Mentiras presentes.

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  Dia seguinte.

Acordei com Gabriel me cutucando de leve. Fingi que dormia, os olhos cerrados, a respiração cadenciada, como se o corpo ainda estivesse entregue ao sono. Mas ele insistia, paciente e determinado.

— Vívian, acorda! — disse com a voz calma, quase gentil.

Abri os olhos devagar, rendida, e suspirei me espreguiçando, os músculos ainda relaxados da noite bem dormida.

— Tô sentindo um cheiro bom de comida, acho que o pessoal tá almoçando — completou, com um sorriso que me pareceu mais doce que o habitual.

— Só você ir lá pra fora — murmurei, ainda enrolada nos lençóis, sem muita vontade de levantar.

— Tenho vergonha — confessou, acendendo a luz sem nenhum aviso prévio.

Pisquei várias vezes, ofuscada pela claridade repentina. Ele me olhava com expressão divertida.

— Nossa, parece que você tomou um choque.

— Nossa! — levei a mão ao peito como quem leva um susto — Sua sinceridade me comove — resmunguei, mas um sorriso escapou. Me levantei ajeitando o pijama, resignada.

Peguei um vestido leve e fui direto para o banho. A água morna me despertou por completo. Enquanto me arrumava, ouvia os passos dele no quarto, a movimentação tranquila. Ele entrou no banheiro em seguida, e aproveitei para abrir as janelas — o quarto estava num breu total, e o ar abafado pedia por uma renovação.

— Tem esparadrapo aí? — Gabriel surgiu, secando o cabelo com a toalha, sem camisa, deixando à mostra as tatuagens nos braços.

Por um instante, me desconcentrei. A naturalidade com que ele se movia era quase hipnotizante.

— Hum... acho que tenho! — respondi, remexendo na nécessaire até encontrar.

— Pra que você quer? — perguntei, curiosa.

— Pra grudar a cortina na parede. Tem um feixe de luz aqui! — explicou enquanto executava a tarefa com precisão — Eu cansado tive dificuldade pra dormir, imagina mais tarde.

— Ligo não, pode ligar a lanterna na minha cara — brinquei, dando de ombros.

— Percebi. Cheguei aqui você estava com a janela aberta tomando sol na cara.

— Pior que eu tava mesmo — estalei os lábios, achando graça da própria teimosia.

Passei meu hidratante hipoalergênico, lembrando dele, e um body splash suave. Sabia que ele não curtia cheiros fortes. Me senti satisfeita com o cuidado, até vê-lo borrifando perfume sem moderação.

— Ué! — franzi o cenho, surpresa. — Mas você disse que não gostava de cheiro forte.

— Forte e doce. Esse daqui é suave! — respondeu, como se fosse óbvio. Me aproximei e o cheirei. De fato, era suave. E delicioso.

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