Anahi
A semana passou como um sopro ansioso, e mesmo assim, cada dia pareceu mais longo do que o anterior. Era como viver em dois mundos: o da rotina comum, e o que vibrava só dentro de mim, em silêncio, como uma promessa prestes a ser cumprida.
Na segunda-feira, depois do expediente, eu e Dulce fomos para a minha casa com uma garrafa de vinho, um sorriso cúmplice brincava no rosto dela e aquele brilho nos olhos que ela sempre tinha quando queria fofoca de verdade e fofocamos juntas sobre como final de semana com Alfonso havia sido incrível.
O resto da semana foi uma mistura de organização e ansiedade.
Na terça, voltei a mexer na mala, como se isso fosse me deixar mais preparada. Respondi e-mails, recusei convites, e quando Alfonso me mandou mensagem à noite, dizendo que estava exausto, quase escrevi "estou chegando". Mas me calei. Ainda não era hora.
Na quarta-feira, cuidei de toda a parte burocrática do trabalho. Inventei um "projeto de imersão executiva confidencial" para justificar minha ausência de um mês. Ninguém questionou. Estavam acostumados com meus sumiços calculados.
Quinta foi o dia de checar tudo com Dulce. Nos encontramos em um café e ela parecia ainda mais animada do que eu.
— Ele vai cair pra trás quando te vir. Vai ficar tão desestabilizado que vai errar até o próprio nome.
— Eu só espero que ele sorria. Acho que, no fundo, é isso que eu quero. Ver ele sorrindo quando me ver.
— Você vai ver. E vai sentir que tudo valeu a pena.
E então chegou a sexta.
Trabalhei o dia todo em modo automático. A mala já estava pronta, os documentos separados, o roteiro impresso na mente. Quando Dulce chegou no meu apartamento à noite com a mochila nas costas e o rosto cansado, trocamos aquele olhar de quem não precisava dizer nada. Estávamos prontas.
— Tá levando tudo?
— Menos o juízo. Isso eu deixei aqui mesmo.
Rimos, e comemos qualquer coisa antes de chamarmos o carro. O voo sairia às 4h da manhã. Dormir? Impossível.
Quando o carro chegou, e o motorista desceu para nos ajudar com as malas, senti um frio estranho no estômago. Não era medo. Era expectativa.
— Vai dar tudo certo - disse Dulce enquanto colocava o cinto.
— Vai - respondi, olhando pela janela e vendo a cidade ficando para trás. Vai dar certo sim. Porque dessa vez... eu tô indo por mim. E por ele também.
Nova York nos esperava. E ele também.
.
O avião pousou pouco antes das nove da manhã, e Nova York nos recebeu com aquele caos elegante de sempre. O trânsito já pulsava lá embaixo quando olhei pela janela do avião e vi os prédios recortando o céu. Respirei fundo. Eu estava ali. A poucos quarteirões dele. Mas ele ainda não sabia.
No desembarque, Dulce estava quieta, e eu também. Talvez por cansaço, ou talvez por aquele silêncio que antecede grandes reviravoltas. Pegamos nossas malas e seguimos até a saída do aeroporto, onde um táxi já nos esperava.
— Tem certeza que não quer avisar ele agora? — Dulce perguntou, ajeitando o cabelo ao entrar no carro.
— Quero ver a cara dele quando me ver. Preciso disso.
— Drama queen.
Sorri.
Do banco de trás do táxi, digitei uma mensagem para Alfonso como se estivesse a quilômetros dali:
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THE ESCORT
FanfictionOntem quando saí da cama osol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou foi eu e eu já não sei se isso é vida.
