Capítulo 94

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Alfonso

Ela estava diferente.

Desde o jantar, algo nela havia mudado — e não era uma mudança sutil. Anahi tinha aquele tipo de presença que, mesmo em silêncio, fazia a sala respirar ao redor dela. Mas depois daquilo... era como se tivessem desligado a luz por dentro. O brilho dos olhos, a leveza dos gestos, a forma como ria com Dulce e provocava Ucker — tudo desapareceu depois que ela mexeu no celular.

E eu notei.

Não disse nada na frente de ninguém, claro. Mas notei.

O caminho de volta foi silencioso. Eu dirigia, e ela olhava pela janela como se esperasse que a cidade resolvesse um enigma que só ela conhecia. Quando estacionamos na garagem do prédio, segurei sua mão, firme.

— Você vai me dizer o que aconteceu? — perguntei, sem rodeios.

Ela piscou devagar, como se estivesse se forçando a sair de dentro da própria cabeça. Sorriu, mas foi um sorriso pequeno. Quase triste.

— Só estou cansada.

— Mentira. — Disse com calma, mas com firmeza. — Eu te conheço, Anahi. A gente acabou de sair de um jantar divertido. Você estava rindo, leve, linda... e de repente parece que viu um fantasma.

Ela hesitou. Por um segundo, achei que falaria. Vi os lábios se entreabrirem, os olhos oscilarem, como se a verdade estivesse encostada na garganta, quase escapando. Mas não veio.

— Foi só um gatilho. Não é com você. Eu só... preciso de um tempo. Um banho. Dormir. Amanhã eu vou estar melhor. Prometo.

Tive vontade de insistir. De pressionar. Mas algo me disse que forçar seria pior. Então respirei fundo, beijei o topo de sua cabeça e murmurei um "ok". Entramos no apartamento e fomos direto para o quarto. Anahi desapareceu no banheiro enquanto eu tirava os sapatos e soltava o nó da gravata. Quando ela saiu, já de camisola, entrou direto debaixo do edredom. Não pediu carinho, não me abraçou.

Ela tremia.

Deitei ao seu lado, a envolvi com meu corpo, puxei seu quadril contra o meu, e murmurei em seu ouvido:

— Eu tô aqui, tá?

Ela assentiu. Mas ficou em silêncio.

E eu fiquei acordado por horas, sentindo a respiração dela no meu peito e tentando entender o que a havia quebrado tão rápido.

.

Na manhã seguinte, acordei com a campainha tocando. Me vesti rapidamente e ao abrir a porta do quarto, minha mãe estava no corredor, a surpresa me atingiu como um tapa de café frio.

— Mãe?

— Bom dia pra você também, Alfonso.

Ruth Herrera, com sua elegância implacável e olhos inquisidores, caminhou pela sala como um furacão bem vestido. Carregava sua bolsa Louis Vuitton como se fosse uma espada.

— A Maite me ligou ontem. Disse que você está "perdendo a cabeça" e pediu que eu viesse ver o que está acontecendo. Imaginei que fosse algo sério.

— Sério o suficiente pra você pegar um voo?

— Eu sou sua mãe. E quando a sua irmã liga chorando, dizendo que você está com "a garota do passado que destruiu sua vida", eu venho. Então, o que está acontecendo?

Sentei no sofá. Convidei-a a fazer o mesmo.

— A Anahi está aqui. Estamos juntos. De novo.

Ruth ergueu uma sobrancelha.

— Maite surtou ao vê-la na HE.

— Porque não conhece a história toda. Nem metade dela. Mas mãe, eu não quero falar sobre isso agora. Não com todo mundo ainda.

— Então você está escondendo alguma coisa? — ela perguntou, com aquela serenidade que só as mães dominam.

— Não estou escondendo. Só... não é o momento. Tem coisas que ainda estão sendo resolvidas. Coisas difíceis.

Ela me olhou por alguns instantes longos. Seus olhos buscavam os meus como se tentassem atravessar a camada de silêncio que eu estava impondo.

— A única coisa que importa, Alfonso, é se você está feliz.

— Eu estou. Pela primeira vez em anos. Com ela, eu sou inteiro.

— Então por que parece que você está com medo?

Suspirei, passando a mão no rosto.

— Porque o passado tem garras. E eu sei que uma hora ele vai tentar arranhar tudo o que a gente tá construindo de novo.

Ruth assentiu devagar.

— Você sempre teve medo de não estar no controle. Mas algumas coisas, filho... você só vai conseguir proteger amando direito. Estando do lado. Sendo verdadeiro.

— E você? Vai estar do nosso lado?

Ela se levantou, caminhou até mim e segurou meu rosto com as duas mãos.

— Eu sempre estive. Mesmo quando você não sabia.

Abracei minha mãe com força. Aquela conversa, mesmo densa, era o que eu precisava para lembrar que havia ainda mais em jogo agora. Não era apenas sobre nós dois. Era sobre proteger aquilo que finalmente estava florescendo de novo.

.

Mais tarde, já no escritório, Anahi passou por mim no corredor. Ela usava um vestido bege elegante e o cabelo preso com presilhas douradas. Tinha um sorriso no rosto, mas os olhos continuavam diferentes. Tensos. Cuidadosos. Como quem anda sobre cacos de vidro.

Toquei seu braço com suavidade e sussurrei:

— Preciso de você comigo. Hoje. Aqui. E fora daqui.

Ela me olhou por alguns segundos.

— Eu tô tentando, Alfonso. Mas tem coisas que eu preciso resolver sozinha primeiro.

Aquilo doeu mais do que qualquer soco.

Mas assenti.

Eu respeitaria o tempo dela. Mas faria de tudo para descobrir o que estava por trás daquele silêncio repentino. Porque algo me dizia... era só o começo.

E quando o passado bate à porta com tanto ódio, ou a gente enfrenta, ou ele arranca tudo que amamos.

E dessa vez, eu não ia deixar.
Não ia perder Anahi de novo.

THE ESCORTOnde histórias criam vida. Descubra agora