Capítulo 108

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Anahi

Foram dois dias que pareceram dois anos. Eu já não sabia mais onde começava o tempo e onde ele terminava. As paredes mofadas e fechadas daquele cativeiro pareciam se fechar mais a cada hora. A cada respiração.

O cheiro era uma mistura nauseante de mofo, suor e sangue seco. Meus pulsos latejavam, marcados pelas cordas que os prendiam às barras metálicas da cadeira. Minha boca estava seca, meus olhos pesavam, mas o medo... esse estava tão vivo que parecia pulsar no ritmo do meu próprio coração.

Nate andava de um lado para o outro. As mãos nos cabelos, os olhos dilatados. Às vezes murmurava sozinho. Às vezes, falava comigo como se estivéssemos numa conversa normal. Outras, explodia, chutando as coisas, gritando, quebrando o que encontrasse pela frente.

— Você é minha. Sempre foi. Sempre. — Ele cuspia as palavras, os olhos tão arregalados que pareciam saltar do rosto. — Você fugiu de mim, você me traiu! Achou que podia viver como se eu não existisse?

O silêncio era minha única defesa. A boca tremia, o corpo inteiro tremia. Eu só tinha medo. Nada além de medo. Quando ele veio até mim, puxou meu cabelo e me fez encará-lo, eu quis desaparecer.

— Vai fingir que não me ouve? Vai continuar me desafiando? — O tapa veio seco, tão forte que minha cabeça girou. Senti o gosto do sangue na boca. Meu rosto queimava, latejava.

Quando ele desceu o zíper da própria calça, eu achei que ia vomitar. O pânico me invadiu por completo. Fechei os olhos, as lágrimas escorriam sem controle. Meu corpo inteiro encolhido, implorando, mesmo que em silêncio, que aquilo não acontecesse. Que alguém... qualquer um... me tirasse dali.

— Você é minha, Anahi... minha... — Ele repetia, com aquele tom doentio, os dedos passando pelo meu rosto marcado. — Sempre foi, sempre será.

Mas então... então veio o som.

Tiros.

Primeiro um. Depois vários. Estalos secos, rápidos, seguidos de gritos. Vidro quebrando. Portas sendo chutadas. E o pavor que já me consumia deu lugar a um alívio que parecia tão irreal quanto aquele pesadelo.

A porta do cativeiro arrebentou.

Homens de preto invadiram, armados, gritando comandos que eu mal conseguia entender.

— NO CHÃO! AGORA! DEITA! MÃOS NA CABEÇA!

Vi Nate virar, puxar uma arma, mas não deu tempo. Um dos policiais acertou sua mão com um disparo certeiro. Nate gritou, caiu de joelhos, mas não antes de Alfonso surgir atrás, empurrando quem quer que fosse, e simplesmente desferir um soco tão forte no rosto dele que quase o fez voar para trás.

— SEU DESGRAÇADO! — Alfonso rugiu, socando-o mais uma, e outra, e mais uma vez. Só parou quando dois policiais seguraram seus braços.

— Basta! — um dos oficiais gritou. — Já temos o suficiente! Ele tá rendido!

Nesse meio tempo, paramédicos correram até mim. Minhas mãos foram libertadas, meu corpo colocado rapidamente numa maca. Eu tremia tanto que não sentia as pernas.

— Respira, tá? Você tá segura agora. Tá com a gente — disse uma das socorristas, com uma voz que parecia longe e perto ao mesmo tempo.

Ao sair, a luz do dia bateu tão forte que meus olhos arderam. Mas nada, absolutamente nada, doía mais do que aquilo que eu tinha passado lá dentro.

Do lado de fora, vi Dulce. Ela correu até mim, e quando nossos olhos se cruzaram, ela simplesmente desabou em prantos.

— Ai, meu Deus... Anahi! — Ela me abraçou forte, tanto quanto o espaço permitia. — Eu achei que... eu achei que não ia mais te ver!

Mas antes que eu pudesse responder, Alfonso correu até mim. O olhar dele... Deus... nunca tinha visto aquele olhar. Era pavor, era alívio, era amor.

— Você tá bem? — ele perguntou, ofegante, segurando meu rosto, beijando minha testa, minha boca, minhas mãos.

— Eu... eu tô... — sussurrei, antes dos paramédicos o afastarem.

— Precisamos levá-la agora — disseram.

— Eu vou atrás! Eu vou estar lá, tá? — Alfonso gritou, segurando minha mão até o último segundo antes da porta da ambulância se fechar.

O hospital foi um borrão de vozes, luzes, cheiros. Me deram banho, cuidaram dos meus ferimentos, me examinaram inteira. E depois, a polícia veio. Contei tudo. Tudo. Cada detalhe. Cada dor. Cada medo.

Horas depois, Alfonso e Dulce entraram no quarto. Ele praticamente correu até mim, me puxou pra si e selou nossos lábios como se precisasse me sentir viva para acreditar que tudo aquilo tinha acabado.

— Você tá aqui — ele sussurrou contra meus lábios.

— Eu tô aqui... — respondi, com a voz trêmula.

Dulce se juntou a nós, me abraçando forte, as lágrimas dela escorrendo no meu ombro.

— Eu... eu achei que... — Ela não conseguia nem completar a frase. — Eu achei que te perder, Anahi. Eu achei...

— Ei... — acariciei o rosto dela, com a pouca força que tinha. — Eu tô aqui. Tá? Eu tô aqui.

Alfonso apertou minha mão, beijou-a com tanta força, tanta intensidade, que parecia uma promessa não dita.

— Nunca mais... — ele sussurrou. — Nunca mais alguém vai te tocar. Nunca mais alguém vai te ferir. Eu juro pela minha vida, Anahi. Nunca mais.

E pela primeira vez, desde que aquele pesadelo começou, eu consegui respirar. Mesmo que só por um instante, eu senti que, enfim, estava segura.

THE ESCORTOnde histórias criam vida. Descubra agora