Alfonso
Já era o terceiro café que eu tomava naquela manhã. Amargo, forte, quase tão amargo quanto a sensação que insistia em crescer no meio do peito. E mesmo assim, continuava cansado.
Mas não era cansaço de corpo. Era um esgotamento mais fundo. Silencioso. Como uma rachadura invisível, crescendo pouco a pouco.
Anahi tinha se distanciado de mim. E eu não entendia por quê.
Era sutil no começo. Os sorrisos demorando a vir, os beijos ficando mais breves, os abraços menos espontâneos. Depois, vieram os silêncios. E as desculpas — sempre muito bem articuladas — sobre estar "exausta" e "precisar de um tempo". Foi assim que ela disse que passaria a noite no apartamento que dividia com Dulce durante a imersão. Eu só assenti, fingindo compreensão. Mas algo ali doeu fundo.
Eu já a tinha perdido uma vez.
E embora estivéssemos mais maduros, mais fortes, mais nossos... eu ainda temia perdê-la de novo.
Naquele mesmo dia, cruzei com Dulce no fim do expediente, no corredor lateral da HE. Ela segurava um tablet, os fones ainda pendurados no pescoço.
— Dulce — chamei.
Ela parou, e seus olhos já diziam que ela sabia exatamente o que viria a seguir.
— Oi, Alfonso.
— Você sabe o que está acontecendo com a Anahi?
Ela hesitou. Seus dedos apertaram mais forte o tablet contra o peito.
— Alfonso... eu juro que queria saber. Mas não sei. Ela se fechou até pra mim.
— Nem uma pista?
— Nada. Ela só disse que precisava de espaço. Mas não me disse por quê. Eu tô tão perdida quanto você.
Minha mandíbula travou. Aquilo só tornava tudo ainda mais estranho.
— Dulce — minha voz saiu mais baixa dessa vez. — Se você souber de qualquer coisa... qualquer detalhe...
— Eu aviso. Pode confiar. Eu também tô preocupada com ela.
Assenti em silêncio, observando enquanto ela se afastava. E doía saber que nem Dulce, que sempre soube atravessar os silêncios de Anahi, estava conseguindo alcançá-la.
Voltei ao meu escritório. E lá estava. Um envelope pardo, deixado na recepção, endereçado a mim, sem remetente. O tipo de coisa que geralmente passaria por filtros de segurança — mas na HE, eu também gostava de receber o que não passava.
Não o abri ali. Não consegui. Guardei-o na pasta e levei comigo quando Taylor estacionou o carro na saída da empresa.
— Algum problema, senhor Herrera? — ele perguntou.
— Ainda não sei — respondi, encarando o envelope no colo como se ele carregasse dinamite.
No carro, a cidade fluía lá fora, mas meu peito era o oposto de fluido. Estava tenso, comprimido, inquieto.
Cheguei em casa. Tirei o paletó, afrouxei a gravata, servi um uísque sem gelo — como fazia sempre quando precisava de clareza. E sentei na poltrona da sala.
O envelope estava ali.
Respirei fundo.
E abri.
Era um dossiê.
Minucioso. Organizado. Frio.
Cada página parecia gritar uma parte do passado de Anahi. Ali estavam fotos antigas, capturas de tela, recibos, relatos, datas. E bem no topo — como uma assinatura cruel — a primeira transferência. A minha. Meu nome. Meu banco. A noite que trouxe ela para a cobertura pela primeira vez, foi a única transferencia que fiz, lembro-me dela ter solicitado, mas depois Anahi quis dinheiro vivo. Lembro de ter providenciado, levei até o apartamento em que ela morava e la foi a primeira vez que nos tocamos como homem e mulher. Que começamos tudo.
— Que porra é essa? — murmurei, baixo, para mim mesmo.
Continuei folheando. Vi clientes. Nomes. Lugares. E vi também manipulações evidentes — tentativas de transformar vivências em escândalos, de explorar vulnerabilidades como se fossem crimes.
Mas o mais cruel era o fato de que, em meio a tudo aquilo, muitas coisas eram verdade.
Eu sabia quem Anahi tinha sido. Eu tinha conhecido aquela versão dela. Fui parte dela.
Mas o mundo... o mundo não sabia.
E ali estava o risco.
A HE era forte, blindada por contratos, por acionistas, por reputações que custaram décadas para se construir. E eu podia ter dinheiro suficiente para cinquenta vidas. Mas Anahi tinha muito mais a perder.
Ela tinha sua liberdade. Sua reconstrução. O respeito que conquistou com suor. O nome que ergueu com esforço e dor. E eu... eu não sabia até onde essa ameaça poderia ir.
Fechei a pasta e passei a mão pelos cabelos.
Quem tinha mandado aquilo?
O nome não estava. Mas a intenção, sim.
Machucar. Desestabilizar. Semear dúvida.
Anahi tinha visto esse dossiê. Agora eu tinha certeza.
Ela se afastou não por medo de mim.
Mas por medo do mundo.
Apertei o copo entre os dedos.
Eu não tinha vergonha dela, não mais.
Mas aquilo podia explodir. A qualquer momento. Nas mãos erradas.
E eu precisava proteger o que tínhamos.
É que nós já tínhamos sobrevivido ao fim do mundo uma vez.
E estávamos prontos para outra.
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THE ESCORT
FanfictionOntem quando saí da cama osol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou foi eu e eu já não sei se isso é vida.
