"Sob a direção de um forte general, não haverá jamais soldados fracos."
Sócrates
Corretor ortográfico - ewertonalves93
CONSELHEIRO E O PADRE
Tudo que se via em quilômetros e quilômetros era uma vasta escuridão cobrindo toda a face do deserto frio e sombrio. A lua não brilhava, pois as nuvens a ocultavam. Já todas aquelas dunas gigantes pareciam assobiar uma canção fúnebre quando os ventos vindos de todas as direções faziam redemoinhos de areia, que dançavam na imensidão. De repente um clarão trouxe luz a tudo. Uma esfera de fogo surgiu sobre a areia fria, e dentro dela estavam Erik e Anuros, que saíram aliviados. Logo em seguida tudo se fez escuridão. O jovem paladino e o ex-conselheiro entraram bem fundo na imensidão do deserto, na ideia de atravessá-lo até chegarem a outro reino para avisá-los do perigo que estavam correndo com um ditador maligno no controle de um reino com uma potência militar; o grande exército da areia.
- Senhor sabe onde estamos não sabe? – perguntou o jovem Erik com sede, olhando para a vastidão à frente. Seus sapatos tinham atolado na areia.
- Mais ou menos. Pelo que sei estamos a dez dias do reino yverynyano. É impossível nos encontrarem, nem um rastreador nos pegará tão longe.
- Mas senhor, nós estamos bem no centro do deserto. Aqui não tem absolutamente nada. – disse o jovem ao escutar coiotes uivarem em algum lugar, o que provocou arrepios em seu corpo.
- Sim, eu sei. Agora se acalme. Vamos em silêncio, pois se pararmos vamos congelar. – disse Anuros escondendo a face com um pedaço de seu sobretudo, que balançava afinal avião ido a uma casa antes de desparecerem para que o velho se vestisse. – Conheço um lugar por perto. Tenho amigos, garoto, e nenhum deles é nenhum coiote faminto. – terminou ele com um sorriso, seguindo em frente.
Lentamente eles saíram das colunas de areia que os rodeavam, entrando em um terreno de pedra com altas montanhas rochosas. A estrada era cheia de pedras pontiagudas que caíam das partes altas, e a caminhada era complicada, exigindo atenção dos dois. Andaram calmamente pelos becos de pedra, com o vento soprando fortemente sobre eles. Vento que agora estava quente, o que era muito estranho para o jovem Erik. Mas o velho ex-conselheiro liderava o caminho, como se isso não importasse, e de alguma forma aquele lugar parecia uma casa para ele. Os barulhos que às vezes escutavam pareciam ser gritos horripilantes. Passaram entre as grandes galerias de pedra, as quais pareciam se mover. Continuaram por horas até Erik avistar bem ao longe uma tocha se aproximar, e com ela a silhueta de um bruxo forte e alto, com um longo sobretudo de couro e um pano usado como máscara para cobrir suas narinas. Apenas um caminho estreito sobre as fatias de pedra os guiavam, e não havia para onde correr. O velho Anuros parou, retirando o pano do rosto a uma distância segura do bruxo, que se aproximava rapidamente.
- É um Demônio da Areia, não é senhor? – perguntou o jovem assustado ao velho conselheiro, que se mantinha em silêncio.
Nesse momento um vento forte passou sobre as costas dos dois bruxos, e tochas os clarearam ainda mais. Erik se virou com medo, sacando sua espada, e se deparou com mais três bruxos. Viram-se então cercados por Demônios da Areia, cada um com uma tocha e espada em mãos. À frente de Anuros apareceu um bruxo de meia idade, trajando roupas manchadas de poeira, com cabelos longos e negros, enrolados em cera empoeirada, e com barba longa completamente bagunçada. Segurava uma espada pesada, olhando para os dois, e logo despertou um leve sorriso que mais parecia ser de felicidade.
Já na cidade tudo estava confuso. Os guardas-reais procuravam pistas em todos os cantos. Reviravam as casas e hotéis. Queriam saber, a mando do rei, onde se encontrava o maldito padre. Todos os bruxos próximos à Igreja foram interrogados, mas nenhum sabia nada a respeito do velho. Seguindo as ordens reais, todos os suspeitos deveriam ser decapitados após o interrogatório, ali mesmo nos becos e vielas. Muitos foram mortos dentro de suas próprias casas, na frente dos filhos e esposa, e o terror se espalhou pela grande cidade. O povo começara a ter medo do rei que um dia foi justo.
Ninguém sabia nada sobre o paradeiro do padre. Quebrando todas as regras do Livro Sagrado, um grupo de seis paladinos destruiu as portas da Igreja matriz, lançando uma rajada de vento que as fizeram em pedaços. Viram todos os candelabros brilhando, com as velas santas da Igreja, e bem ao centro, entre os bancos de carvalho, estava o padre.
- Como ousam invadir a Casa de Deus? – bradou o padre olhando para os seis bruxos em sua frente.
- Você, padre, é acusado de traição e vai ser levado a julgamento. Mostre as mãos e ajoelhe-se. Ou vamos ter de usar a força? – disse o líder dos paladinos, se aproximando.
- Se vocês, os grandes paladinos, querem atentar contra a vida de um servo de Deus, então venham e tentem.
No mesmo instante todos arrancaram suas espadas, o que fez um barulho cortante ecoar dentro do templo, e partiram em direção ao padre, que não tinha nem uma faca em mãos. Mas quando os paladinos do rei chegaram perto, ele conjurou calmamente com sua voz rouca e grave "mind carcere", olhando para os seis bruxos, que perderam o movimento de seus corpos. Mesmo correndo, parecia que andavam lentamente. Suas juntas endureceram a ponto de demorarem a dar um passo, mas não perderam o equilíbrio. O velho padre pegou a espada da mão do bruxo que liderava o grupo, que se esforçava para falar e correr normalmente, mas era inútil, pois seu corpo não o obedecia. Ele pôde escutar o barulho de sua espada afiada matando cada um de seus subordinados, como golpes certeiros no coração.
- Agora você, paladino, avise seu falso rei que enquanto este velho padre viver ele terá um inimigo à altura. – disse o padre desaparecendo rapidamente. O único bruxo sobrevivente se viu livre do feitiço, e se pôs em uma tristeza incomensurável.
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CARIEL
FantasyEm uma terra onde a desconfiança e a paz andam lado a lado, dois povos vivem separados por um único pacto, selando não só a boa nova entre homens e bruxos, mas também a prosperidade e a boa vontade de um Deus. A cada 500 longos anos este pacto tem d...
