Yuki Tsunoda- 3 AM

80 2 0
                                        

Tocar Música da Midia!

Yuki POV

O inverno em Faença é sempre cortante. O frio infiltra-se na pele, na roupa, nos ossos. Sinto-o agora, mesmo estando dentro do meu apartamento, onde a calefação devia ser suficiente para me manter quente. Mas não é. Porque há um frio maior dentro de mim.

Fecho os olhos e respiro fundo, mas a imagem de S/N continua lá. Sempre lá. É estranho como algumas pessoas nos habitam sem esforço, sem convite, como se tivessem sido destinadas a ocupar cada recanto do nosso pensamento. S/N sorri-me na memória e, durante um instante, esqueço-me de que esse sorriso nunca me pertenceu. Nunca foi para mim, não da maneira que eu queria.

Conhecemo-nos há anos, a amizade crescendo de forma natural, como um carro que se adapta ao traçado de uma pista que já percorreu mil vezes. E eu, tolo, deixei-me levar por essa suavidade, por essa cumplicidade que, para mim, era um prenúncio de algo maior. Mas a vida tem uma maneira cruel de nos desmentir quando mais queremos acreditar numa mentira confortável.

S/N ama outra pessoa. E eu sei disso.

Dói admitir, mas a dor não precisa de palavras para existir. Está nas pequenas coisas: no jeito como a sua voz ganha um brilho especial ao mencionar esse nome que não é o meu, na maneira como os seus olhos procuram alguém que nunca sou eu. No início, tentei ignorar. Convenci-me de que era passageiro, de que talvez eu estivesse a ver coisas onde nada havia. Mas o tempo, implacável como sempre, tratou de destruir cada uma dessas ilusões.

O pior é que S/N continua a tratar-me como sempre tratou. Com o mesmo carinho, com a mesma familiaridade. Como se o meu coração não se estivesse a desfazer em cacos sempre que me chama, sempre que me toca num gesto inconsciente de amizade. Nunca percebi como o amor pode ser tão silencioso e, ao mesmo tempo, fazer tanto barulho dentro de nós.

Lembro-me de um dia específico, uma noite de outono, em que o ar estava impregnado com o cheiro a folhas húmidas e terra molhada. Estávamos sentados num café pequeno, escondido numa ruela onde raramente alguém passava. Falávamos de tudo e de nada, ríamos por coisas sem sentido. E então S/N mencionou o nome daquela pessoa. Falou com um calor na voz que me fez apertar os punhos debaixo da mesa, os nós dos dedos pálidos de tanta força. O meu peito doeu, mas sorri. Sempre sorrio. Porque o amor não correspondido tem essa maldição: somos condenados a aplaudir a felicidade do outro, mesmo que isso nos rasgue por dentro.

Por vezes, penso em afastar-me. Criar distância, apagar mensagens sem responder, deixar os telefonemas tocarem até ao silêncio. Mas nunca consigo. Porque mesmo sabendo que isto me destrói, prefiro ter S/N assim, de longe, a não ter de todo. Há uma certa crueldade na esperança, na ilusão de que um dia as coisas possam mudar. Mas não vão mudar. Eu sei que não vão.

Talvez um dia eu consiga libertar-me. Talvez um dia o tempo cure esta ferida que carrego no peito. Mas, por agora, continuo aqui, aprisionado entre o desejo e a realidade, entre o amor que dou e o que nunca recebo em troca. Porque, no fim, o maior sofrimento não é amar sem ser amado. É não conseguir deixar de amar, mesmo sabendo que nunca serei escolhido.

O inverno em Faença continua cortante. Mas o frio maior não vem de fora. Vem de dentro.

Olá pessoal! Espero que tenham gostado deste imagine. Se tiverem algum pedido, não hesitem em fazê-lo que irei com todo o gosto, amor, carinho e dedicação escreve-lo.

F1 ImaginesHistórias para pegar e não largar. Descubra agora