Capítulo Final parte 5 Ressurreição

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  A vontade de superar um afeto não é, em última análise, senão vontade de um outro ou de vários outros afetos. 

Friedrich Nietzsche  

Corretor ortográfico @ewertonalves93 


- Seu pai e eu precisamos muito de você nesse árduo momento, meu príncipe. – sussurrou Pâmela aos ouvidos do jovem, que se assustou com aquele jeito doce, surpreendendo-se ainda mais com os movimentos sensuais dela, tocando levemente em sua mão direita, desejando-o como se ele fosse o último bruxo do mundo. Mas Tberyos a afastou com violência, imediatamente a olhando nos olhos com suas sobrancelhas frisadas em uma expressão furiosa, quase perdendo o controle.

- Eu preciso de meu pai, você precisa do meu pai, o povo precisa do meu pai. O Rei precisa no mínimo de lealdade. – respondeu de forma brusca, saindo à procura de Isaias em meio à multidão.

Centurion observou a tudo discretamente pelas costas do Rei. Ele pediu licença e foi até sua filha, que estava incrédula com a reação do príncipe. Sua respiração se mostrava vacilante, afinal sua beleza nunca fora rejeitada por alguém que ela quisesse ter. Seus seios quase explodiam o espartilho fosco que apertava fortemente suas costas.

- O que está acontecendo aqui Pâmela? – interrogou Centurion segurando-a firmemente pelo braço, sem chamar a atenção das pessoas ao redor.

- Pai... Eu apenas perdi o controle! Não acontecerá novamente, eu juro ao senhor.

- Minha Pâmela – disse Centurion irritado, embora ainda mantivesse um semblante pacífico que contrastava com sua voz grave e rouca, cuja qual soava obscura e ameaçadora – Você vê estas piras tomadas de azeite e todos estes miseráveis mortos em batalha? Observe. Até mesmo os Yverynyanos que nos ajudaram estão untados e logo se desgrudarão da terra rumo ao seio de Únifico, o Deus dos deuses. – nesse momento sua voz ganhava traços ainda mais sombrios – Mas se o seu marido tivesse visto a cena deplorável cuja qual infelizmente pude presenciar, você não teria estas honrarias; sua carne seria consumida pelo óleo fervente com você ainda viva, até que seus ossos derretessem, e eu, seu pai, apenas assistiria calmamente sua fatídica e derradeira desgraça.

- Desculpe-me papai... – disse ela engolindo seco – Isso não voltará a acontecer, eu prometo! Nada sairá diferente de nossos planos. – dessa vez as palavras saíram mais firmes, e ela lançou um olhar autoritário, mas ainda sim assustado, ao seu pai. Centurion a soltou devagar, lançando a ela um sorriso frio.

- Agora vá e conforte seu esposo. E guarde o meu chamado. – disse ele sério, colocando as mãos nos bolsos, desejando estar longe daquele cenário absurdamente triste.

A música ficava cada vez mais calma, e todos sabiam que aquele momento, o ritual de transcendência, havia começado. Um velho bruxo, o responsável pela cerimônia, aparecera à frente dos músicos com uma tocha nas mãos; era um poderoso bruxo do fogo, barbudo e aparentemente cansado. Seu olhar sereno transparecia um gosto estranho pela canção fúnebre e obscura. Vestia-se de uma longa túnica vinho, com leves detalhes brancos e negros. Ele andou vagarosamente em direção às piras, olhando a todos nos olhos. Em seguida caminhou até as águas do lago, que refletia parcialmente as luzes ao redor. A multidão seguia os cautelosos movimentos do velho bruxo, à espera de suas sábias palavras.Com os pés descalços à margem esquerda, ele ergueu a tocha aos céus e mergulhou-a calmamente, para que ela se apagasse por completo. Logo um vento frio pairou sobre todos e uma forte neblina surgiu, como um dia de intenso inverno acumulado se abatesse sobre as árvores e principalmente sobre as águas negras e calmas do lago.Nesse momento apenas os corvos faziam seus típicos barulhos. As lamentações e choros haviam cessado completamente. Segundos depois todas as tochas se apagaram, deixando tudo em um escuro absoluto. De repente, uma voz grave e aveludada reverberou como um trovão.

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