Ian
Era quase meia-noite quando deixei o celular cair no sofá, os olhos ardiam de cansaço, mas a cabeça seguia funcionando como uma máquina girando em pânico. Eu não sabia quantas ligações tinha feito naquele dia. Contatos antigos, novos, jornalistas, advogados, até gente do submundo da imprensa que jurou nunca mais pisar em Nova York. Tudo por ela.
Anahi.
Se tem uma coisa que aprendi ao longo da vida, é que a verdade sempre cobra o seu preço — mas o silêncio também.
E naquele dia, eu estava tentando silenciar o mundo por ela.
A bomba estava prestes a explodir, e eu sabia disso. Vi nos olhos de Alfonso quando ele me mostrou o dossiê — vi mais do que preocupação. Vi culpa. Dor. E uma raiva silenciosa que só um homem apaixonado conseguiria esconder com tanta firmeza.
Ele me contou tudo. Sobre Nate. Sobre tudo que aquele desgraçado fez durante os anos de casamento. Como controlava e manipulava. E como Anahi se calava — talvez por medo, por vergonha, ou talvez porque já havia vivido algo parecido com isso antes com Alfonso. Hoje reconheço que ele mudou, mas não é como se ele já não tivesse feito algo parecido.
De toda forma, Anahi sempre foi minha amiga. Minha melhor amiga. Mesmo quando ela desapareceu por cinco anos. Eu nunca deixei de me perguntar onde ela estava, se estava segura, se ainda era a mulher que ria alto demais quando bebia vinho barato.
E agora, ela estava de volta. E mais uma vez, em perigo.
Usei todos os contatos que tinha. Mobilizei gente que devia favores antigos. Interrompi reuniões, virei noites e ainda mandei a Maite dormir com a Lia em nosso quarto, já que o escritório ficava ao lado do quarto de Lia e eu não queria acorda-la — ela entendeu, acreditou que fosse demanda de trabalho.
Passando a noite em busca de tentar conter toda aquela merda que poderia explodir a qualquer momento, eu entendi, mais do que nunca que se tem uma coisa que eu odeio nessa vida, é ver alguém sendo injustiçado por algo que já teve coragem de enterrar.
Às 3h47 da manhã, recebi uma mensagem de um velho amigo meu, trabalhando na parte interna de um dos maiores portais de entretenimento do país. A mensagem dizia apenas:
"Consegui segurar o conteúdo por algumas horas. Mas não sei se os outros também conseguirão."
Naquele instante, eu percebi: o estrago já tinha começado. Como água vazando por rachaduras de um dique que ninguém mais conseguiria conter.
Dormir foi uma piada. O sol nasceu, cinza e sem força, e eu já estava de pé antes mesmo do despertador tocar.
Quando caminhei até a cozinha, com a camisa amarrotada e a mente mais cansada do que nunca, o celular vibrou no balcão. Muitas vezes.
Liguei a tela.
E tudo parou.
O rosto dela. O de Alfonso. O passado que ela lutou tanto pra esconder. Os títulos sensacionalistas. As fotos antigas. As datas. As ligações forçadas. As insinuações baixas.
Estava em todos os lugares. Sites de fofoca. Blogs corporativos. Revistas financeiras. Até em fóruns anônimos.
Anahi tinha virado manchete. Da pior maneira possível.
Fechei os olhos, praguejando em silêncio. Queria quebrar alguma coisa. Gritar. Desfazer o tempo. Ter feito mais. Ter feito antes.
Mas não havia mais tempo.
Só havia consequências.
E o silêncio do mundo, que agora gritava o nome dela com crueldade.
Eu só conseguia pensar em uma coisa:
"Ela vai achar que falhamos com ela."
Mas eu não falhei.
Eu lutei até o último segundo.
E agora... agora eu lutaria de novo.
Porque se tem uma coisa que aprendi sendo amigo da Anahi, é que você não desiste de alguém só porque o mundo virou as costas.
A gente enfrenta. A gente protege.
Mesmo quando já é tarde demais.
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THE ESCORT
FanfictionOntem quando saí da cama osol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou foi eu e eu já não sei se isso é vida.
