Viagem.

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Estávamos no avião, envoltos por um silêncio raro — desses que só se rompem com o inevitável. No nosso caso, era o choro do Bento que preenchia a cabine com seu lamento baixinho, irritado, como quem protesta contra o mundo. Estava enjoado por causa das vacinas do segundo mês, e eu o entendia: também sentia uma náusea difusa só de pensar em tudo que havíamos passado nos últimos dias.

— Ai, que saco. Quando a gente pensa que vai descansar, sempre tem uma criança chata pra tirar a paz — reclamou um rapaz, a voz carregada de desprezo, ainda mais alta por sua juventude. Devia ter, no máximo, dezessete anos, e já era a terceira vez que fazia um comentário desses.

Pedro, que vinha tentando ignorar, perdeu a paciência.

— Como é que é!? — levantou-se com a fúria cravada na voz. — Tá achando que tá falando de quem, moleque!?

O garoto arregalou os olhos, engolindo seco, e balançou a cabeça em negação, sem coragem de sustentar o próprio veneno.

— Ele só está incomodado com o choro, mas... posso afirmar que não irá dizer mais nada — interveio o pai do menino, tentando apagar o incêndio com uma desculpa ensaiada. — Desculpas.

Concordei com um aceno breve. Gabriel, como de costume, permaneceu em silêncio. E naquela hora, talvez por exaustão, talvez por hábito, aquilo não me surpreendeu nem um pouco.

Amamentei o Bento com o colo manso de quem só deseja silêncio. Aos poucos, ele se acalmou e adormeceu. Encostei a cabeça no banco, fechando os olhos, mas o cansaço maior era dentro.

Desde que Gabriel me dissera que me daria o espaço necessário, ele de fato o fez. Nos últimos três dias, só o vi ao longe — quando pegava o Bento ou o deixava comigo. Não sei dizer se fiquei grata ou ressentida. Às vezes me pergunto se o conheço de verdade, e esses pensamentos me inquietam. Tento afastá-los, claro, porque Gabriel nunca me deu motivo pra desconfiança. Sempre me ofereceu uma segurança que eu, sinceramente, achava impossível depois do que vivi no passado. Mas cicatrizes ardem mesmo sob mãos gentis.

— Será que foi uma boa o meu irmão vir com o João? — murmurei, mais pra mim mesma.

Pedro deu de ombros.

Eles tinham ido lá em casa logo cedo, visitar o Bento, e minha mãe — sempre generosa — os convidou. Eles, que não são bobos, aceitaram. Conseguiram vaga nesse mesmo voo, sabe-se lá a que custo.

— Ele é tranquilo, né? — Pedro gesticulou, como quem tenta medir um furacão com as mãos. — Ou não?

— Isso é um "não", né? — sorri.

— Nem eu era — disse, pensativo, e arqueei a sobrancelha.

— Mas agora tem que ser. Se não sabe ser, aprende — sussurrei, beliscando-o levemente.

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