Após receber um convite do chá revelação da prima Vívian de ver doida ao ter que reencontrar a família após anos do pior acontecimento de sua vida, ao se ver num beco sem saída ela não tem outra escolher a não ser levar seu vizinho o apresentando co...
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| QUATRO DIAS DEPOIS
Durante os dias que se seguiram, algo sutil — e ao mesmo tempo inevitável — foi acontecendo entre mim e Gabriel. A convivência se intensificou. Ele passou a almoçar e jantar em minha casa com tanta frequência que por vezes me perguntei se não estaria confundindo meu apartamento com uma pequena pensão. Mas, verdade seja dita, havia algo de reconfortante nessa rotina partilhada.
Conversamos mais. Descobrimos nuances um do outro que antes passavam despercebidas: nossos gestos pequenos, nossas preferências, os silêncios que dizem mais que as palavras. Um entrosamento silencioso começou a tomar forma, como quem aprende a dançar no compasso do outro, com um certo cuidado para não pisar demais.
— Tenho que ir ao shopping hoje ainda... preciso comprar algumas coisas pra levar. A mala do seu carro é grande, né? — comentei, arrastando minha própria mala do quarto até a sala.
— Cabe sim. Tá de mudança, Vívian? — Gabriel ergueu uma sobrancelha, lançando um olhar desconfiado à mala volumosa.
— Só umas coisinhas pra passar a semana, — respondi com um sorriso contido, ajustando a legging de academia. — Vou tomar um banho e já volto.
Após o banho, nos dirigimos ao shopping. Eu sabia exatamente para quem queria comprar presentes — meus pais, as crianças —, mas não exatamente o quê. As opções me confundiam, e o tempo escorria entre vitrines e sacolas.
— Vai levar o quê pro seu pai? — perguntou ele, sem tirar os olhos das prateleiras.
— Não faço ideia. Talvez uma blusa? — respondi, sem convicção.
— Leva um kit de parafusadeira e uma furadeira.
— Gabriel... nem sei se ele gosta disso. Acho que ele nem mexe com essas coisas.
— Não importa. Todo homem precisa ter. É coisa de necessidade, não de gosto.
Apesar da hesitação, acabei levando o kit. Mas, por precaução, escolhi também uma blusa com um cinto discreto. Nunca se sabe. Para minha mãe, encontrei um jogo de talheres encantador — tão bonito que me peguei desejando-o para mim mesma, não fosse minha cozinha já devidamente equipada. As sacolas começaram a pesar e seguimos para o carro, onde colocamos tudo com algum esforço.
— Queria aproveitar e ver uns biquínis, talvez algo bonito pro chá revelação...
— Tenho que passar no Cidade Jardim pra trocar uma pulseira.
— Ótimo. Aproveito e dou uma olhada por lá também.
Na loja, Gabriel tratou diretamente com a atendente. Ele falava com uma calma que às vezes me desarmava. A moça conferiu a pulseira, avaliou a peça e a nota fiscal com o olhar atento de quem domina o que faz.
— Qual o motivo da troca? — ela perguntou.
— O fecho é... permanente demais, — respondeu, com sua voz pausada, quase cuidadosa. — Não combina muito comigo.