As pessoas costumam dizer que a motivação não dura sempre. Bem, nem o efeito do banho, por isso recomenda-se diariamente.
Corretor ortográfico @ewertonalves93
Naquela mesma noite uma forte nevasca pairava sobre o grande castelo negro, que se tornara acinzentado pelo acúmulo da névoa nas beiradas das paredes e nos parapeitos das centenas de janelas, embora algumas delas brilhassem pela luz dos castiçais no interior dos quartos. Tudo estava em um perfeito silêncio, exceto pelo vento que com certa freqüência assobiava ao soprar sobre uma pequena janela entreaberta.
No interior do castelo o velho Nada estava quieto e solitário, bebendo uma taça de vinho no aconchego de seu escritório. Não se sentia bem depois daquela cerimônia fúnebre, pois sabia que a mais derradeira das guerras ainda iria acontecer.
Seu amigo, o bruxo mais poderoso dentre todos, ainda recuperava seus poderes sem entender o motivo da demora, pois já estava livre há vários dias. Mesmo com o frio absurdo da noite ele optava por continuar no terraço de uma das maiores torres do castelo, observando o tímido brilho da Lua por entre as nuvens e os flocos de neve que vagarosamente passavam por ele, sendo conduzidos pelo vento rumo à floresta ao fundo. Noreeu não via a hora de se vingar de todos pelo seu castigo de mil anos; para ele as guerras que viriam antecipando a chegada de seu deus Luano significavam o mínimo de sofrimento que os bruxos deveriam passar até que chegassem a gloria eterna.
Na parte mais profunda do castelo, antecedida de inúmeras galerias e becos estreitos estava a imunda e fétida prisão, encravada na rocha da montanha. Era protegida por um poderoso feitio que retirava os poderes dos que estavam atrás das grades ou acorrentados às paredes de mármore branco que tomavam um tom esverdeado por causa da umidade. Lá a escuridão prosperava dia após dia; quem estivesse preso não via nada, exceto quando fosse receber algum castigo ou quando a prisão passava por alguma vistoria. Os prisioneiros só podiam comer uma vez por semana após o castigo, que variava de acordo com o ânimo do cavaleiro escolhido por Nada. Devido a tamanho sofrimento quase ninguém sobrevivia mais que meros vinte dias de dor e escuridão, fora o terror psicológico que as masmorras os faziam sentir a cada instante.
Dentro da última cela, a mais fria e úmida do grande corredor que antecedia nove das dez celas, Varyos abraçava seu próprio corpo com os pulsos presos a duas longas correntes de chumbo fixadas à parede. Por mais de trinta dias aquela cela lhe servia de aposento. Suas costas estavam repletas de feridas abertas pelas excessivas chicotadas que sofrera, e seu olho esquerdo havia sido transpassado por um fino espeto de ferro em brasas pelas mãos do próprio Vladmir na Sala Real, perante todos os Cavaleiros das Trevas e seus Generais, deixando apenas uma mancha branca e uma cicatriz profunda em seu rosto.
Naquela noite de terça-feira Varyos estava começando a adormecer quando se assustou com o barulho de dois bruxos abrindo os alçapões que desciam as escadas, vindo em direção às celas. Eles conversavam calmamente após descê-las, e não demorou para que ele visse duas tochas brilhantes se aproximando lentamente, como se não tivessem pretensão alguma em estar ali. O medo então o irradiou, afinal Vladmir havia prometido que da próxima vez deceparia sua mão direita com uma espada em brasas. Mas ao ouvi-los com atenção Varyos deu um leve sorriso, apertando seu corpo em suas pernas, deitando em um colchão fino e molhado.
- Há algo que não entendo, Kabal.
- O que você não entende, Antoine?
- Por que diabos você desce aqui com sua espada em punhos? Sei que você é forte o suficiente para lutar com um bruxo velho, sem falar que o coitado está completamente arrebentado pelas torturas que vem sofrendo. E antes que me esqueça, ele nem pode usar os tais poderes grandiosos que dizem que ele possui. – disse Antoine dando um sorriso de deboche, levando as mãos ao cabo de sua espada – Acho que você se tornou um dos grandes generais das trevas por, quem sabe, ser uma das putinhas do velho Nada. Será que estou errado? – indagou sorrindo, vendo Kabal ficar um pouco para trás, aparentemente não dando ouvidos a ele.
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CARIEL
FantasíaEm uma terra onde a desconfiança e a paz andam lado a lado, dois povos vivem separados por um único pacto, selando não só a boa nova entre homens e bruxos, mas também a prosperidade e a boa vontade de um Deus. A cada 500 longos anos este pacto tem d...
