Capítulo 80 A volta de Tberyos

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Tudo que me desejar de negativo baterá no peito e voltará pra você em forma de amor e paz .

Bob Marley


Corretor ortográfico ewertonalves93               

O vento fresco varria calmamente a relva tomada pelos diversos dentes-de-leão que flutuavam suavemente e entrelaçavam-se ao brilho do Sol, parcialmente coberto pelas nuvens que mais pareciam uma grande colcha de algodão. Tberyos e Ariane cavalgavam levemente pelos campos abertos, em um silêncio cheio de tensão. Ela sentia tanta raiva que mal o olhava nos olhos, e ele estava mais do que ansioso para rever sua família. Mesmo assim aquela presença que sentira no quarto dela não saia de sua mente, tão poderosa e maligna que o deixou arrepiado.

- Você não devia ter me trazido Tberyos. Eu tenho uma vida inteira pela frente, e um grande fardo para carregar.

- Mas.... Esse fardo é seu filho. Você sabe o que eles fazem com uma mãe solteira, não sabe? – Perguntou Tberyos com uma voz amedrontada.

- Sim, eu sei. E mesmo assim queria ficar lá, sozinha. O velho Josias ia assumir meu filho, e tudo se resolveria.

- E em troca do quê ele faria isso?

- Não lhe interessa. A verdade é que estou sem ter para onde ir agora que você me tirou de onde eu tinha segurança.

- Segurança?!

- Sim, Tberyos. Segurança.

- Alguém muito maligno estava atrás de você, mas não se preocupe. Você não está sozinha, muito menos o seu filho. Ele é uma criança diferente, sinto nele algo fora do comum.

- Não sinto nada de diferente, só tenho medo de tê-lo. – Disse Ariane séria.

- ...

- O que foi Tberyos?

- Nada. Você estará segura comigo, terá um teto e muito respeito.

Eles subiram um pequeno monte, já avistando as grandes muralhas do reino únifico, que se estendiam na imensa planície. Uma lágrima tímida escorreu pelo rosto de Tberyos, o que fez com ele respirasse fundo para e esporeasse seu cavalo, indo em direção às muralhas. Ela o abraçou forte pelas costas, e ele só ouvia o som das ferraduras do corcel cortando a terra umedecida. O vento ricocheteava em seu rosto, levando para longe as lágrimas que insistiam a vir mais constantes enquanto se aproximavam dos portões. Quando ele deu por si, já estava em frente aos guardas.

- Identifique-se, forasteiro! – gritou o líder dos sentinelas.

De cabeça baixa para esconder suas lágrimas de Ariane, Tberyos ergueu lentamente a os olhos e seu rosto foi tomado pelo brilho do Sol, que o ofuscava

- Meu nome é Tberyos, seu príncipe e herdeiro do trono únifico, filho do Rei Parks, rei do maior reino do grande Infernus! – disse ele com uma altivez surpreendente.

Ariane levantou a cabeça, assustada com aquela imponência de Tberyos ao vê-lo encarar o velho bruxo da guarda. Ela não entendia como um príncipe poderia ser tão simples e humilde como aquele bruxo que a trouxera de Abyzaham.

- Não pode ser... – disse o guarda enquanto descia rapidamente as escadas em frente ao pesado portão de ferro e madeira. Ele precisava ver se era mesmo o príncipe que saíra há vários dias do castelo.

- Por que o espanto, Aveles? Por acaso não reconhece mais seu próprio príncipe? – disse Tberyos com um leve sorriso.

- Reconheço, meu senhor. Sua presença nunca foi tão forte e reconhecível. Lembro-me de suas fugas para o meio das planícies em sua adolescência. – disse o velho protetor da muralha, ordenando a seu subordinado que abrisse logo o portão – O que houve meu príncipe? Por que sumiu tanto tempo assim?

- É uma longa história. Um dia eu a contarei. – respondeu ele entrando rapidamente, enquanto controlava-se para não chorar.

Assim que cruzou as muralhas todos que o viam reverenciavam-no, e no mesmo instante a notícia de que o príncipe havia voltado correu como o vento aos cantos da cidade, e todos queriam saber se era mesmo verdade. Tberyos partiu para os estábulos, antes que a euforia da notícia chegasse a seu pai. Ele queria fazer uma surpresa, por isso saiu do centro das atenções que se concentravam nas ruas da Cidade Azul, então desceu rapidamente de seu cavalo e ajudou Ariane a descer cuidadosamente da garupa. Ele mal havia retornado e seu amigo, o cocheiro Nely, não acreditava em seus olhos, mesmo depois de receber um abraçado apertado de Tberyos.

- Meu amigo! Que saudade! – disse Nely.

- Senti sua falta, meu amigo!

Nesse momento eles foram interrompidos por Ariane, que olhava Tberyos de forma séria.

- Por que você não me falou quem era?

- Se eu lhe dissesse você acreditaria?

- Talvez sim...

- Sei, como você acreditou que havia uma presença maligna vindo em sua direção.

- Aquilo foi outro caso, Tberyos.

- Faça algo para mim, Ariane.

- O quê?

- Venha até o salão real. Quero te apresentar à minha família, ao meu pai.

- Jamais! Olha para mim, estou suja e mal vestida. Seu pai é o grande Parks!

- Bom deixe-me pensar em algo. – disse Tberyos, enquanto dirigia seu olhar para o cocheiro – Meu amigo Nely, leve está senhorita para uma pensão a melhor do reino , para que ela se acomode e tome um bom banho. Apresente-a aos alfaiates para que eles a vistam com o melhor vestido. Depois irei apresentá-la ao meu pai como minha hóspede. 

- Sim senhor. – disse Nely sério, olhando a jovem com um ar de curiosidade.

- Por que isso tudo Tberyos? Você nem me conhece direito. – disse ela sem acreditar no que ouvia.

- Ariane, algo me diz que você é mais especial do que imagina. E também gosto de você, já lhe falei isso, lembra? Agora preciso ver meu pai. – ele se despediu e saiu rapidamente em direção à escadaria real. O vento nunca fora tão reconfortante quanto estava sendo, bailando entre os cabelos agora longos do jovem príncipe. Ele corria como se estivesse em uma planície, e seu coração pulsava como relâmpagos avassaladores.

O rei estava há dias em seu salão, sem receber visitas. Apenas remoendo tristezas e abraçando a solidão. Sua única companhia era a de Rodolfo, que fazia seu coração um pouco mais feliz. Mas nada era tão doloroso quanto as lembranças de seu único filho; mesmo que ele não fosse aquele bruxo atencioso e que nos últimos anos tenha se apegado mais ao vinho do que em Rodolfo, Parks daria a vida, o reino, sua essência, tudo em que acreditava para que pudesse tê-lo novamente, sentado ao seu lado.

- Meu Rei... – disse um dos paladinos reais – Há uma pessoa querendo vê-lo.

CARIELOnde histórias criam vida. Descubra agora