O sopro e a voz.

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Na manhã seguinte, acordamos antes do sol erguer-se por completo

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Na manhã seguinte, acordamos antes do sol erguer-se por completo. O compromisso era inadiável: vacinar o Bento. Apesar de termos condições de pagar por vacinas particulares, eu optava, por princípio, pelo SUS. Sempre me pareceu um contrassenso pagar por aquilo que, por direito, já é nosso.

— Passou... — murmurei, apertando os olhos enquanto embalava Bento com carinho contra o peito. — Já passou, meu amor.

O pequeno chorava com dor e espanto, e mesmo sendo algo corriqueiro, cada picada parecia atravessar também o meu coração. Gabriel acariciava-lhe os cabelos com ternura, como se pudesse, com o gesto, suavizar o incômodo.

— Vou anotar na caderneta. — disse a enfermeira, serena.

Vanessa se aproximou e beijou o neto, com olhos marejados.

— Chorei tanto, vó.

— Chorou mesmo... chorei, vovó, e sou tão feinho chorando! — brinquei, buscando leveza. Minha mãe me lançou um olhar entre divertido e repreensivo.

Na saída, Túlio apareceu com sacolas nas mãos.

— Comprei pêssegos e romãs pra você levar.

— Ainda acho que deveria esperar mais um pouco antes de ir embora. — disse Vanessa, com voz doce e relutante.

— Vai ficar tudo bem, mãe. Qualquer coisa, eu ligo.

— Se quiser deixar os cachorros aqui, seria até melhor.

— Não, obrigada, pai. Eles vão pra creche à tarde. Camila está cuidando da loja com tanta dedicação... na verdade, está gerindo tudo melhor do que eu imaginava.

— É bom ter alguém de confiança. — disse minha mãe. — E ela é caprichosa.

Tália chegou pouco depois com Gustavo e as crianças. Foi Jorge quem anunciou, com brilho nos olhos:

— Achamos o Mateo e o Bento!

— Não acredito! Pensei que esses ursinhos já fossem lenda... — abracei as crianças com força, emocionada. — Obrigada, meus amores.

— É pro Bento não esquecer da gente. — disse Tília.

— Ele não vai esquecer. Vamos fazer chamadas de vídeo todos os dias.

A partida doía mais do que eu imaginava. Quase seis meses vivendo na casa dos meus pais deixaram marcas de aconchego em cada gesto.

— Quando quiser voltar, a porta estará aberta. — sussurrou Túlio, beijando minha cabeça. — Que Nossa Senhora acompanhe vocês e os proteja.

— Que Deus guarde e guie todos os teus pensamentos. — disse minha mãe, passando a mão sobre a cabeça de Gabriel com ternura de mãe e benção.

Nos despedimos, com abraços longos, palavras guardadas e olhos úmidos. Pegamos a estrada rumo à nossa casa em São Paulo. O lar que era só nosso nos aguardava com silêncio e saudade.

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