Cavaleiros das Trevas.
- Cariel – Nada tomou a palavra – Tome muito cuidado com os únificos, pois esta é sua primeira grande missão, e ela começará com a destruição de Sonora.
- Tomarei cuidado. – disse o jovem bruxo, olhando a nevasca de dentro do estábulo, escondendo seu rosto quase que por inteiro com um cachecol azulado e grosso.
- Após destruir a cidade, desapareçam de lá! Os caçadores não irão demorar dez minutos para chegarem. – disse Nada com firmeza, incluindo os generais em sua orientação – Agora vão e mostrem que os Cavaleiros das Trevas voltaram em definitivo, firmes e fortes!
Eles partiram em direção à cidade que ficava perto do castelo, em um vale entre as montanhas geladas. Não podiam exigir muito dos cavalos por entre a neve que congestionava a estreita estrada em meio aos pinheiros na descida da montanha, então seguiram em um leve trote até que a neve se tornou rala, por entre as árvores mais vistosas. Sem o peso da neve eles enfim cavalgaram rapidamente, chegando a um lago de águas cristalinas trazidas em pequenos riachos dos grandes cumes das montanhas. Ali eles pararam para que os cavalos matassem a sede, indo até as margens de pedras brancas, tomadas por pequenos pedaços de gelo.
- Então você é o famoso Cariel... – disse Elias, um dos poderosos generais que estava a muitos anos servindo o antigo mestre – Você matou nosso mestre e tomou seus poderes? – desta vez ele foi mais agressivo, trazendo seu cavalo negros da margem do lago.
Cariel se mantivera calado, como estivera desde o início, mas olhou-o de forma séria antes de responder.
- Elias, eu não tenho nada para explicar, afinal vocês são apenas um ramo insignificante desta organização. Mal sabem o porquê de existirmos, por isso cale esta sua boca de merda antes que eu perca minha maldita paciência. – disse Cariel enquanto buscava seu animal. Elias e os outros olhavam-no seriamente. – Agora montem em seus malditos cavalos e me acompanhem. E não façam perguntas idiotas.
Depois disso eles cavalgaram rapidamente por entre a úmida floresta plana agora mais assombrosa, pois os pinheiros gigantescos bailavam contra o vento como fantasmas na penumbra. Logo eles chegaram aos campos abertos e verdes, deixando a grande floresta para trás. A brisa soprava sobre a relva como se dançasse uma valsa triste, sendo despedaçada pelas resistentes ferraduras dos cavalos de batalha. Eles subiam e desciam pequenas elevações, vendo os cumes longínquos das montanhas congeladas, e logo após subiram um pequeno monte para avistarem a estrada real do reino de Abyzaham.
A grande cidade de Sonora ficava mais ao interior, conhecida por ter grandes músicos e belas peças de teatro. Todo o vale era cercado por montanha, o que tornava a cidade uma das mais lindas do reino, visitada por bruxos de todos os cantos, fascinados pelas belezas naturais, música e arte. Cariel retirou os panos de seu rosto, para observar a beleza de Sonora, com pássaros pairando sobre as construções, das quais apenas uma se elevava além das muralhas; a grande catedral, robusta e branca. Ele respirou fundo junto ao frio vento que passava e retirou seu cachecol, olhando ao redor de uma forma séria e impiedosa. Os outros continuaram montados, ainda desconfiados. Eles não acreditavam que aquele bruxo poderia ter matado seu mestre.
Mas juntando as mãos Cariel conjurou nascitur tenebris com um sorriso frio, como se fizesse uma oração singela. De suas mãos uma pequena esfera negra surgiu, leve como uma pluma, subindo até certa altura até ser levada pelo vento, em direção à Sonora. A quatrocentos metros da cidade ela começou a se expandir, transformando-se em uma grandiosa nuvem negra, fora vista de longe pelos cidadãos sonorianos.
Em questão de minutos a cidade inteira entrou em pânico; crianças eram perdidas e pisoteadas, pertences abandonados, e os guardas não sabiam se iam para a muralha ou se corriam para longe. Mas liderados por um velho e experiente bruxo da guarda, oitocentos bravos guerreiros do pequeno exército, que raramente ficava em alerta, foram aos portões da cidade. O resto da população correu com suas famílias para longe dali, e os que não saíram da cidade se escondiam em qualquer lugar, pois eles tinham a certeza de que os cavaleiros que um dia semearam a morte haviam voltado.
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CARIEL
FantasyEm uma terra onde a desconfiança e a paz andam lado a lado, dois povos vivem separados por um único pacto, selando não só a boa nova entre homens e bruxos, mas também a prosperidade e a boa vontade de um Deus. A cada 500 longos anos este pacto tem d...
