Após receber um convite do chá revelação da prima Vívian de ver doida ao ter que reencontrar a família após anos do pior acontecimento de sua vida, ao se ver num beco sem saída ela não tem outra escolher a não ser levar seu vizinho o apresentando co...
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— Poxa, Vívian... de ônibus? — Gabriel franziu o cenho como se eu tivesse cometido um sacrilégio doméstico. Sua expressão mesclava surpresa e um certo desconcerto cômico, como se fosse inadmissível eu ter feito algo tão... comum.
— Se eu fosse de Uber, ia demorar o dobro. Peguei o ônibus praticamente vazio — respondi, tirando os sapatos e apoiando a bolsa no aparador da entrada.
— Você que sabe... mas acho que não tem necessidade de andar de ônibus tendo um carro em casa.
— É, né? Mas hoje eu quis — retruquei, com um riso curto, irônico, antes de seguir em direção ao quarto, já puxando a blusa pela cabeça. Ouvi seus passos atrás de mim.
— Sem necessidade — resmungou, e eu bufei, sentindo o pavio encurtar.
— Gabriel! — voltei-me, juntei as mãos, buscando a paz interior que há horas me abandonara. — Pelo amor de Deus, não vamos brigar por causa disso, por favor.
— Tá bem, desculpa! — respondeu com rapidez, antes de virar as costas e sair do quarto, fechando a porta com um baque seco.
Fiquei parada por um instante, sentindo o eco da frustração no ambiente, depois fui direto para o banho. A água quente me envolveu com gentileza e, aos poucos, a tensão começou a escorrer pelo ralo. Quando saí, enrolada na toalha, o cheiro do arroz com alho chegou até mim. Gabriel estava parado ali, segurando uma bandeja com o almoço.
— Tô sem fome de comida — murmurei, exausta. — Meu dia foi tão corrido que até a fome ficou pra trás.
Ele apenas assentiu, calado, e saiu com a bandeja nas mãos.
— Vou fazer uma vitamina pra você — disse ao passar pela porta.
Sentei na cama, permitindo ao corpo o repouso que ele tanto implorava. A ansiedade pela viagem que faríamos no dia seguinte se misturava com o cansaço, e fechei os olhos por alguns minutos. O som do liquidificador me despertou — aquele zumbido alto que cortava o silêncio da casa como uma promessa de cuidado.
Minutos depois, Gabriel entrou com o copo em mãos. Agradeci com um sorriso e bebi tudo de um só gole. A doçura gelada da vitamina foi um alívio instantâneo.
— Obrigada... e me desculpa por antes, pela minha grosseria.
Ele negou com a cabeça, o semblante agora mais sereno.
— Acho que o problema tá em mim. Fico tentando controlar tudo... esqueço que com você, isso não rola — disse, com uma risadinha que me fez sorrir também.
— Não rola mesmo — falei, alisando seu rosto com ternura. — Miu Miu adorou andar de ônibus.
— Duvido! — ele riu alto. — Cheia de charme, chorona! — disse, olhando para a cachorrinha que, nesse instante, mordia seu pé com vigor.