Após receber um convite do chá revelação da prima Vívian de ver doida ao ter que reencontrar a família após anos do pior acontecimento de sua vida, ao se ver num beco sem saída ela não tem outra escolher a não ser levar seu vizinho o apresentando co...
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— Antes de você entrar em coma, eu mandei fazer um colar com a minha digital e a do Bento. — Ela abriu a pequena caixinha aveludada e me entregou o colar de ouro, delicadamente trabalhado, brilhando à luz suave da tarde.
— É muito bonito... obrigado. — segurei a peça entre os dedos, sentindo o peso leve e simbólico daquela corrente.
— Se não quiser usar, eu entendo — disse baixinho, como se esperasse uma recusa.
— Eu gostei. Pode colocar em mim.
Ela sorriu, com um carinho silencioso, e contornou meu pescoço com a corrente. O fecho clicou atrás da minha nuca, e o Bento, atento no meu colo, esticou a mãozinha, tocando o pingente como se reconhecesse algo ali. Seus olhos brilhavam de curiosidade.
Saí com ele para a área externa. Bento estava mais calmo agora, quase contemplativo. A mãe dele trouxe um brinquedo de pelúcia e uma fralda de boca, deixando-os ao nosso lado. Sentei com ele no colo, o ar fresco da tarde amenizando o calor dentro de mim.
— Como você está se sentindo com tudo isso? — Jonatas perguntou, se aproximando. — A perda parcial da memória, ser pai, marido...
— Ficar com o Bento é fácil. E com a Vívian... a gente conversa. — dei de ombros. — Ela entende o meu lado.
— Acha que consegue manter um relacionamento com ela? — ele insistiu, curioso.
Pedro passou por nós, interrompendo com um riso cínico.
— Claro que ele pode manter! — falou num tom sarcástico. — Ela fez por ele o que nem eu e meus irmãos, de sangue, fomos capazes de fazer.
— Não é assim tão simples — Anália disse, em defesa de Gabriel. — Tem que partir de ambos. Vocês têm que pensar em vocês também. No bebê.
Pedro virou-se bruscamente para ela, ríspido:
— Ele não tá aqui pra pensar não! E você só tá confundindo a cabeça dele!
Fiquei em silêncio. As palavras de Pedro me atingiram como um eco desconfortável. Será que ela ainda me queria? Três meses em coma... ela podia muito bem ter conhecido outra pessoa. E, no fundo, parte de mim achava que seria justo. Os médicos diziam que meu caso era quase irreversível.
— Tá tudo bem? — o pai da Vívian apareceu ao meu lado, a voz grave e acolhedora.
— Tô... só pensando. — Ele pegou Bento com cuidado e me entregou um prato com comida e um copo de suco. — Obrigado.
— Se quiser conversar, tô aqui. — Deu um tapinha leve no meu ombro e se afastou.
Acordar sem memória era como voltar à casa depois de um incêndio: as paredes estavam de pé, mas os quadros haviam sumido. Eu não sabia onde estavam guardados nossos melhores momentos. E isso me deixava inseguro. Vívian parecia alegre por eu ter voltado, mas... e se ela estivesse apenas se agarrando ao alívio, ao milagre? E eu? Eu queria lembrá-la, mas ainda tateava no escuro.