Capítulo 97

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Anahi

O sol ainda não tinha subido por completo, mas a cidade já respirava apressada. O táxi parou diante do prédio da HE, e por um segundo, fiquei ali, sentada no banco traseiro, encarando o reflexo da minha própria hesitação no vidro. O motorista pigarreou, educadamente impaciente.

— Pode deixar o troco — murmurei, saindo com passos firmes demais para o caos que habitava dentro de mim.

Entrei na empresa como se estivesse entrando em uma trincheira. Ajeitei a alça da bolsa no ombro, inspirei fundo e cruzei o saguão, forçando uma neutralidade no rosto. Não podia demonstrar nada. Não hoje. Não aqui.

A culpa era um vestido pesado que eu usava por baixo da roupa social. Cada passo era um lembrete de que o passado que lutei tanto para enterrar estava, agora, respirando bem perto da superfície.

Dulce ainda dormia quando saí. Eu não tive coragem de contar a ela. Ela me conhecia o suficiente pra saber que algo estava errado, mas dessa vez... eu simplesmente não consegui formar palavras.

Cruzei a catraca e caminhei pelo corredor que levava à sala de reuniões da manhã. Eu queria apenas entrar, sentar, fingir normalidade e seguir. Até onde fosse possível.

Mas ele estava lá.

Encostado à parede do corredor principal. Terno cinza-escuro, mangas dobradas nos antebraços, expressão intransponível. A pasta de couro em uma mão. A dor muito bem contida no olhar.

Alfonso.

— Bom dia — murmurei, tentando passar direto.

Ele esticou o braço, bloqueando a passagem.

— Precisamos conversar.

— Agora não, Alfonso.

— Agora, sim.

Eu fechei os olhos por um segundo, tentando me recompor. A presença dele me desestabilizava mais do que eu gostaria de admitir. Principalmente agora.

— Vai me dizer o que está acontecendo com você? — ele perguntou, com a voz baixa, mas firme.

— Estou cansada. É só isso.

— Não. Não é. — Ele inclinou levemente a cabeça. — Eu te conheço, Anahi. Cansada, você briga. Estressada, você grita, reclama, encara. Mas isso aqui... — ele apontou para mim, devagar, com os olhos fixos nos meus — isso é medo.

Engoli em seco. Não esperava por aquilo. Não esperava por tanto acerto em tão poucas palavras.

— Alfonso, me deixa passar. Por favor.

— Se você me disser a verdade.

Eu não respondi. Só fiquei ali, olhando para ele, sentindo a garganta se fechar. Queria chorar. Queria correr. Queria contar tudo.

Mas como se conta que você ta sendo ameaçada? Como se entrega na mão de alguém que você ama — e que pode ser destruído junto com você — a bomba-relógio que você tentou desativar por anos? Ainda que essa pessoa conheça cada parte do seu passado

— Anahi — ele disse, mais suave dessa vez. — Eu sei que tem algo te machucando. E eu sei que você acha que está me protegendo ao se afastar. Mas...

Eu recuei um passo.

Ele parou também. Como se respeitasse meu espaço, mesmo implodindo por dentro.

— Eu não quero te pressionar — ele continuou. — Só quero que saiba que eu estou aqui. Do seu lado. Não importa o que seja.

Aquelas palavras doeram mais do que qualquer acusação.

Eu quis perguntar: mesmo se o mundo souber quem eu fui?
Mas o medo era paralisante.

— Eu preciso ir. A reunião... — tentei retomar o controle.

— Não tem reunião hoje — ele cortou. — Cancelei. O que quer que esteja acontecendo, é mais importante do que qualquer planilha.

A ficha caiu. E o estômago afundou.

Ele sabia.

Ou, pelo menos, sabia o suficiente para não fazer as perguntas erradas.

— Quem te contou? — sussurrei.

— Ninguém me contou.

Demorei alguns segundos para entender.

— Você viu. — A constatação saiu arranhada. — Você viu a foto?

Ele não negou. Não precisava.

O mundo girou um pouco mais devagar. A respiração falhou.

— E mesmo assim... você ainda está aqui? Não está com medo de perder tudo? Eu sou uma bomba relogio, Alfonso.

Ele se aproximou, com calma, como se eu fosse feita de vidro. E talvez eu estivesse mesmo em cacos.

— Anahi, você é a mulher que eu amo. Nada do que estava naquele envelope muda isso.

— Mas muda o mundo, Alfonso. Muda como as pessoas me olham. Como falam de mim. Como vão falar de você.

— Eu não me importo.

— Você deveria.

— Eu não me importo com o mundo. Me importo com você.

Fechei os olhos. E então, a dor veio. Não em gritos ou lágrimas, mas em silêncio. Na forma de um tremor discreto nos dedos. Na rigidez do queixo. No nó que não descia da garganta.

— Você não entende... — murmurei. — Eu lutei tanto pra sair daquilo. Pra construir algo. Pra ser alguém além daquela história. E agora ela voltou. Com força. Com intenção. E vai me engolir, Alfonso. Vai nos engolir.

Ele aproximou a mão do meu rosto, mas não me tocou. Como se soubesse que o toque certo na hora errada poderia me quebrar.

— Eu não vou deixar que nada engula você. Não dessa vez.

Tive vontade de acreditar.

Mas o medo era antigo. Conhecido. E feroz.

— Me dá só um tempo. Um pouco mais. Eu... preciso colocar a cabeça no lugar, me entender, sei lá.

— Promete que não vai fugir?

A pergunta me desmontou.

— Prometo.

Ele assentiu. Um gesto pequeno. E respeitoso.

Nos separamos ali. Cada um carregando o peso do que sabia — e do que ainda estava por vir.

THE ESCORTOnde histórias criam vida. Descubra agora