Capítulo 96

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Alfonso

Já era o terceiro café que eu tomava naquela manhã. Amargo, forte, quase tão amargo quanto a sensação que insistia em crescer no meio do peito. E mesmo assim, continuava cansado.

Mas não era cansaço de corpo. Era um esgotamento mais fundo. Silencioso. Como uma rachadura invisível, crescendo pouco a pouco.

Anahi tinha se distanciado de mim. E eu não entendia por quê.

Era sutil no começo. Os sorrisos demorando a vir, os beijos ficando mais breves, os abraços menos espontâneos. Depois, vieram os silêncios. E as desculpas — sempre muito bem articuladas — sobre estar "exausta" e "precisar de um tempo". Foi assim que ela disse que passaria a noite no apartamento que dividia com Dulce durante a imersão. Eu só assenti, fingindo compreensão. Mas algo ali doeu fundo.

Eu já a tinha perdido uma vez.

E embora estivéssemos mais maduros, mais fortes, mais nossos... eu ainda temia perdê-la de novo.

Naquele mesmo dia, cruzei com Dulce no fim do expediente, no corredor lateral da HE. Ela segurava um tablet, os fones ainda pendurados no pescoço.

— Dulce — chamei.

Ela parou, e seus olhos já diziam que ela sabia exatamente o que viria a seguir.

— Oi, Alfonso.

— Você sabe o que está acontecendo com a Anahi?

Ela hesitou. Seus dedos apertaram mais forte o tablet contra o peito.

— Alfonso... eu juro que queria saber. Mas não sei. Ela se fechou até pra mim.

— Nem uma pista?

— Nada. Ela só disse que precisava de espaço. Mas não me disse por quê. Eu tô tão perdida quanto você.

Minha mandíbula travou. Aquilo só tornava tudo ainda mais estranho.

— Dulce — minha voz saiu mais baixa dessa vez. — Se você souber de qualquer coisa... qualquer detalhe...

— Eu aviso. Pode confiar. Eu também tô preocupada com ela.

Assenti em silêncio, observando enquanto ela se afastava. E doía saber que nem Dulce, que sempre soube atravessar os silêncios de Anahi, estava conseguindo alcançá-la.

Voltei ao meu escritório. E lá estava. Um envelope pardo, deixado na recepção, endereçado a mim, sem remetente. O tipo de coisa que geralmente passaria por filtros de segurança — mas na HE, eu também gostava de receber o que não passava.

Não o abri ali. Não consegui. Guardei-o na pasta e levei comigo quando Taylor estacionou o carro na saída da empresa.

— Algum problema, senhor Herrera? — ele perguntou.

— Ainda não sei — respondi, encarando o envelope no colo como se ele carregasse dinamite.

No carro, a cidade fluía lá fora, mas meu peito era o oposto de fluido. Estava tenso, comprimido, inquieto. 

Cheguei em casa. Tirei o paletó, afrouxei a gravata, servi um uísque sem gelo — como fazia sempre quando precisava de clareza. E sentei na poltrona da sala.

O envelope estava ali.

Respirei fundo.

E abri.

Era um dossiê.

Minucioso. Organizado. Frio.

Cada página parecia gritar uma parte do passado de Anahi. Ali estavam fotos antigas, capturas de tela, recibos, relatos, datas. E bem no topo — como uma assinatura cruel — a primeira transferência. A minha. Meu nome. Meu banco. A noite que trouxe ela para a cobertura pela primeira vez, foi a única transferencia que fiz, lembro-me dela ter solicitado, mas depois Anahi quis dinheiro vivo. Lembro de ter providenciado, levei até o apartamento em que ela morava e la foi a primeira vez que nos tocamos como homem e mulher. Que começamos tudo.

— Que porra é essa? — murmurei, baixo, para mim mesmo.

Continuei folheando. Vi clientes. Nomes. Lugares. E vi também manipulações evidentes — tentativas de transformar vivências em escândalos, de explorar vulnerabilidades como se fossem crimes.

Mas o mais cruel era o fato de que, em meio a tudo aquilo, muitas coisas eram verdade.

Eu sabia quem Anahi tinha sido. Eu tinha conhecido aquela versão dela. Fui parte dela.

Mas o mundo... o mundo não sabia.

E ali estava o risco.

A HE era forte, blindada por contratos, por acionistas, por reputações que custaram décadas para se construir. E eu podia ter dinheiro suficiente para cinquenta vidas. Mas Anahi tinha muito mais a perder.

Ela tinha sua liberdade. Sua reconstrução. O respeito que conquistou com suor. O nome que ergueu com esforço e dor. E eu... eu não sabia até onde essa ameaça poderia ir.

Fechei a pasta e passei a mão pelos cabelos.

Quem tinha mandado aquilo?

O nome não estava. Mas a intenção, sim.

Machucar. Desestabilizar. Semear dúvida.

Anahi tinha visto esse dossiê. Agora eu tinha certeza.

Ela se afastou não por medo de mim.

Mas por medo do mundo.

Apertei o copo entre os dedos.

Eu não tinha vergonha dela, não mais.

Mas aquilo podia explodir. A qualquer momento. Nas mãos erradas.

E eu precisava proteger o que tínhamos.

É que nós já tínhamos sobrevivido ao fim do mundo uma vez.
E estávamos prontos para outra.

THE ESCORTOnde histórias criam vida. Descubra agora