Capítulo 17- O Cantar dos corvos

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"As vezes na vida, nós nos sentimos acorrentados. Sem sequer sabermos, que temos a chave."

Platão


                                                        Corretor ortográfico - @ewertonalves93

                                                                           Boa leitura ..


Nenhuma lembrança é esquecida, ela só dorme calmamente como uma criança levada a descansar no seio de uma família. E no badalar do sino, no grasnar  assustador do corvo faminto ela desperta correndo, até que adormece outra vez. Calmamente, mas nunca para sempre.

- Rei Parks, general Varyos, estão bem? – perguntou Anguriom assustado, vendo em sua frente os olhos esbugalhados dos dois – Meu Rei, seu filho não está morto e nem ferido, porque o brilho foi muito forte. Ele está ótimo, mas o feitiço foi quebrado de alguma maneira por algo mais forte. Era para a luz vinda de seu sangue ter exibido as coordenadas de onde ele está, no entanto posso dizer que ele ainda está bem!

Ao ouvir essas palavras o Rei chorou junto a seu general, como amigos dividindo a mesma dor.

- Isso já enche meu coração de conforto, meu amigo – disse o Rei esperançoso, olhando para seus dois amigos.

- Não meu Rei, não há motivos para conforto. Se seu filho foi levado, como Varyos falou, ele passará por um grande julgamento onde não terá nenhuma defesa, somente o cárcere. Então será condenado à pior e mais vergonhosa morte do reino Humano. O livro das regras diz que ele ficará preso por doze dias até o julgamento. Nisso o povo humano, se quiser, poderá declarar guerra ao reino bruxo que quebrou o Pacto. Mas como ainda não fizeram, vão se contentar com a morte de seu filho.

- Não e não. Eu já disse que não! – gritou Parks batendo com a palma de sua mão ensanguentada sobre a mesa, ao ponto de balançá-la. – Eu sou o REI, o maior de todos! Nunca usei meu poder de soberano como deveria. Nunca infligi medo aos meus inimigos. Mas agora as regras serão despedaçadas e refeitas ao meu favor! – ameaçou ele com tanta raiva que dava para ver a saliva saindo de sua boca, pregando nos longos fios de sua barba bem feita.

- Eu sei meu senhor. Você pode fazer como quiser, mas além daquela floresta há outro rei, e as coisas lá são como ele quer que sejam – respondeu calmamente o conselheiro real ao Rei, que estava bem nervoso sentado à mesa.

- Mas que droga! Do que adianta ter milhares de soldados prontos para a guerra, do que adianta ter seguidores, se não posso salvar meu filho? Diz-me, Anguriom? – perguntou Parks com os olhos marejados, ora com as mãos sobre a mesa, ora enxugando suas lagrimas.

- Meu senhor, um Rei Bruxo pode perder tudo: os súditos, as terras, castelos, exércitos, filhos e filhas, esposas e netos, mas nunca a devoção em nosso Deus. Nunca haveria honra e jamais haveria honestidade. Vossa Majestade está perdendo um filho, mas tem todo o resto: sua honra, sua honestidade, sua fé, seu neto, e tudo mais. – disse Anguriom, mais velho conselheiro a tocar os ombros de um rei cabisbaixo e desiludido.

- Posso falar meu Rei? – perguntou Varyos seriamente com os olhos vermelhos, entendendo a dor de seu amigo, pois também já havia sentido.

- Fale meu amigo. Estou ouvindo.

- General pense antes de falar qualquer coisa – alertou Anguriom, olhando-o com seriedade.

Mas Varyos não o ouviu. Simplesmente sentou-se ao lado de seu Rei, respirando fundo e juntando as mãos sobre a mesa.

- Meu amigo, meu Rei. Há uma forma, mas como disse, é algo muito arriscado. Posso montar um grupo de quatro ou cinco bruxos, jovens e habilidosos, para invadir o império Humano além da floresta e trazer seu filho de volta antes que se passem os doze dias. Mas se eles forem pegos haverá guerra entre nossos reinos, e também entre todos os reinos bruxos, pois nunca nos perdoariam por termos quebrado o Pacto.

- Varyos! – gritou o conselheiro – Essa ideia absurda não deveria nem ter passado pela sua cabeça. Meu Rei, entenda, não seja egoísta. Seu povo não precisa de uma guerra, precisa de paz. Precisa de um Rei que pense nele. 

- Mas eu preciso de um filho, Rodolfo precisa de um pai, e o reino precisa de um Rei. Em breve eu morrerei, e quem assumirá? Você? E ainda vem me falar de egoísmo! – esbravejou Parks mais uma vez, se levantando de sua cadeira e respirando profundamente.

- Meu senhor, a dor de um coração se cura com o tempo. Já as marcas de uma guerra tocam como sinos insaciáveis pela eternidade. Pense um pouco, tente entender!

- Eu entendo, e sei o que vou fazer.  Escute Anguriom, e olhe para mim enquanto falo com você.

- Sim, Majestade. Estou a ouvi-lo.

- Pois bem. Um bruxo, apenas um, consegue matar quantos humanos em uma guerra?

- Muitos, enquanto um deles dificilmente mataria um de nós – disse o conselheiro visivelmente sem graça, abaixando a cabeça.

- Tudo bem, Varyos. O que você tem a dizer dos humanos que viu de longe? Você é o primeiro bruxo a vê-los em quase quinhentos anos.

- Senhor, eles são bem armados, com espadas e flechas. São organizados e protegidos por armaduras de metal. Não se pode ver sequer seus rostos quando estão de elmo, mas é possível matá-los bem mais rápido do que eles nos matariam.

- Então reúna seus quatro ou cinco bruxos. Você está autorizado a resgatar meu filho, e se por ventura houver uma guerra, nós podemos vencê-los antes que a declarem. É isso, está decidido. Esta reunião está acabada!

CARIELOnde histórias criam vida. Descubra agora