Não ser descoberto numa mentira é o mesmo que dizer a verdade.
Aristóteles Onassis
Corretor ortográfico ewertonalves93
Cariel saira poucas vezes de seu quarto durante toda a viagem. Após dias navegando em mares calmos, mas por vezes turbulentos, ele ouviu o soar de um sino; era o sinal de que um grande nevoeiro estava à frente. Um pouco assustado e eufórico o jovem se pôs de pé, vestindo sua capa negra que estava sobre sua cama mal arrumada com lençóis encardidos, e logo após subiu até o convés. Fazia frio, e uma fina chuva caia sobre as águas inquietas e escuras, como sereno na escuridão.
Diante daquele cinza denso à frente, que mais parecia ser de nuvens carregadas, ele fechou os olhos. Assim ficou por horas, até que a neblina cessou e o Sol surgiu imponente. De repente Cariel sentiu aquela presença poderosa, emanando como se o próprio oceano estivesse caindo sobre si.
- Vocês já sabem que terão de me esperar aqui. Não se movam, e jamais se atrevam a entrar naquele nevoeiro. Logo eu voltarei. – Ordenou ele.
O jovem bruxo das trevas caminhou até a borda da proa do velho navio enquanto respirava fundo, junto a vento gelado que vinha dos confins do mar. As velas então se abaixaram e a pesada âncora foi jogada nas profundezas. Foi a deixa para que Cariel desaparecesse num piscar de olhos, surgindo a mil metros acima da ilha únifica. Enquanto manipulava com destreza o vento ao seu redor como se fosse parte dele, Cariel chegava ao chão observando a grandiosidade do lugar. Logo abaixo uma floresta de grandes árvores se punha entre ele e a presença que emanava poder de dentro da grande montanha no limite da ilha, e o forte calor deixava o terreno arenoso ainda mais seco. Não era apenas uma ilha, era um conjunto de três pequenas ilhas quais vistas do alto formavam um triângulo semi-perfeito. As montanhas desapareciam atrás dos pinheiros sombrios, e quando pôs os pés sobre a relva Cariel se desmaterializou em partículas negras o mais rápido que podia, avançando na velocidade do vento por entre as árvores enquanto se desviava dos galhos espinhosos e troncos caídos. Quando chegou ao pé da suntuosa montanha ele não viu uma planta sequer, apenas pedras vulcânicas junto às cinzas de troncos corroídos pela lava, e bem ao fundo uma grande porta de ferro encravada na pedra se provara resistente à magia. Não havia uma forma de abri-la, nada poderia passar por ela, dizia a escrita entalhada no ferro enfeitiçado. Não havia fechaduras, apenas um desenho em sua estrutura, como uma arte tribal de diversas pontas e contornos.
Enquanto Cariel se reconstituía em frente ao portão, ele colocou as mãos sobre o símbolo, que no exato momento brilhou vermelho e quente, marcando a mão do jovem. A terra começou a tremer, se movendo para todos os lados. Cariel afastou-se em direção à floresta, mas ao longe ele viu surgir dois enormes braços cinzentos do chão, como se a terra o estivesse construindo. Firmando-se, um enorme corpo que foi empurrado à superfície. Era algo inimaginável; um colosso completamente feito de pedras e terra, com mais de trinta metros de altura. Em seus ombros pontiagudas lascas de pedras negras imitavam espadas afiadas, e logo em seguida a grama colou em seu corpo como uma segunda pele, transformando-o em um guerreiro verde. Seu rosto não mostrava expressão alguma, e ocultando aquele vazio surgiu um elmo negro, que mostrava apenas onde deveriam estar os olhos e a boca.
As árvores pareciam minúsculos ramos ante sua altura sobrenatural, e seu corpo era perfeitamente definido, como se fosse feito de músculos. Cariel se afastou mais, sacando sua espada leve e afiada, observando aquele ser monstruoso. Que com sua mão esquerda criou uma grande onda de poeira ao batê-la contra a terra, arrancando muitas das árvores que lhe faziam frente. Cariel se manteve firme, criando um escudo que conteve os ventos, mas o monstro arrancou da terra uma espada de pedra, que parecia ser feita de diamantes delicadamente lapidados. Em seguida o colosso despertou um grito aterrorizante, olhando para o céu. Os pássaros que estavam no interior da floresta levantaram vôo em bandos sobre o céu, como se fugissem de medo, mas o jovem Cariel se mantinha calmo ao ver aquele monstro brandir sua lâmina em sua direção, derrubando árvores e elevando ainda mais a poeira junto aos arbustos e troncos. Cariel desapareceu num piscar de olhos, surgindo em frente ao rosto do grande colosso e conjurando uma grandiosa bola de fogo que explodiu contra o monstro, fazendo-o dar alguns passos para trás. Mas de nada adiantou, ele se refez rapidamente. Em um reflexo assombroso para um monstro daquele tamanho, o colosso brandiu sua mão esquerda contra Cariel, que em questão de segundos se transformou em partículas negras que foram espalhadas pelo vento, reconstituindo-se no interior da floresta. O monstro de pedra o sentia, mesmo que de longe, então começou a se movimentar rapidamente, deixando um rastro de destruição onde passava, destruindo grandes árvores como se nada fossem. Nesse momento Cariel correu em sua direção lembrando-se do treinamento, como um filme em sua cabeça.
- Respire fundo e conjure. Este é um dos seus maiores feitiços, mas você só poderá usá-lo três vezes, e a última vez o drenará por completo. Então faça o máximo para eliminar seu inimigo com dois ataques certeiros. – dizia Avalyos a ele nos dias de duro treinamento no grande salão do castelo negro do velho Nada.
- Eu me lembro, professor.... Eu me lembro! – Pensava Cariel enquanto se aproximava do colosso, que vinha a toda velocidade – Preciso pará-lo! Vamos ver se esta coisa é indestrutível como Nada me contou. Gladius lamina in gehennam ignis!
No mesmo instante toda a extensão de sua espada brilhou em chamas tão quentes que apenas seu calor incendiava as arvores mais próximas. Tudo que estava perto do fogo avermelhado se transformava em pó em meio ao vento quente que balançava a floresta. Com uma força surreal, junto de um grito de raiva, Cariel partiu em um ataque vertical com sua lâmina de fogo. Ele conseguiu partir as pernas do grande colosso de pedra, que caiu de bruços sobre as cinzas da batalha. Mesmo caído ainda tentou se erguer, enquanto suas pernas em chamas se reconstituíam rapidamente, mas Cariel lançou-lhe um olhar impetuoso e imediatamente fechou os olhos, tocando suas mãos. O monstro gritava de uma forma assustadora, terminando de se regenerar, mas Cariel ainda tinha seu segundo feitiço para usar.
- Maledictus sigillum ignis!
Ao redor de seu corpo uma aura quente e amarela se formou, produzindo um vento tão forte como um tornado. As árvores que ainda resistiam à batalha eram arrancadas e lançadas ao céu, então Cariel abriu os olhos. Suas pupilas dilatadas mostravam um brilho dourado, fazendo surgir uma parede de fogo ao redor do colosso, que ainda tentou brandir sua lâmina mais uma vez em direção a Cariel, o jovem bruxo permaneceu calmo. E assegurou firmemente o fio da espada antes que ela o atingisse, observando as paredes em chamas se fecharem, prendendo o colosso em uma fornalha gigante que nunca se apagaria, o imobilizando até que fosse consumido por completo. Como aquele monstro era indestrutível, ele estaria preso até que Cariel o libertasse, pois à medida que se destruía, o colosso se regenerava.
- Até que não foi difícil. Agora só tenho de me preocupar com o labirinto, até chegar ao grande salão onde o sarcófago deve estar. Então terei meu maior desafio!
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CARIEL
FantasíaEm uma terra onde a desconfiança e a paz andam lado a lado, dois povos vivem separados por um único pacto, selando não só a boa nova entre homens e bruxos, mas também a prosperidade e a boa vontade de um Deus. A cada 500 longos anos este pacto tem d...
