Dificilmente.

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  — Esse travesseiro não tá muito baixo, não? — perguntei à enfermeira, tentando disfarçar o nervosismo na voz

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  — Esse travesseiro não tá muito baixo, não? — perguntei à enfermeira, tentando disfarçar o nervosismo na voz.

Gabriel havia chegado há menos de meia hora, e meu coração já estava uma bagunça. Gente demais em volta dele, perguntas demais, barulho demais. Eu só queria paz. Paz e ele.

— Pode colocar mais um, sim. — Segurei com cuidado a cabeça dele enquanto ela ajeitava o travesseiro.

— Obrigada — sussurrei, como se minha gratidão pudesse equilibrar o universo desajeitado em que estávamos metidos.

Ele já havia sido alimentado, estava limpo, e tudo em ordem — pelo menos na prática. No emocional, bem... Abri a janela para o ar circular, como se o vento pudesse reorganizar meus pensamentos e espantar as dúvidas.

— Nossa, tia, o cabelo dele tá grande mesmo! — Jorge observou, quase como quem comenta sobre um personagem de desenho animado.

— Fala mais baixo, Jorge — Tália sussurrou, com aquela diplomacia típica de quem já entende a importância do silêncio.

— Pode falar normalmente — avisei, mais por cansaço do que por convicção. As crianças entraram no quarto e eu escapei para a cozinha, em busca de refúgio e, quem sabe, uma rodela de limão.

Para os pequenos, o Gabriel estava apenas... dormindo. Meu sogro, num esforço heroico para amenizar o peso do momento, declarou que o genro sofria de "preguicite aguda". Confesso que, dentro do contexto trágico, isso fez um certo sentido poético — e talvez fosse mesmo melhor assim, que eles entendessem dessa forma.

— Sabe que eu tô mais tranquila com ele aqui do que lá no hospital? Parece que tudo vai ser menos difícil.

— E vai ser mesmo — minha mãe respondeu. — Mas dá pra ver que você não gosta muito de todo mundo em cima dele, né?

Neguei com um aceno e uma mordida no limão.

— A Adele tá frágil. O pessoal podia ao menos passar álcool nas mãos.

— Então fala com eles — ela respondeu, prática. — Mas o limão? Tá chupando limão por quê?

— Tô com uma azia enjoada — fiz careta. — A última vez que senti foi quando fui pra pousada com o Gabriel. Primeira viagem. Primeira azia. Um clássico.

— Isso é estresse. Toma um remédio, mulher.

— Já tomei, mas não adiantou. O limão tá me salvando.

— Quando eu for no mercado, trago uns picolés pra você.

— Obrigada por tudo. Por ficar com a gente, por se desdobrar pra me ajudar. — Abracei minha mãe, e naquele abraço eu só queria matar a saudade dele. Do meu Gabriel.

No dia seguinte, fui surpreendida pela iniciativa da minha sogra:

— Eu nem te perguntei se queria festa, mas organizei o mêsversário do Bento. O Gabriel adorava essas comemorações... Não vi razão pra parar.

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