Dança.

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Saí do quarto dos meus pais num silêncio quase palpável. A casa parecia dormir, ou talvez estivesse apenas esperando a festa que se aproximava. O Gabriel estava no sofá da sala, envolto na penumbra, a luz da televisão projetava sombras tênues em seu rosto quieto, imerso em seus próprios pensamentos.

— Quer entrar no quarto? — perguntei, hesitando na porta.

Ele assentiu lentamente, o olhar distante.

— Por que não me chamou? — indaguei, tentando alcançar aquele silêncio que o envolvia.

— Não sabia onde você estava... fiquei aqui, te esperando — respondeu, a voz baixa, quase um sussurro.

Um nó apertou minha garganta. Aquela espera silenciosa parecia conter mais palavras do que qualquer conversa poderia.

— Estava no quarto — disse, puxando-o comigo para o nosso refúgio. Ele fungou, um gesto involuntário que parecia carregar o peso do mundo. — E você, onde esteve?

— Lá fora, com seu pai. Parece que a festa junina vai ser boa — murmurou.

Ele tirou a blusa com a calma resignada de quem tenta se proteger do vento cortante da noite. Eu, por minha vez, me desvencilhei do vestido que começava a apertar demais, observando minhas marcas no espelho. As estrias, não novas, ganhavam uma tonalidade mais escura, testemunhas silenciosas das mudanças inevitáveis.

— Está ficando bonito — sussurrei, mais para mim do que para ele.

— Você é a coisa mais linda — retrucou, desviando o olhar quando percebeu que o observava. Havia um encantamento mudo ali, um carinho não dito.

Entrei no banheiro para me recompor. Vesti um antigo vestido longo, quadriculado, o único que ainda se ajustava ao corpo que se ampliava, que já não era só meu. O quadril mais largo, o peito mais pesado, sinais visíveis de uma vida que se expandia além do que eu podia controlar. Coloquei um casaco separado para ele, ciente de que ele enfrentaria a ventania com uma camiseta leve.

— Só Deus — murmurei, sentando-me para colar os cílios, uma tentativa de voltar ao normal.

Uma saudade profunda me invadiu: a da filha que era, da mulher que foi, do silêncio que agora parecia impossível. Lágrimas vieram silenciosas, contidas, que ele logo percebeu.

— Esse casaco é pra mim? — perguntou, segurando a peça.

Assenti, tentando esconder a emoção.

— O que foi? Por que está chorando? — perguntou com preocupação genuína.

— Nada... já vai passar — menti, secando as lágrimas com a ponta dos dedos.

Ele me observou, curioso e um pouco perdido, enquanto eu finalizava minha maquiagem. Quando saímos para a festa, o ar fresco da noite parecia aliviar um pouco o peso que carregávamos.

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