Lembre-se de Sorrir - Valente
Ela apresentou o lugar para ele: os estábulos, os cavalos. Não pediu a ninguém que selassem o equino de seu pai para que seu amigo montasse; ao contrário, ensinou-o a agir por conta própria. Mostrou onde pegar a sela, como colocá-la, como prendê-la, evitando sempre que possível fazer por ele, mostrando de longe como deveria ser feito. Ele se atrapalhou no processo, motivo do riso dela; riso esse que foi motivo do sorriso constante dele. Ensinou ainda ele a melhor forma de montar, como manter a postura, como segurar as rédeas. Era uma boa professora, pensou olhando-a de cima. O rapaz veio a cair umas três ou quatro vezes, fazendo com que a moça risse tão espontaneamente antes de ir a seu auxílio que ele próprio se esquecia de se sentir constrangido, então tentava de novo sorrindo como se nada tivesse acontecido.
Audrey estava resplandecente, absurdamente radiante, como jamais havia estado em muito tempo, quiçá muitos anos. Jay não se lembrava de já ter sentido algo como naquele fim de tarde: a sensação de ser ele o benfeitor, a sensação de salvar alguém de um perigo não físico, a sensação de trazer felicidade, prazer de uma forma inocente... era impagável vê-la tão linda, era impagável sentir-se tão bem, fazendo tão pouco.
Saíram do estábulo quando ele conseguiu comandar o animal sem cair; Audrey agradeceu ao funcionário que ainda mantinha sua égua no lugar, antes mesmo de montar, para agradecer no mesmo nível de olhares e não para olhá-lo de cima. O homem sorriu grandemente ao vê-la tão iluminada, sentindo-se atingir por aquela luz de gentileza feliz e espontânea.
A primeira volta na pista foi em passo lento para pegar confiança; trote em seguida, dessa vez os dois percebendo e acenando para o treinador que estava lado a lado com algum funcionário, os dois numa conversa animada até; Jenkins retribuiu o aceno, sorrindo em seguida. A terceira volta foi a galope. E que volta. O vento no rosto, a sensação de liberdade, de irmandade com o animal; Jay conseguiu entender porque a princesa queria tanto sair do colégio para seguir ao hipódromo. Pensando nela, olhou para o lado, para vê-la, saborear a imagem de seu desejo se concretizando. A forma como a saia dela esvoaçava, como aqueles lindos cabelos voavam, a luz interna que escapava por sua pele, por seus olhos e seu sorriso... Jay estava enfeitiçado por aquele sorriso lindo. Tão enfeitiçado que perdeu o controle e seu cavalo saiu em disparada em direção a um senhor, funcionário, que levava cenouras. Aos risos, Audrey foi mais rápida, emparelhando os dois cavalos, puxando as rédeas de Jay e as suas, fazendo os dois animais pararem.
-Isso foi incrível – riu o garoto. Riu gostosamente como fazia na Ilha depois de um longo período saltando de telhado em telhado, parede em parede – Foi mal – acenou para o funcionário que saiu rindo baixinho da situação depois de passado o susto.
-Sansão adora cenouras – informou a menina se inclinando para acariciar a pelagem branca do cavalo de seu pai depois de cessado seu riso – Mas nunca imaginei que ele faria algo assim. Puxe desse jeito – indicou para ele as rédeas, voltando para a pista, dessa vez em passo lento, conversando – Você leva jeito, Jay.
-Você que é uma boa professora – disse olhando para frente. Soltou uma mão das rédeas, mantendo a firmeza em apenas uma, para acariciar o animal – E ele é um bom parceiro – Sansão relinchou como se o compreendesse e concordasse fazendo com que o rapaz risse.
-Não precisa se diminuir para elogiar, Jay – disse suavemente e aquela seria uma frase que ficaria guardada para sempre no consciente do menino, seus pensamentos sempre iriam voltar àquelas palavras – Pode aceitar o elogio. Você pegou o jeito bem rápido.
-Obrigado – disse sentindo o sabor da palavra, testando-a, lembrando-se das aulas com a Fada Madrinha "é uma forma de gentileza"; foi estranho dizê-la em voz alta e teve certeza que Audrey percebeu seu desconforto, talvez por isso mesmo ela o olhava com tanto carinho: por perceber que aquilo havia sido difícil, mesmo assim ele tentara por ela, para ela.
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Seduzentes
FanfictionExistem formas diferentes de ser mau. A mais interessante de todas elas é arte da manipulação, sedução... Em todos os sentidos da palavra. "Para que colocar fogo no circo? - pensava Mal - Coloque um isqueiro na mão do macaco..." Claro, é uma delíci...
