Fumaças e cinzas.

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  Dois dias depois

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Dois dias depois.

Estávamos na adega. Meus pais conversavam entre si com uma naturalidade que me incomodava. Eu, de cabeça baixa, mexia no telefone, ajustando acordos, pagamentos, detalhes que sustentavam o lado invisível da nossa vida. Até que chegou. Uma notificação. Uma foto.

O corpo era apenas uma sombra do que já fora um dia. Carbonizado, irreconhecível, exceto pelos pés — intactos, quase como um lembrete cruel de que, apesar de tudo, ali ainda havia restado algo humano.

— Enrolaram ela num colchão e colocaram fogo. Fizeram parecer suicídio. Tem até carta. — li em voz alta, com um nó na garganta. Meu pai me olhou, confuso. Minha mãe, indiferente, deu de ombros como quem lê a previsão do tempo.

— Menos um problema pra minha cabeça. Pra sua. Pra nossa. — disse ela, seca. — Deixei um bom dinheiro pra família dela.

Dinheiro. Sempre o dinheiro.

— Era uma vida, mãe. Ela tinha um filho. Tinha família. Dinheiro não compra tudo. — neguei com a cabeça, sentindo a revolta subir no peito. Meu pai, como sempre, abaixou os olhos e calou-se.

— Já foi feito. — disse ele, quase num sussurro.

— Já foi feito!? — explodi. — Vocês não fazem nada, e quando decidem agir, fazem isso?! — Minha voz ecoou pelas paredes de pedra. O copo de whisky da minha mãe estalou contra a parede segundos depois. Não pensei. Só agi. Não era mais só sobre certo ou errado. Era sobre o que isso estava fazendo comigo.

— É isso que eu quero de você. Nesse trabalho, ser bonzinho não te leva a nada. — disse ela, como se fosse a coisa mais lógica do mundo.

Foi quando ouvi sua voz. A única que ainda me tirava de mim mesmo.

— Vai embora da minha casa! — Vívian surgiu na porta, envolta numa toalha, os olhos arregalados, o susto estampado no rosto. — Não quero olhar na sua cara!

— O que aconteceu?! — perguntou ao meu pai. Ele respondeu com o mesmo "nada" de sempre. O mesmo vazio disfarçado de normalidade. Fui até ela, puxei seu braço, guiando-a para dentro.

— Para, Gabriel! — ela exigiu, firme. Continuei. — Para! — empurrou-me. E eu parei.

— O que que está acontecendo?! — me olhou com olhos de quem ama e não entende. De quem cuida e está perdendo a paciência.

— Nada... — murmurei. Fraco. Covarde.

— Como nada? Você estava gritando com os seus pais! — ela apontou para a adega. — Você está estranho, Gabriel... — disse, e se afastou. O som dos pés dela no chão soou como um castigo. Um fim que eu não queria.

Levei a mão ao rosto, tentando conter a fúria e a vergonha. Quando olhei para o lado, João estava ali. Calado. Com o Bento nos braços. Seu olhar não julgava, mas pesava.

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