Meu fim.

326 36 6
                                        

  NO DIA SEGUINTE

Ops! Esta imagem não segue nossas diretrizes de conteúdo. Para continuar a publicação, tente removê-la ou carregar outra.

NO DIA SEGUINTE.

Apesar de tudo o que estava acontecendo, aquele dia em casa, ao lado da minha família, trouxe um alívio inesperado. Havia algo de sagrado na rotina, um consolo silencioso no som dos passos conhecidos, no cheiro do café que vinha da cozinha, no simples fato de estarmos juntos.

— Daqui a uns dias eu completo um mês, mamãe... — murmurei em voz doce enquanto trocava o Bento, que chorava com a força e a entrega dos recém-nascidos. — Que saudade eu sentia do teu chorinho dengoso...

Vesti-o com delicadeza e o aconcheguei ao peito. Mesmo ainda manhoso, ele se acalmou um pouco, como se reconhecesse o lugar onde nasceu o mundo.

João se aproximou, acariciando a cabecinha macia do irmão.

— Ele sente falta do pai, não é?

— E muita... — respondi com os olhos marejados. A ausência de Gabriel era um buraco no tempo — fundo, frio, sem nome.

Saí até a área externa da casa. Os cachorros estavam deitados, cabisbaixos, quase como se compartilhassem do nosso luto silencioso. Chamei-os com ternura.

— Vai aonde, tia? — perguntou Tília, surgindo com o olhar curioso.

— Vou dar uma volta com os cachorros.

— Eu quero ir também! — anunciou, já sendo seguida por Jorge e João, animados com a ideia.

— Sem correr, hein? — alertei, tanto às crianças quanto aos cães.

— Daqui a pouco vai ser o Bento correndo por essas ruas — comentou João, sorrindo.

— Nem me fale... O tempo tem passado tão depressa. Logo ele completa quatro meses.

Petin deu um pique atrás do Jorge e quase o derrubou. O menino ameaçou chorar, mas não chegou a cair.

— Nada de lágrimas, campeão. Você continua de pé — brinquei, e ele me olhou entre o choro e o riso. — Garoto... — sorri, fingindo repreensão.

Demos mais uma volta até o cansaço nos chamar de volta. Ao chegarmos em casa, encontrei minha tia — irmã de meu pai — sentada na sala. Sua presença me trouxe uma pontada de surpresa e acolhimento.

— Tia! — a abracei com força. — Não sabia que viria.

Ela me soltou com um sorriso, olhou para minha barriga e tomou Bento nos braços.

— Então foi esse o menino que eu vi em sonho... Que preciosidade. É tão parecido com você.

— A senhora acha? — ajeitei a alça do vestido com certa timidez. — Sempre achei que ele fosse a cara do pai. Essa bochecha enorme, por exemplo...

— Ele é lindo. Mas e você, minha filha? Como está?

— Indo... — suspirei. — Hoje decidi ficar em casa com o Bento. Nos últimos dias, tenho vivido entre corredores de hospital.

Noivos por acaso.  Histórias para pegar e não largar. Descubra agora