O sábio nunca diz tudo o que pensa, mas pensa sempre tudo o que diz.
Aristóteles
Corretor ortográfico - ewertonalves93
A noite estava clara. E o frio era terrível, a ponto de congelar os dedos mesmo dentro das grossas luvas de couro. A lua pairava levemente sobre os céus rodeada de estrelas, clareando a bela carruagem negra puxada por oito cavalos dos mais velozes por entre a névoa, na estrada estreitada pela vegetação seca, em direção à Floresta de Demétrio, ao sul do grande reino unifico. Bem ao fundo havia luzes na grande muralha azul. A floresta era estranha e assustadora, e à noite era o lar de corvos e corujas que gritavam sons horripilantes sobre os galhos tomados pelo lodo.
Depois de horas eles atravessaram a pequena floresta, indo em direção à um castelo na encosta de um grandioso lago de águas negras, que refletia perfeitamente a imagem da lua em meio a uma leve e constante neblina, como se fosse uma magnífica extensão do céu.
Ao chegarem aos portões a noite quase já havia se consumido por inteiro, quando uma sentinela desceu a grande e pesada ponte que protegia o castelo de bandidos e forasteiros. Seu rosto estava cansado, e desprovido de qualquer barba que o ajudaria no frio congelante. Fazia a ronda com sua capa habitual, e uma tocha reluzente que clareava o caminho e mantinha-o aquecido. Embrenhando-se través da fortificação, os quatro bruxos vestidos de roupas negras e máscaras de corvos com longos bicos cor prata entraram juntos na sala principal, iluminada por diversas luminárias que faziam a noite quase se tornar dia. Ao fundo uma grande lareira queimava a todo vapor, perto da única mesa da sala. As pilastras estavam cobertas de granito negro, que se estendia por todo chão a refletir a luz das velas, dando o mesmo efeito das águas do lago.
Logo todos se sentaram calmamente; já havia se tornado um ritual mensal. Ficaram ali por alguns minutos, aproveitando-se do calor aconchegante da lareira, até que do fundo da sala surgiu uma bela mulher, desfilando em suas roupas justas e coladas usando a mesma máscara de corvo, sentando-se à ponta da mesa. Em seguida surgiu à frente de todos, numa explosão de vento, o que seria o líder da organização; usava uma máscara de corvo branca, com o bico avermelhado. Trajava vestes negras cobertas por um longo sobretudo de couro vermelho-sangue, que parecia ser bem pesado e resistente.
- Demoraram – disse ele com uma voz trêmula e grave, impossível de reconhecer, mesmo por um parente próximo. Sentou-se debruçando seus punhos sobre a mesa de madeira curada, tão bem envernizada que mal dava para ver os encaixes de sua estrutura.
- Mas aqui estamos, e temos de conversar muito sobre Verbus – disse o bruxo da cadeira à esquerda. – Depois que ele foi idiota o suficiente para deixar ser pego por aquele rei incompetente as coisas começaram a mudar. Nunca tivemos um membro tão importante preso nem desaparecido, como é o caso dele.
- Você quer dizer que temos um problema com Verbus? – ironizou a mulher, dobrando as pernas enquanto olhava através dos buracos da máscara.
- Se acalmem. Verbus está bem, não há com o que se preocupar – respondeu o bruxo respirando profundamente, retirando as mãos da mesa. – Ela mesma cuidou para que ele se libertasse e o mandou em uma missão, para o nosso próprio bem. Acalmem-se. Mas realmente temos um grande problema, e é impossível negá-lo.
- Então nos diga, senhor. Afinal todos nós queremos saber. – disse o bruxo perto da mulher.
- Vocês todos se conhecem, e eu conheço vocês. No entanto ninguém de vocês quatro sabe minha identidade. Mais do que justo, afinal estou coordenando tudo que acontece na Sangria há sete anos. Estamos prestes a conquistar este reino e outros mais, mas infelizmente o assunto é complexo e arriscado. Em sete anos de paz e prosperidade a Sangria agora corre perigo; os Cavaleiros das Trevas ressurgiram, mais fortes e mais determinados. Há tempos, como sabem, um dos mais poderosos membros da Sangria recebeu a missão de distrair o poderoso general Varyos, que estava nos perturbando. Mas Kabal passou dos limites, matando a filha do maldito general, e isso gerou uma imensa comoção no reino, e no próprio Varyos. Com isso o pobre bruxo se desorientou por anos, e não foi necessário matá-lo, afinal só matamos em último caso. Somos o bem desse mundo, não o mal. Mas agora há outro que nos ameaça... Centurion, pode retirar a máscara. Aguyus, líder do Banco Únifico, fique à vontade. – o bruxo retirou sua máscara, mostrando sua face enrugada e sem barba, com profundas olheiras que se misturavam à sua cor pálida. – Ebatazeu, padre representante da Cidade Suprema no reino unifico e uma das peças mais importantes no Conselho Real. Boryel, o mais velho conselheiro real, respeitado no exército e em toda a cavalaria – disse o líder, olhando aqueles rostos sem máscara, apoiando as costas na cadeira estofada. – Nós somos a revolução. É um prazer saber que tais pessoas se preocupem com o bem-estar dessa cidade. E é ainda melhor termos os mesmos ideais; transformar esses reinos em apenas um, acabando com as guerras e mortes. Hoje temos paz, mas será que amanhã teremos? – disse ele sério - Eu os digo amanhã podemos entra em outra guerra absurda, como as que tivemos antigamente?
- Há algo que precisamos saber. Há sete anos você nos convidou para a organização, com essa mesma máscara. Agora, depois de tanto tempo, ainda se esconde atrás de um símbolo. Por ainda não confia em nós? – perguntou Centurion, um poderoso bruxo pertencente ao Quarto Exército da Infantaria, líder de trinta mil soldados e pai da rainha Pâmela, esposa do rei Parks.
- Bem Centurion, nem eu nem a linda senhorita em sua frente vamos mostrar nada além de propostas e planos. Na hora certa saberão. Esse não é um momento para algo tão fútil. – disse o bruxo seriamente, olhando para todos. – Agora falando especificamente de você, Centurion, pai da rainha e respeitado por todos, com certeza será cogitado pelo rei a ser um dos possíveis Conselheiros da Moeda. É lógico que sua filha irá sugeri-lo, mas existe outra pessoa, com melhor potencial. Sabemos que Parks não é muito emotivo com parentes, exceto o neto. Por isso temos de eliminar a concorrência; estou falando de Goivam. Ele vem amanhã para a cidade unifica, à trabalho. Hoje ele passará pelo Desfiladeiro das Sombras e...
- Bom... – cortou Centurion, falando calmamente. – Como vou poder competir com ele, um gênio matemático? Sou apenas o pai da rainha. – disse ele preocupado, olhando para o mascarado em sua frente.
- Você é um guerreiro, um soldado exemplar. Aos olhos do povo não será corrompido, e sua filha lhe indicará, mas o rei pode escolher outro. No entanto você deve assumir o lugar de Verbus, para continuarmos com os desvios.
- Eu mesmo falarei com minha filha, para interceder por mim.
- Acho que você não entendeu. – falou o velho Boryel, como sempre de cara fechada, aparentemente irritado.
- Realmente! – exclamou Ebatazeu, num frio sorriso de canto de boca.
- Minhas filha é a rainha! Isso vai se resolver com uma palavra dela, senhores. – disse Centurion, um pouco envergonhado.
- Centurion, você terá uma missão: eliminar a concorrência... Literalmente. Daqui a pouco ele passará pelo abismo. Você o jogará, com carruagem e tudo, lá de cima. Assim o bruxo mais indicado para a função será você.
- Mais que certo senhor. – disse o pai da rainha dando um sorriso sem graça, junto a uma respiração pesada, enquanto olhava para todos.
- Não entendo a dificuldade para se entender uma coisa simples como essa. – disse Boryel.
- Agora vou dizer os objetivos do resto de vocês para os próximos meses. Temos um problema gravíssimo como já avia falado e ele chama Yvyos, e outro chamado Anguriom. Aquele velho conselheiro é um perigo. É muito sábio, sem falar nos poderes que ele esconde por trás daquela cara velha e enrugada. O certo a ser fazer é eliminá-lo o mais rápido possível, para evitar futuros transtornos. Deixarei essa tarefa para você, Boryel. Contrate algum mercenário poderoso para este fim, ou você mesmo o mate de alguma forma. Quero-o morto!
- Eu já imaginava que Anguriom seria um perigo para nós – disse o velho comandante, sério – Deixe que eu mesmo o elimine. Na verdade, se me permite, gostaria de deixar claro que poderíamos pôr um fim definitivo à Varyos. Ele me incomoda, sem falar que está muito ligado ao rei.
- ... Entendo. – disse o líder, olhando-o pensativo.
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CARIEL
FantasyEm uma terra onde a desconfiança e a paz andam lado a lado, dois povos vivem separados por um único pacto, selando não só a boa nova entre homens e bruxos, mas também a prosperidade e a boa vontade de um Deus. A cada 500 longos anos este pacto tem d...
