Anahi
Acordei com a cabeça latejando. A luz fraca que entrava pelas frestas das janelas encobertas me fazia arder os olhos. Meus pulsos latejavam pela pressão das cordas. Estava deitada em um velho colchão no chão, em um cômodo apertado, úmido, de paredes descascadas. Cheiro de mofo, de ferrugem. De desespero.
Minha última lembrança era entrar em um táxi no aeroporto e percebe que o motorista era Nate, depois disso, não me lembro de mais nada, só de acordar no mesmo lugar em que estou agora acompanhada de um homem completamente descontrolado.
Eu estava perdida nos meus pensamentos, meu corpo doía, não sabia quanto tempo duraria aquilo e meus olhos varriam o local tentando encontrar como fugir.
E então ouvi seus passos. Precisos. Metódicos. Nate.
A porta rangeu, e ele apareceu. Com um prato nas mãos e aquele sorriso torto, doentio, desenhado no rosto.
— Trouxe comida pra você — disse, como se fôssemos um casal apaixonado dividindo o café da manhã. — Você precisa comer, meu amor.
Virei o rosto, com náusea.
— Não vou colocar nada na boca. Prefiro morrer.
Ele se agachou, segurando meu queixo com força, obrigando-me a encará-lo.
— Você não vai morrer. Não sem mim. — A voz dele deslizava entre carinho doentio e ameaça velada. — A gente tem uma vida inteira pela frente. Juntos.
Tentei cuspir nele, mas estava fraca. Apenas desviei o rosto, trincando os dentes.
Ele largou o prato no canto e puxou meu braço com força.
— Levanta. Você vai ao banheiro.
Caminhei trêmula, os pés descalços raspando no chão áspero. Ele soltou minhas mãos só quando entramos no banheiro minúsculo. Fiquei encarando o espelho rachado, vendo meu reflexo devastado. Olheiras fundas, rosto pálido, cabelo desgrenhado. Não me reconhecia.
Quando terminei, estendi os braços, esperando que ele me amarrasse de novo. Mas recuei.
— Não — sussurrei. — Eu não vou mais ser tratada como um animal.
Ele se aproximou, os olhos escurecendo.
— Anahi, não me faz perder a paciência.
— Não. — Dei um passo para trás. — Eu não vou mais deixar você me amarrar.
A mão dele se ergueu. Por um segundo, achei que ele ia me bater. Senti o vento do movimento antes que ele fechasse o punho e acertasse a parede, bem ao lado da minha cabeça.
— EU NUNCA QUIS ISSO! — ele berrou, tremendo. — Mas você me obriga! Você ME OBRIGA A SER ASSIM!
Eu chorei, mas não de medo. De ódio. Nojo. Desespero.
Ele puxou o celular do bolso, ligou e virou a tela para mim.
— Vê? — sussurrou, a voz embargada. — Todo mundo te procurando. Abutres. Alfonso, a polícia, imprensa... Mas eles nunca vão te achar. Nunca.
Na tela, ví videos, fotos, manchetes, pessoas aos berros do lado de fora da sede da minha empresa. Meus funcionários chorando. Alfonso andando de um lado pro outro, desesperado.
— Eles nunca vão te encontrar, Anahi. Porque você é MINHA. Sempre foi. Sempre será.
Ele jogou o celular no chão, esmagando-o com o salto.
— Eu te amo, caralho! — gritou, e de repente sua voz quebrou. Caiu de joelhos, as mãos na cabeça. Começou a chorar. Alto. Descontrolado. — Por que você me obriga a fazer isso? Por que, Anahi?
Fiquei olhando para ele. Aquele homem destruído. Doente. Irrecuperável.
— Porque eu NUNCA mais vou ser sua. Nunca mais. Nosso casamento acabou. Acabou, Nate.
Ele ergueu o rosto. O choro cessou. Como se tivesse apertado um botão.
O olhar vazio.
Ele puxou uma arma da cintura, destravou e apontou para mim.
— Então talvez... talvez a gente devesse morrer juntos. Como Romeu e Julieta. — O sorriso dele era torto, trêmeo. Insano. — Se você não pode ser minha... ninguém mais pode.
Meu coração disparou. Minha respiração falhou. Pela primeira vez, pensei que talvez aquele fosse o fim. E que ele estava disposto a ir até as últimas consequências.
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THE ESCORT
Fiksyen PeminatOntem quando saí da cama osol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou foi eu e eu já não sei se isso é vida.
