Um ano depois
A vida tem um jeito estranho — quase poético — de devolver aquilo que um dia tentou nos tirar. E, olhando para onde estou agora, ainda me pego questionando como, em meio a tanto caos, eu fui abençoado dessa forma. Nunca achei que fosse merecedor de algo tão grandioso, tão puro. Mas, de algum modo, a vida — ou talvez ela — me escolheu.
Desembarquei em Nova York ao entardecer, vindo da Ásia, onde estive nos últimos dias fechando um dos maiores contratos da história da HE. Enquanto o motorista percorria as ruas que já conhecia tão bem, tudo que eu conseguia pensar era nela. Sempre nela. Meu lar não era mais aquela cobertura de vidro e mármore. Meu lar tinha nome, olhos cor de mar e sorriso capaz de iluminar qualquer escuridão.
Quando entrei no prédio, algo me pareceu diferente. A portaria sorria mais, como se soubessem de algo que eu não sabia. Peguei o elevador, o coração acelerando, um pressentimento bom crescendo no peito.
Assim que a porta da cobertura se abriu, a penumbra me envolveu, quebrada apenas pela luz suave e dançante de dezenas de velas brancas. Estavam espalhadas por todo o hall, seguindo um caminho que atravessava a sala, contornava a cozinha, passava pela escada e seguia até um dos quartos de hóspedes.
Sorri. Anahi. Ela sempre soube exatamente como transformar minha volta em algo memorável. Nunca falhava. Nunca.
Segui as velas, lentamente, com o coração pulsando mais forte do que quando fecho negócios multimilionários. No fundo, eu sabia que ela estava preparando algo. E eu, que já tinha tudo, ainda me sentia o homem mais sortudo do mundo por tê-la.
Quando empurrei a porta do quarto, ela estava ali. Linda. Deslumbrante. Usava um vestido branco leve, os cabelos soltos em ondas, o sorriso mais doce que já vi na vida. Estava de mãos para trás, os olhos brilhando de ansiedade e amor.
— Vem aqui, meu amor. Senti saudades — ela disse, com aquela voz que sempre teve o poder de me desmontar.
Me aproximei sorrindo, envolvi sua cintura com os braços e beijei seus lábios com a fome de quem ficou dias longe do que mais ama. E foi então que senti. Algo sendo colocado na palma da minha mão.
Me afastei um pouco, curioso, e olhei.
Era um teste de gravidez.
Positivo.
3+.
O mundo parou.
— Isso é... — minha voz falhou, e uma onda quente, quase insuportável de emoção me tomou. — Anahi... amor... é real?
Ela assentiu, os olhos marejados, mordendo o lábio para segurar o sorriso.
— É real. Você vai ser pai.
Caí de joelhos ali mesmo, segurando a barriga dela, apertando-a contra mim como se precisasse ter certeza de que aquilo era verdade, que não era um sonho, que a vida não estava, mais uma vez, me pregando uma peça.
— Deus... — murmurei, a voz embargada. — Eu... eu não mereço tudo isso. Mas obrigado. Obrigado por você. Obrigado por essa família. Por tudo que você me deu, Anahi.
Ela se abaixou, segurou meu rosto entre as mãos e me olhou como sempre olhou: como se eu fosse a melhor parte de um mundo quebrado.
— Você merece, Alfonso. Sempre mereceu. Você só não sabia.
Meses se passaram. Cada ultrassom era uma nova chance de me apaixonar por elas. Quando ouvi o som daquele coraçãozinho pela primeira vez, percebi que não sabia o que era amor até aquele instante.
E então, numa manhã fria de dezembro, ela veio ao mundo.
Mia Herrera.
Perfeita. Pequena. Cabelos escuros, pele clarinha, os olhos... ah, os olhos. Eram os olhos da mãe. Aqueles mesmos olhos que um dia me ensinaram que amar não era uma fraqueza. Era a minha maior fortaleza.
Quando a segurei pela primeira vez, percebi que não havia mais espaço para dor, culpa ou passado. Tudo havia valido a pena. Cada erro. Cada cicatriz. Porque tudo me levou até ali. Até elas.
Hoje, vejo Anahi sorrindo no jardim enquanto Mia dá seus primeiros passinhos. Ouço suas gargalhadas. E tudo dentro de mim se aquieta. Se completa.
O homem que, um dia, achou que não sabia amar, agora é amado além de qualquer medida. E ama de volta com tudo o que tem.
Esse é o nosso felizes para sempre.
E, se a vida quiser, ele será eterno.
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THE ESCORT
FanfictionOntem quando saí da cama osol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou foi eu e eu já não sei se isso é vida.
