"Quem tem algo por que viver, é capaz de suportar qualquer coisa."
FRIEDRICH WILHELM NIETZSCHE
Corretor ortográfico - ewertonalves93
O Deus Dragão
Ao ouvir tudo sobre o poderoso líder dos únificos, Cariel se mantinha vago e pensativo. Mas em um calmo sorriso ele retomou a palavra, olhando fixamente nos olhos do velho Nada.
- Não há como questionar o poder que ele tem, mas mesmo assim vou me esforçar como um louco. Sei que posso superar tudo e todos. Agora me contem sobre esse Deus Dragão. – disse Cariel, não dando muita importância para o quão poderoso era seu inimigo. – Minha bisavó me contava sobre esta lenda, gostaria de saber mais sobre ela.
- É sempre assim, os fatos inexplicáveis viram lenda. – disse Avalyos.
- Irão contar? – perguntou Cariel, bem sério.
- Bem, vou lhe contar de uma vez um pouco do nosso conhecimento. Encontramos um santuário feito pelos primeiros homens das montanhas celtas, do outro lado do Mar do Norte, num lugar chamado Abaras. Ficava tão alto que até mesmo respirar era difícil. – disse Avalyos enquanto se levantava. No momento seguinte estava sentado no sofá, ao lado de Cariel, de frente para o velho Nada. – Lá estavam os restos do Dragão; um majestoso esqueleto de mais de vinte metros num sarcófago escondido em uma câmara subterrânea. Dentro da grande sala ainda esconderam muitas riquezas e manuscritos, confiscados por nós. E ainda há aqueles que com toda a certeza estão na Cidade Suprema, com os padres. Ficou claro que o tal dragão existiu, mas por algum motivo ele morreu. Então os primeiros homens esconderam seu corpo em um grande santuário, e fizeram dele um mártir. Não sei se você sabe, mas a antiga religião sandraryos dizia que para vencer um grande mal, o Dragão subiu aos céus para impedir que o céu caísse sobre nós. Como um deus nunca morre, as pessoas falavam que ele havia se elevado aos céus, e que os céus teriam se aberto para que ele entrasse, e que um dia ele voltaria para a humanidade, ou mandaria um filho.
- Como você sabe tudo isso? – Cariel perguntou.
- Os manuscritos, Cariel. Os manuscritos. – disse Avalyos enquanto acenava para a mulher no canto esquerdo da sala, pedindo que ela trouxesse mais chá quente. – Pois bem, Cariel. Como ele voltaria algum dia, os homens mantiveram suas orações e continuaram construindo seus templos, mas o tempo passou e a geração mudou, e nunca o Deus Dragão retornava. A fé foi ficando mais fraca, e passaram-se cinco mil anos. Os homens agora estavam incrédulos, e os templos eram ruínas. Quase toda a população não tinha mais uma religião, e governavam através da espada e da dor. Esse período foi definido pelos historiadores como a Era de Sangue, onde os reis eram cruéis até consigo mesmo. Poucos ainda acreditavam em sandraryos. Nos anos que se seguiram os bárbaros surgiam cada vez mais; não tinham limites, só a ganância os movia, e não havia um deus no qual pudessem se apegar, além deles mesmos. A humanidade se tornou egoísta e impiedosa, mentirosos governavam à base de força. O povo tinha o que comer e beber, mas não havia amor nem respeito ao próximo, nem à sua própria dignidade. Mas havia descendentes sandraryanos, homens que venceram o tempo e não perderam a fé. Para muitos, eram loucos. Para poucos, eram exemplos. Esses homens então criaram um grande mito; decidiram trazer vida ao Deus Dragão, que tinha o nome da religião sandraryos, ou a religião tinha o nome dele, enfim, não sei bem ao certo.
- Mas isso é magnífico! Como fizeram para trazer um dragão de volta à vida? – perguntou Cariel aos dois bruxos em sua frente.
- Calma. Escute o que Avalyos tem para dizer, ele contará o que sabemos. Mas não interrompa, pois já é tarde. – disse o velho Nada bocejando.
- Certo.
- Bem Cariel, não interrompa mais, ok? Já irá saber de tudo. – disse Avalyos sorrindo.
- Certo. Pode continuar.
- Onde eu estava mesmo? – perguntou Avalyos coçando a cabeça.
- Na parte em que eles resolveram trazer o Dragão de volta à vida.
- Ah sim, certo. Vamos lá. Trazendo a religião de volta o povo teria temor, e com isso a paz. Acabaria com aquele período de trevas que consumia tudo e todos. Logo eles começaram uma grande campanha de convencimento nos vilarejos e cidades. Lembra que os líderes da religião esquecida sabiam do esqueleto e onde ele estava? Se mostrassem ao mundo o deus morto acabaria a esperança. A ideia de voltar à vida que estava presente na religião, onde um dia ele voltaria para a humanidade ainda mais poderoso, foi feita pelos próprios homens, nunca dita pelo Deus Dragão. Afinal nem sabemos se ele podia falar. Mas vamos deixar isso pra lá, vamos focar na história. Bem, eles saíram pregando que o Deus Dragão renasceria como uma criança e governaria como um rei sobre todos os reis. No início não tiveram problema algum, todos achavam que eram loucos, afinal no meio das praças um deles começava a gritar, chamando a atenção. E assim foi por anos e anos, até que o povo mais humilde começou a acreditar no que eles falam. Pessoas cansadas de sofrer, de pagar impostos. Pais que viam suas filhas sendo estupradas por soldados medíocres e não podiam falar nada começaram a gostar da ideia de um salvador, de um deus que tiraria a maldade dos homens. Nesse tempo o maior dos reis, Abatu, era um velho que só pensava em comer as meninas jovens do reino. Ele ouvir falar sobre o rei que governaria sobre todos os reis, então por medo ele ordenou que matassem todos os membros da religião sandraryos, e assim fizeram. Eles não podiam mais falar sequer o nome da religião no seu reino. Aqueles que estavam se convertendo deveriam ser mortos imediatamente. Depois disso sobraram apenas doze líderes religiosos, que agiam debaixo dos panos. Creio que eles escreveram parte dos manuscritos que lemos. O povo enfim foi contaminado pelas ideias deles, e também teve uma pequena ajuda do rei, que com sua atitude fez o povo acreditar que o Deus Dragão provavelmente renasceria, pois um rei imponente o temia. Foi quando a segunda parte do plano entrou em ação; convenceram o filho mais novo do rei, quando ainda era um adolescente, a ser um fiel sandraryano. Ele ficou tão cego pela religião que acreditava que seu filho seria um deus na terra. O garoto amadureceu com esta ideia, e depois de alguns anos de espera ele viu nascer seu filho, o mais novo membro da maior família de todo o Infernus, príncipe do maior reino de todos, filho do filho mais jovem do rei. Os idealizadores de tudo isso agora eram velhos anciões que tinham mantido sua mentira como os pilares da própria verdade. O velho rei logo morreu e o príncipe mais velho, séptico como o pai, havia assumido o trono. Tomado pelos ideais religiosos e sabendo que seu filho seria o rei sobre os reis, o príncipe Antilos matou seu rei e irmão Urias, tornando-se rei no lugar dele. Sua primeira ordem foi construir um grande templo sandraryo no centro do reino, e fez ser obrigatório que todos frequentassem o templo e que também tivessem a religião como o pilar de suas famílias. Alguns reis tinham medo, outros tinham devoção. A religião tornou-se gigantesca, mas outros reis se levantaram contra ela, para destruí-la. Tentaram descobrir quem era a criança, mas não imaginavam que o garoto já tinha oito anos, e que era filho do rei que tinha um exército gigantesco à sua disposição. Eram doze reinos nessa época, nove se converteram e três continuaram como antes. Esses três romperam as ligações com os outros e iniciou-se uma guerra fria, que durou anos. O filho do rei, o futuro deus na terra, foi treinado em todas as armas, artes marciais, em tudo que podia ser feito para que ele se tornasse um guerreiro sem igual. E então se passaram vinte e cinco anos. A criança era um homem, mas ainda não era um rei, muito menos um deus. Os anciões tinham morrido e passado seu legado a outros. O plano havia entrado na penúltima fase; tornar sandraryos um rei. Os anciões então contrataram assassinos, que invadiram o castelo na surdina da noite e mataram o rei. Assim o príncipe foi coroado rei, assumindo o lugar do pai. Sua primeira ordem fora destruir os reinos que não tinham sandraryos como religião oficial. Ele mesmo liderou os exércitos em uma batalha sangrenta que durou seis anos, e no final tornou-se rei sobre todos os reinos. Mas ele era só um homem pintado de filho de Deus. Acabou se corrompendo, tornando-se frio e egoísta. Mandava e desmandava, queria ser adorado por todos e tudo que tinha era insuficiente. Então o plano entrou na última fase.
VOCÊ ESTÁ LENDO
CARIEL
FantasiEm uma terra onde a desconfiança e a paz andam lado a lado, dois povos vivem separados por um único pacto, selando não só a boa nova entre homens e bruxos, mas também a prosperidade e a boa vontade de um Deus. A cada 500 longos anos este pacto tem d...
